Fortuna dos bilionários supera US$ 20 trilhões
Fortuna dos bilionários chega a US$ 20,1 trilhões e se aproxima de um quinto do PIB mundial
247 - A fortuna dos bilionários superou US$ 20 trilhões e chegou a US$ 20,1 trilhões, valor que se aproxima de um quinto de toda a produção econômica anual do planeta, em meio ao avanço da inteligência artificial, à valorização das big techs e ao aprofundamento da desigualdade global, informa o jornal O Globo.
Segundo cálculos do economista francês Gabriel Zucman, diretor do International Tax Observatory, o patrimônio acumulado pelos bilionários cresceu em ritmo sem precedentes. Há quinze anos, esse grupo detinha US$ 4,5 trilhões. Em 2024, o montante já havia mais do que triplicado, alcançando US$ 14,2 trilhões. Agora, a riqueza combinada chegou a US$ 20,1 trilhões, em uma expansão de 40% em apenas dois anos.
O avanço reflete uma combinação de fatores econômicos, tecnológicos e políticos. Entre eles estão a concentração de ganhos em poucas empresas de tecnologia, a corrida global pela inteligência artificial, a redução da participação dos trabalhadores na riqueza produzida e mudanças tributárias nos Estados Unidos que favoreceram famílias ricas e acionistas ao longo da última década.
Inteligência artificial impulsiona nova concentração de riqueza
Um dos motores desse crescimento foi a explosão de investimentos ligados à inteligência artificial. Trilhões de dólares foram direcionados a um grupo restrito de companhias de tecnologia, elevando o valor de mercado de empresas como Nvidia, Apple, Microsoft, Alphabet, Meta e Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, a TSMC. Cada uma delas supera US$ 1 trilhão em valor de mercado.
Fundadores, investidores iniciais e grandes acionistas dessas companhias foram os principais beneficiados pela valorização. Jensen Huang, CEO da Nvidia, tornou-se um dos símbolos desse processo, com patrimônio líquido superior a US$ 150 bilhões e posição central no avanço global da inteligência artificial.
A possível abertura de capital da SpaceX também ilustra a magnitude dessa nova fase de concentração de riqueza. A companhia deve começar a negociar ações com avaliação estimada em US$ 1,77 trilhão. Elon Musk, dono de 42% da empresa, ficaria próximo de atingir a marca de trilionário caso essa avaliação se confirme.
A dimensão desses valores é difícil de comparar com a realidade econômica da maior parte dos países. Apenas 21 nações no mundo possuem economias capazes de produzir US$ 1 trilhão ou mais em um ano.
Mercado acionário favorece parcela mais rica
Grande parte do salto no patrimônio dos bilionários ocorreu no mercado de ações. A valorização das bolsas foi capturada de forma desproporcional pelos grupos mais ricos, que concentram grandes fatias de participação em empresas de alto crescimento.
Nos Estados Unidos, dados do Federal Reserve mostram que o 1% mais rico detém metade de todas as ações existentes. O 0,1% mais rico, formado por cerca de 135 mil famílias, possui ações avaliadas em US$ 13,7 trilhões. O valor é quase o dobro dos US$ 7,1 trilhões em ações pertencentes aos 90% menos ricos da população americana, um grupo de aproximadamente 115 milhões de famílias.
Embora trabalhadores também possam se beneficiar indiretamente da valorização acionária por meio de planos de aposentadoria como o 401k, esse ganho é muito menor em comparação com o obtido por grandes acionistas. O 401k é um plano de previdência patrocinado por empresas nos Estados Unidos, no qual parte do salário do funcionário é investida em fundos financeiros para uso na aposentadoria.
Big techs criam empregos, mas concentram ganhos
As empresas de tecnologia responsáveis por parte expressiva dos retornos financeiros criaram empregos, mas seus quadros de funcionários permanecem relativamente pequenos diante do valor de mercado que acumulam. A maior parte dos ganhos bilionários não vem do trabalho contratado por essas companhias, mas dos investimentos de capital feitos nelas.
Esse fenômeno reforça a distância entre a remuneração do trabalho e os retornos do capital. Tradicionalmente, ativos financeiros oferecem ganhos maiores do que salários. Desde o início dos anos 2000, porém, essa diferença se ampliou.
Economistas apontam várias causas para esse movimento. Entre elas estão o enfraquecimento dos sindicatos, a disseminação da automação, o uso crescente de inteligência artificial e outras tecnologias que substituem trabalhadores, a transferência de empregos industriais para países como a China e políticas tributárias que pesam mais sobre salários do que sobre rendimentos de investimentos.
