"Lula não tem nada a ver com o caso Master e a esquerda não pode se abraçar com o STF”, diz Rui Costa Pimenta
Presidente do PCO defende que sigilo seja levantado, cobra que caso saia do Supremo e critica visita de número dois da CIA à PF como sinal de submissão
247 – O presidente do PCO, Rui Costa Pimenta, avaliou que o presidente Lula não tem relação com as fraudes atribuídas ao Banco Master e advertiu que setores da esquerda cometem um erro político ao se “abraçar com o STF” neste momento. A declaração foi dada durante a entrevista semanal de análise política ao Brasil 247, em meio à escalada de informações sobre conexões do Banco Master com figuras influentes e ao impacto do caso no debate público.
Logo no início do bloco sobre o tema, Rui afirmou que a prioridade deveria ser a transparência e a saída do caso do âmbito do Supremo. “A primeira reivindicação, na minha opinião, é essa, levantar o sigilo. Aí a população teria que ter condições de analisar o processo, né? Ver quem tá envolvido, etc. e tal. E eu acho que tem que sair do âmbito do STF”, disse, defendendo que o caso seja remetido à primeira instância e que o Congresso, se tivesse independência, instalasse uma CPI que alcance tanto o Banco Master quanto o Supremo.
“Impeachment não é a política do PCO”, mas poderes do STF “exorbitaram”
Rui relativizou a palavra de ordem pelo impeachment de ministro específico e afirmou que a crise é mais estrutural do que pessoal. “Não sei se o problema é o impeachment de fulano ou ciclano, porque também não é um problema pessoal”, afirmou, antes de sustentar que o Supremo acumulou atribuições excessivas. “Eu acho que era necessário reduzir os poderes do STF. Essa que deveria ser a reivindicação democrática. O STF não pode ter esse poder todo que ele tem. É totalmente absurdo”, disse.
Ele foi além ao criticar o desenho institucional de uma corte com papel constitucional concentrado. “Eu também sou contra a existência de uma Corte Constitucional, porque se você tem uma Corte Constitucional, ela se transforma em dona da Constituição”, afirmou, defendendo que o STF deveria funcionar como instância final apenas para casos excepcionais.
Governo deve “jogar luz” e não virar “abafador”
Na avaliação do dirigente do PCO, o governo deve evitar qualquer sinal de tentativa de abafar o caso, mesmo sem estar diretamente vinculado às irregularidades. A ideia, segundo ele, é agir “da maneira correta” e não carregar um desgaste desnecessário. “Se o governo Lula não tá diretamente envolvido e aparentemente não está, né, enquanto governo, a melhor política seria agir de da maneira correta… ‘Não tenho nada com isso. Sou favorável a que tudo seja esclarecido. Quem tiver culpa no cartório que pague’”, afirmou.
Ao comentar os riscos eleitorais, Rui disse que o governo pode ser acusado mesmo não tendo ligação direta com o caso. “O governo, mesmo não tendo nada a ver com o pato, vai ser acusado”, afirmou, apontando que o tema tende a crescer durante a disputa eleitoral.
O entrevistador também ressaltou que o Planalto, diante de um ambiente de pesquisas adversas, precisaria impedir a consolidação de uma narrativa de omissão. Rui concordou com a necessidade de inteligência política e classificou o caso como um teste para o governo. “O caso do Banco Master, por exemplo, é um teste… Nesse, por exemplo, o governo tá indo bem até agora”, disse.
CPI, desgaste e “abraço de afogado”
Rui afirmou que, diante do tamanho do escândalo, não seria possível “colocar o monstro de volta na caixinha”, defendendo uma postura de distanciamento institucional e apuração ampla. “Acho que não. Acho que a gente já passou desse ponto aí”, disse, insistindo que não há sentido em defender o STF como corpo político em meio às denúncias.
“Se eu fosse do PT, eu discordaria totalmente da ideia de que é necessário defender o Banco Master e o STF”, afirmou. Para ele, tentar proteger ministros e tribunal seria um “abraço de afogado”. “Para que você vai se abraçar? Isso aí é o famoso abraço de afogado, né? Vão se abraçar e afundar juntos”, disse.
Na mesma linha, Rui considerou correta a postura de Lula de não entrar na defesa de envolvidos. “O Lula… não saiu em defesa de ninguém na questão do Master, o que ele fez muito bem na minha opinião”, afirmou.
Bolsonarismo pode explorar fratura: “inevitável”
Questionado sobre como o bolsonarismo reagirá às denúncias, Rui avaliou que a direita tende a explorar o desgaste do Judiciário na campanha e a lançar suspeita sobre decisões passadas. “Inevitável isso… Quando um determinado órgão… mostra aí uma fratura desse tamanho… tudo que ele fez anteriormente cai sobre uma luz de profunda suspeição”, disse.
