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Elon Musk diz que poupar para aposentadoria será inútil com avanço da inteligência artificial. Será?

Visão de abundância com inteligência artificial ignora concentração de renda e dinâmica do capitalismo

Elon Musk diz que poupar para aposentadoria será inútil com avanço da inteligência artificial. Será? (Foto: REUTERS/Nathan Howard)

247 - O biolionário Elon Musk afirmou em entrevista ao podcast Moonshots with Peter Diamandis, que poupar para a aposentadoria “não vai importar” no futuro.

Segundo ele, a inteligência artificial e a robótica levarão a uma era de abundância extrema. “Não se preocupe em guardar dinheiro para a aposentadoria daqui a 10 ou 20 anos. Isso não vai importar”, disse Musk, ao projetar um mundo em que a IA superaria a inteligência humana e eliminaria a escassez de bens e serviços. 

Para ele, o trabalho se tornaria opcional e daria lugar a uma espécie de “renda universal de ‘você pode ter o que quiser’”.

No entanto, no capitalismo, abundância tecnológica não significa distribuição de riqueza. A principal fragilidade dessa visão está em confundir capacidade produtiva com distribuição de riqueza. Mesmo que a tecnologia permita produzir mais com menos trabalho, isso não garante acesso igualitário aos bens e serviços.

Na lógica capitalista, os ganhos de produtividade historicamente se concentram nas mãos de quem detém os meios de produção. O próprio Musk, que detém uma fortuna estimada em aproximadamente US$ 839 bilhões, o equivalente a mais de R$ 4 trilhões, é um exemplo dessa concentração.

Ainda que a inteligência artificial amplie a oferta de bens e serviços, isso não implica automaticamente que eles serão acessíveis a todos. Sem mecanismos de redistribuição, como políticas públicas ou regulação, a tendência é de aprofundamento das desigualdades.

Musk projeta que até 2030 a inteligência artificial superará “a inteligência de todos os humanos combinados”. Nesse cenário, ele acredita que haverá mais robôs humanoides do que pessoas no planeta, o que mudaria radicalmente a lógica econômica atual.

Ele afirmou que boa parte das profissões, especialmente as de “colarinho branco”, tende a ser substituída. “Qualquer coisa que não envolva moldar átomos, a IA pode fazer provavelmente metade ou mais desses trabalhos agora”, declarou.

Com isso, a produtividade global poderia alcançar níveis tão elevados que superariam “o que as pessoas poderiam conceber como abundância”. Para Musk, esse salto tornaria obsoleta a relação entre trabalho, renda e consumo, ou seja, o trabalho deixará de ser necessário. 

Para analistas, em vez de extinguir o trabalho, a automação tende a transformá-lo, muitas vezes ampliando a precarização, como já ocorre atualmente. Profissões desaparecem e novas formas de ocupação surgem, mas frequentemente com menor proteção social e renda mais baixa.

Nesse contexto, a aposentadoria continua sendo um desafio central, já que trabalhadores com vínculos precários têm mais dificuldade de contribuir para sistemas previdenciários ou ter uma reserva para esse período da vida.

Além disse, é o mínimo controverso que o bilionário mais rico do mundo e que continua a acumular riqueza diga que o dinheiro se tornaria irrelevante. Em uma economia de mercado, o acesso a bens e serviços depende da capacidade de pagamento, e não apenas da existência desses bens.

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