Empresas superestrelas ampliam poder dos proprietários
Outro fator central é o crescimento das chamadas empresas superestrelas, expressão usada por economistas como David Autor, do Massachusetts Institute of Technology e codiretor acadêmico do Stone Center on Inequality and Shaping the Future of Work. Essas corporações passaram a dominar setores inteiros da economia e mudaram a distribuição dos ganhos financeiros.
Com maior poder de mercado, essas empresas permitem que proprietários e acionistas capturem uma parcela maior dos resultados, enquanto trabalhadores ficam com participação menor. Em alguns casos, também podem operar com características monopolistas, influenciando preços, salários, benefícios e condições de trabalho.
Autor reconhece que muitos empreendedores bilionários criaram grande valor econômico, mas alerta para o impacto político da concentração extrema de patrimônio.
“O problema não está necessariamente em como os bilhões são ganhos”, afirmou ele. “Mas em como esse dinheiro distorce a política e em como nosso processo político está se tornando cada vez mais um sistema em que a participação depende de quanto se pode pagar.”
Desigualdade avança em ritmo acelerado
Medir a desigualdade é uma tarefa complexa, e há divergências entre especialistas sobre o tamanho exato da distância entre os mais ricos e o restante da população. Também há debate sobre o grau de queda da participação dos trabalhadores na renda total das economias.
Ainda assim, existe consenso entre economistas que estudam o tema de que os mais ricos estão se afastando do restante da sociedade em velocidade maior do que no passado. A concentração de ações, os retornos elevados do capital e a valorização das grandes empresas de tecnologia intensificam esse processo.
Esse aumento da desigualdade também tende a se prolongar entre gerações. Como parte significativa dessas fortunas escapa da tributação, o patrimônio acumulado por um pequeno grupo pode ser transferido aos herdeiros, consolidando uma elite econômica cada vez mais fechada.
Tributação favorece ultrarricos nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, mudanças nas regras tributárias ao longo da última década ampliaram benefícios para os grupos de maior renda e reduziram a carga de impostos sobre os mais ricos. A queda expressiva da alíquota do imposto corporativo também contribuiu para elevar a riqueza dos ultrarricos.
Com menos impostos pagos por empresas, muitas companhias passaram a utilizar lucros adicionais para recomprar suas próprias ações, o que tende a elevar o valor dos papéis e beneficiar grandes acionistas. Enquanto isso, trabalhadores seguem arcando com imposto de renda e contribuições sobre a folha de pagamento, tributos que têm impacto muito menor sobre a riqueza dos bilionários.
A redução da arrecadação sobre empresas e grandes fortunas também pressiona os orçamentos públicos. Governos com altos níveis de endividamento passam a ter menos recursos disponíveis para financiar saúde, educação, defesa, infraestrutura e outros serviços públicos.
Imposto sobre riqueza ganha força no debate global
O crescimento das grandes fortunas reacendeu o debate sobre a criação de impostos sobre riqueza. A proposta foi defendida na Global Inequality Conference, realizada em Paris na semana passada, e tem ganhado espaço em países como França, Alemanha, Reino Unido, Brasil e Estados Unidos.
Na Califórnia, onde vivem mais de 200 bilionários, lideranças sindicais ajudaram a incluir o Billionaire Tax Act de 2026 na cédula eleitoral de novembro. A proposta prevê um imposto único de 5% sobre o patrimônio líquido dos bilionários.
A medida foi elaborada com contribuição de Gabriel Zucman e Emmanuel Saez, outro economista de referência nos estudos sobre riqueza global e desigualdade. Os cálculos indicam que a fortuna dos bilionários da Califórnia ultrapassa US$ 2 trilhões, valor equivalente à metade de tudo o que a economia do estado produz em um ano.
Entre 2023 e 2025, a riqueza dos bilionários californianos cresceu 144%. Para defensores da taxação, o aumento do poder financeiro e político concentrado em poucas centenas de indivíduos contribui para a ampliação da desigualdade e pode consolidar uma espécie de aristocracia econômica autoperpetuante.
Dario Amodei, bilionário e diretor-executivo da Anthropic, empresa criadora do chatbot Claude, também chamou atenção para os riscos da concentração extrema de patrimônio.
“Já estamos em níveis historicamente sem precedentes de concentração de riqueza”, escreveu ele neste ano. “O que deve nos preocupar é um nível de concentração de riqueza capaz de desestruturar a sociedade.”
O avanço das fortunas bilionárias, impulsionado por tecnologia, mercado financeiro e regras tributárias favoráveis ao capital, tornou-se um dos principais símbolos da desigualdade contemporânea e ampliou a pressão por mudanças na forma como grandes patrimônios são tributados.



