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Palantir e o risco do tecnofascismo: Sérgio Amadeu alerta para ameaça à soberania digital do Brasil

Sociólogo afirma à TV 247 que empresa ligada à CIA, ao Pentágono e ao governo Trump representa uma nova fase da dominação tecnológica dos Estados Unidos

Sergio Amadeu denuncia os riscos da Palantir (Foto: Brasil 247)

247 – O sociólogo Sérgio Amadeu afirmou, em entrevista ao programa Forças do Brasil, da TV 247, apresentado por Mário Vitor Santos, que a Palantir se tornou uma das expressões mais claras do que ele define como “tecnofascismo”: a fusão entre big techs, inteligência artificial, militarização, supremacismo político e interesses geopolíticos dos Estados Unidos.

Segundo Amadeu, a empresa fundada por Peter Thiel, empresário ligado à extrema direita do Vale do Silício, nasceu com apoio da CIA e sempre atuou próxima da inteligência norte-americana, do Pentágono e de forças militares aliadas. “A Palantir é uma empresa de tecnologia, de soluções, principalmente em softwares e inteligência artificial, que foi fundada por um grande líder da extrema direita do Vale do Silício”, afirmou.

Palantir e o risco do tecnofascismo: Sérgio Amadeu alerta para ameaça à soberania digital do Brasil

Empresa nasceu ligada à inteligência dos EUA

Amadeu lembrou que Thiel, também fundador do PayPal e ex-sócio de Elon Musk, ficou conhecido por uma frase que sintetizaria sua visão política: “A liberdade já não consegue mais conviver com a democracia”. Para o sociólogo, essa formulação revela a ligação entre neoliberalismo radical e autoritarismo tecnológico.

Ele destacou que a Palantir recebeu aporte inicial da CIA e se consolidou como fornecedora de soluções para inteligência e defesa. “A CIA dizia que precisava de uma empresa de confiança. Então, a Palantir vem desde o começo trabalhando para a inteligência americana e para as Forças Armadas americanas, depois para as Forças Armadas de Israel e para as Forças Armadas britânicas”, disse.

Na avaliação de Amadeu, o problema ganhou nova dimensão após a própria Palantir divulgar, em sua conta oficial no X, um resumo de ideias do livro A República Tecnológica, de Alex Karp, CEO da empresa, escrito com Nicholas Zamiska.

“Pluralismo é coisa para perdedores e fracos”

Segundo Amadeu, o texto publicado pela Palantir convoca o Vale do Silício a abandonar o discurso de neutralidade e colocar sua capacidade tecnológica a serviço da defesa dos Estados Unidos e do chamado Ocidente.

“O Vale do Silício tem uma dívida moral com o país que tornou possível sua ascensão”, disse Amadeu, citando a ideia central do manifesto. Ele acrescentou que, no texto, a elite de engenharia do Vale do Silício é chamada a participar da defesa nacional.

Para o sociólogo, a Palantir deixou de esconder sua ideologia. “Eles nem mais colocam o véu de que são neutros, são comerciais. Esses caras estão aqui no Brasil andando nos corredores da administração pública federal”, alertou.

Amadeu afirmou ainda que a empresa combate a diversidade e o pluralismo. “Ele diz que pluralismo é coisa para perdedores e fracos”, afirmou, referindo-se ao conteúdo divulgado pela companhia.

Palantir, Gaza, ICE e contratos civis

O sociólogo também associou a atuação da Palantir a operações militares e de vigilância. Segundo ele, a empresa esteve envolvida em ações ligadas às Forças Armadas de Israel, ao aparato de imigração dos Estados Unidos e ao uso de dados para identificar e perseguir imigrantes durante o governo Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.

“A Palantir tem software usado pelo ICE, essa polícia de imigrantes do Estado do Trump, para detectar imigrantes e prendê-los”, afirmou.

Amadeu também citou a entrada da empresa em contratos civis, especialmente na área de saúde pública. Ele mencionou o caso do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, onde a contratação da Palantir enfrentou resistência de médicos, ativistas e organizações como a Anistia Internacional.

Entrada no Brasil preocupa especialistas

No Brasil, Amadeu afirmou que a Palantir entrou inicialmente no estado de São Paulo durante a pandemia, por meio de doações de software, e depois permaneceu em estruturas da administração pública.

Ele também disse que a empresa atua no governo federal de forma indireta, por meio de parcerias com a Amazon Web Services e o Serpro. “O próprio Intercept fez uma busca dos contratos da Palantir no governo federal, não achou nenhum. Mas por onde ela entra? Ela entra via parceria Serpro-AWS”, afirmou.

Para o sociólogo, esse modelo mascara a presença da empresa em áreas sensíveis da gestão pública. “É extremamente perigoso você utilizar as soluções dessa empresa para um país que quer ter autonomia, autodeterminação”, alertou.

Soberania digital é condição para soberania nacional

Amadeu defendeu que o Brasil precisa construir infraestrutura tecnológica própria e reduzir sua dependência das big techs. “Não dá para você ter soberania nacional hoje sem ter soberania digital”, afirmou.

Segundo ele, soberania digital não significa isolamento, mas capacidade de controlar tecnologias essenciais para garantir a autodeterminação nacional. “É você ter condição de controlar tecnologias que garantam sua autodeterminação”, disse.

O sociólogo criticou a dependência de empresas como Amazon, Microsoft, Oracle, Google e Meta em áreas estratégicas. “Soberania não é depender de nenhuma big tech”, afirmou.

Pix, WhatsApp e disputa pelo controle dos pagamentos

Amadeu também citou o Pix como exemplo de solução tecnológica nacional bem-sucedida. Para ele, o sistema brasileiro impediu que a Meta avançasse sobre os meios de pagamento no país por meio do WhatsApp.

“O Pix arrebentou esse sonho do Mark Zuckerberg”, disse. “O Brasil tem soluções tecnológicas que dá para fazer, e funciona.”

Ao final da entrevista, Amadeu defendeu que o Brasil use sua capacidade científica, universitária e tecnológica para construir alternativas próprias. “Nós temos muita coisa para fazer e a gente consegue fazer”, afirmou.

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