Ele previu que adversários dirão que o ex-presidente Bolsonaro teria sido condenado por autoridades desmoralizadas. “Eles vão chegar e falar: ‘Bolsonaro foi condenado por corruptos, por gente desonesta, por gente picareta’”, afirmou, acrescentando que a direita tradicional pode segurar o bolsonarismo por estratégia, tentando “proteger o STF” e conduzir uma transição “a frio” para um Supremo menos intervencionista.
“Não existe cooperação com a CIA, existe submissão”
A entrevista também abordou o tema da soberania a partir da notícia de que o diretor-geral da Polícia Federal recebeu o número dois da CIA e que houve anúncio de reforço de cooperação em inteligência. Rui reagiu de forma contundente: “Não existe cooperação com CIA, com os Estados Unidos. O que existe é submissão”, disse.
Ele afirmou que a PF estaria infiltrada por agências norte-americanas e que parte das operações obedece a objetivos externos. “A Polícia Federal Brasileira tá toda infiltrada pelo FBI, pela CIA. Essas operações… obedecem em grande medida os objetivos da CIA”, declarou.
Rui também criticou o discurso de combate à lavagem de dinheiro quando utilizado como instrumento de isolamento geopolítico. “É uma atividade contrarrevolucionária… eles não querem que os países que lutam contra o imperialismo sejam ajudados por ninguém… Isola a Venezuela, isola Cuba, isola a resistência palestina, isola o Irã”, afirmou, tratando o tema como mecanismo de estrangulamento político e econômico.
Cuba sob bloqueio: “política genocida” e “esmagamento”
No bloco internacional, Rui descreveu a situação cubana como dramática e defendeu que o debate no Brasil trate o tema como bloqueio econômico e não como “sanções”. “Não é sanção… é um bloqueio econômico criminoso, é uma política genocida… uma política de esmagamento”, afirmou, citando relatos de escassez extrema na ilha. “Eles têm dificuldade até de conseguir papel, até papel higiênico falta em Cuba”, disse.
Ele cobrou uma postura mais ativa do governo brasileiro contra o bloqueio. “O governo brasileiro deveria agir contra esse bloqueio econômico, que é uma política criminosa”, declarou, sustentando que o objetivo de derrubar governos penalizando populações é um método histórico do imperialismo.
Irã, guerra indireta e “virtual guerra mundial”
Rui também relacionou o cerco ao Irã ao conflito em Gaza e ao que chamou de “eixo da resistência”, mencionando Irã, Hezbollah, resistência palestina e resistência iraquiana. “O cerco ao Irã tem a ver com isso… o problema atômico… é um pretexto”, afirmou, projetando que, “se não for agora”, poderá haver guerra contra Teerã.
Ele descreveu o cenário global como uma guerra em andamento, ainda travada por meios indiretos. “Eu acho que a gente deveria caracterizar que nós vivemos aqui uma situação de virtual guerra mundial”, declarou, sustentando que China é apresentada como agressora quando seria “o país agredido”.
Lula como ativo central do PT e risco de vazio pós-Lula
Ao comentar o cenário eleitoral, Rui voltou ao peso político de Lula e afirmou que o presidente é o principal capital do PT. “Lula é uma figura que tem uma autoridade política muito grande… Se o Lula não fosse o Lula nessa eleição aqui, eu já diria para você que o PT ia perder a eleição”, afirmou, observando que o debate interno sobre sucessão e futuro do partido é recorrente.
Sistema financeiro quer repassar conta, diz Rui
No fim, a entrevista abordou o impacto financeiro do rombo atribuído ao Banco Master e o debate sobre o Fundo Garantidor de Créditos. Rui criticou tentativas de socializar prejuízos e defendeu que o setor bancário arque com os custos. “É 50 bilhões… os bancos querem repassar essa conta para a população”, afirmou. Para ele, o Estado não deve ser chamado a cobrir aventuras privadas. “Você vai investir aí e qualquer aventureiro… faz uma loucura. E aí o estado tem que pagar, o povo tem que pagar”, disse, citando a dívida pública brasileira como fator de agravamento.
Ao concluir, Rui voltou à ideia de que o governo precisa agir com cálculo e firmeza política. “Precisa ter inteligência política”, afirmou, avaliando que, no caso Banco Master, o governo tem se mantido no rumo correto ao não se comprometer com a defesa de instituições e figuras que podem virar foco de desgaste.


