Fintech ligada à Igreja da Lagoinha tem atividades suspensas na Receita
Clava Forte Bank teve CNPJ colocado como suspenso e afirma que encerrou operações desde 2025
247 - A Clava Forte Bank, instituição financeira criada pelo pastor e cantor gospel André Valadão, fundador da Igreja Batista da Lagoinha, interrompeu suas atividades menos de um ano após entrar em operação. Dados do sistema da Receita Federal mostram que o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) da empresa está com status “suspenso” desde 12 de janeiro, o que, na prática, impede o funcionamento da fintech e a obriga a interromper a prestação de serviços financeiros, informa o Metrópoles.
De acordo com o registro cadastral, a suspensão foi realizada pela própria empresa junto à Receita Federal, o que significa que, enquanto durar essa situação, a instituição fica impedida de operar e também desobrigada de recolher tributos ou enviar declarações fiscais. A Clava Forte Bank foi fundada em março de 2024, mas só iniciou efetivamente suas atividades meses depois, com a proposta de atuar como um banco voltado ao público cristão.
Procurada pelo Metrópoles, a assessoria de imprensa informou que as operações foram encerradas ainda no segundo semestre do ano passado, embora o CNPJ não tenha sido baixado de forma definitiva. Em nota enviada, a empresa afirmou: “A Clava Forte Bank atuava como uma fintech de uso específico, voltada exclusivamente ao atendimento de igrejas, com foco em pagamentos de contas e serviços administrativos, não realizando operações abertas ao público em geral. Desde o encerramento de suas atividades, portanto, não há operação ativa, nem oferta de serviços financeiros".
Segundo informações da Receita Federal, o capital social da Clava Forte Bank é de R$ 100 mil. André Valadão aparece como presidente da instituição, enquanto sua esposa, a influenciadora Cassiane Montosa Pitelli Valadão, ocupa o cargo de diretora. A sede da empresa está localizada no mesmo prédio da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte.
Até dezembro do ano passado, o banco utilizava o slogan “investindo no futuro, fortalecendo o Reino” e se apresentava publicamente como uma fintech, apesar de não possuir registro no Banco Central. Em material institucional, a empresa se definia como uma instituição dedicada a oferecer “soluções financeiras seguras e inovadoras para instituições cristãs, igrejas e pastores”. No entanto, em 26 de dezembro, o Banco Central informou à Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados que a Clava Forte Bank não possui cadastro junto à autoridade monetária.
Atualmente, o endereço eletrônico original da instituição não está mais ativo. Pesquisas pelo nome do banco direcionam para outro site, com identidade visual e linguagem completamente diferentes, sem referências religiosas ou ao termo fintech. Nesse novo endereço, é divulgado um aplicativo com oferta de serviços como PIX, TED e emissão de boletos. A assessoria da Clava Forte Bank negou qualquer vínculo com esse domínio. “Esse site não é da Clava Forte. É de alguma outra empresa da qual não temos conhecimento, vide inclusive a diferença de identidade visual”, afirmou a equipe de comunicação.
A suspensão das atividades e a mudança no ambiente digital da fintech ocorreram poucos meses após a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em novembro do ano passado, durante operação da Polícia Federal. Vorcaro manteve vínculos com a Igreja da Lagoinha, inclusive como apresentador em emissora ligada à instituição, e tem laços familiares com integrantes da igreja envolvidos no setor financeiro.
Após a operação policial, o deputado federal Rogério Corrêa (PT-MG) chamou atenção para o fato de o site e as redes sociais da Clava Forte Bank terem saído do ar temporariamente. À época, um comunicado informava que a página passava por “manutenção programada”.
Integrante da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga fraudes em descontos indevidos de aposentados e pensionistas do INSS, Rogério Corrêa apresentou requerimento pedindo a quebra do sigilo fiscal e financeiro do banco ligado a André Valadão. O parlamentar justificou o pedido apontando a proximidade do líder religioso com empresários investigados no esquema. O requerimento ainda não foi votado e deve ser analisado na primeira reunião de 2026 da CPMI.
Em declaração ao Metrópoles, o deputado afirmou: “Clava Forte é um banco clandestino e vou insistir para que a CPMI do INSS quebre o sigilo do banco do Valadão, quebre o sigilo do próprio Valadão e do Zettel".
Em nota mais recente, a Clava Forte Bank reiterou que não está em operação desde agosto de 2025 e que o encerramento ocorreu de forma gradual, após uma reavaliação estratégica. Segundo a empresa, a decisão foi influenciada pelo cenário de segurança digital no setor financeiro, marcado por ataques cibernéticos a instituições bancárias, e não há atualmente qualquer oferta ativa de serviços financeiros.


