Crise no Golfo pode pressionar preços de combustíveis no Brasil, mas risco de desabastecimento é considerado baixo, indica FUP
O dirigente da FUP também avalia que a valorização do barril de petróleo pode trazer efeitos positivos para a economia brasileira
247 - A escalada das tensões no Golfo Pérsico e os riscos de interrupção em rotas estratégicas para o transporte de petróleo podem pressionar os preços internacionais do barril e gerar efeitos indiretos sobre a economia brasileira. Apesar desse cenário de instabilidade geopolítica, especialistas avaliam que não há perspectiva de desabastecimento de combustíveis no Brasil no curto ou médio prazo. As informações constam em análises divulgadas por entidades do setor energético.
Segundo o coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, o principal impacto para o país tende a ocorrer nos preços dos combustíveis, especialmente por causa da dependência de importações de derivados.
“O Brasil é autossuficiente na produção de petróleo cru e hoje é um importante exportador do insumo. Por isso, a alta internacional não tende a gerar impacto imediato na oferta interna. O que pode ocorrer é um efeito preço e aumento de custos, principalmente porque o país ainda importa derivados, como o diesel”, afirma.
De acordo com Bacelar, não há sinais de que o país enfrente uma crise de abastecimento. No entanto, a volatilidade do mercado internacional pode provocar aumento nos custos dos combustíveis. Ele destaca que esse impacto pode não ser imediato nas bombas, pois a Petrobras dispõe de instrumentos para reduzir oscilações bruscas do mercado externo.
Desde 2023, a estatal deixou de utilizar exclusivamente o PPI (paridade de preço de importação) como referência para a formação dos valores dos combustíveis e passou a adotar uma política conhecida como “abrasileiramento dos preços”, que leva em conta fatores internos do mercado nacional.
O dirigente da FUP também avalia que a valorização do barril de petróleo pode trazer efeitos positivos para a economia brasileira, como maior entrada de dólares e melhora no saldo das contas externas, já que o país exporta petróleo. Ainda assim, ele defende o fortalecimento da cadeia energética nacional.
“Há necessidade de alcançarmos autossuficiência no refino do petróleo e na produção de combustíveis fósseis, mas principalmente precisamos avançar na produção de combustíveis sustentáveis e voltar à distribuição e comercialização destes combustíveis, tendo em vista que a BR Distribuidora e a Liquigás foram privatizadas no governo Bolsonaro”, completa Bacelar.
A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Ticiana Alvares, avalia que o atual cenário internacional reforça a importância de ampliar a produção interna de insumos considerados estratégicos.
“Num cenário de crise do multilateralismo e de interrupção de transporte marítimo, quanto mais o Brasil conseguir internalizar sua produção de bens e insumos estratégicos, mais protegido estará desse ambiente geopolítico”, afirma.
Segundo a especialista, o Brasil ainda depende significativamente da importação de diversos produtos energéticos, como diesel, querosene de aviação e gás de cozinha. A dependência também ocorre no setor de fertilizantes, no qual cerca de 85% do consumo nacional é importado.
Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicam que o país produz aproximadamente 4 milhões de barris de petróleo por dia, enquanto o consumo interno de derivados gira em torno de 2,6 milhões de barris diários.
Para o economista Cloviomar Cararine, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), os números mostram que o Brasil possui uma margem relevante de segurança no abastecimento interno.
“Momentos de guerra geram instabilidade global, mas no caso brasileiro não há perspectiva de problemas de abastecimento no curto ou médio prazos”, afirma.
Ainda assim, Cararine ressalta que o país importa cerca de 600 mil barris diários de derivados de petróleo, sendo aproximadamente 300 mil barris apenas de diesel. Essa dependência pode gerar pressão sobre os preços internos e contribuir para o aumento da inflação.
Segundo o economista, o cenário internacional também pode provocar mudanças nas rotas comerciais do petróleo, abrindo novas oportunidades para a exportação do produto brasileiro, especialmente para mercados asiáticos.
Por outro lado, ele alerta que a elevação do preço dos combustíveis pode afetar diretamente os custos de transporte e logística no país, impactando diversos setores da economia e contribuindo para pressões inflacionárias no mercado interno.


