Estudo da LCA aponta que crédito caro é a maior causa da inadimplência
Levantamento aponta que juros elevados, sobretudo no rotativo, pressionam renda das famílias enquanto gastos com apostas têm impacto reduzido
247 - O aumento da inadimplência no Brasil tem relação direta com o custo elevado do crédito, especialmente nas modalidades de curto prazo, e não com despesas com entretenimento, como apostas esportivas. É o que aponta um estudo recente que analisa o perfil do endividamento das famílias brasileiras diante do cenário de juros elevados.
Os dados fazem parte da pesquisa “Retrato do Endividamento no Brasil”, elaborada pela LCA Consultoria e divulgada pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR). O levantamento indica que o uso de crédito caro, em especial o cartão de crédito rotativo, compromete quase 30% da renda das famílias.
Segundo o estudo, o rotativo do cartão de crédito aparece como o principal fator de pressão sobre o orçamento doméstico. Em dezembro de 2025, os juros dessa modalidade chegaram a 438% ao ano, com taxa de inadimplência de 64,5%. Esse cenário afeta diretamente a capacidade de pagamento dos consumidores. Outras linhas também apresentam custos elevados: o cheque especial registra juros de 139% ao ano, enquanto o crédito parcelado no cartão atinge 188% ao ano.
O levantamento destaca ainda o chamado “paradoxo da renda”. Mesmo com a melhora de indicadores econômicos — como a redução do desemprego e o aumento da renda média real —, a inadimplência com dívidas financeiras alcançou 5,2% em fevereiro de 2026. Isso indica que o avanço da renda não tem sido suficiente para compensar o peso dos juros elevados, que consomem parcela crescente do orçamento familiar.
Em relação às apostas esportivas, o estudo aponta impacto limitado no consumo. Esse tipo de gasto representa apenas 0,46% do total, com média mensal de R$ 122 por apostador — cerca de 3,3% da renda média. O perfil dos apostadores é predominantemente jovem e masculino, enquanto os inadimplentes tendem a ser mais velhos, com distribuição equilibrada entre homens e mulheres.
Na comparação com outros itens, os juros da dívida somam R$ 696,8 bilhões, o equivalente a 8,6% do consumo das famílias. Já despesas com celulares e acessórios chegam a R$ 152,1 bilhões (1,88%), serviços de streaming a R$ 69,7 bilhões (0,86%) e apostas a R$ 37,5 bilhões (0,46%).
Para o presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), Plínio Jorge Lemos, o foco do debate público deve ser direcionado ao custo do crédito. “As apostas esportivas não são as vilãs do endividamento no Brasil. O foco do debate público deve estar na educação financeira, na regulação do crédito e na redução dos juros, em vez de culpar um setor que representa menos de 1% do consumo familiar. E nós, do setor de apostas esportivas, estamos unidos para ajudar o governo na busca por ações que venham ter efetivo resultado sobre esse grande problema”, afirmou.


