Governo indica Guilherme Mello para presidir conselho da Petrobras após saída de Bruno Moretti
Secretário de Política Econômica da Fazenda deve assumir posto estratégico na estatal
247 – O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai indicar Guilherme Mello para a presidência do conselho de administração da Petrobras, segundo informou a Folha de S.Paulo. Ele substituirá Bruno Moretti, que deixou o cargo após ser nomeado ministro do Planejamento e Orçamento.
A mudança ocorre porque a Lei das Estatais impede a indicação de ministros de Estado para cargos de diretoria ou para assentos em conselhos de administração de empresas estatais. Antes de assumir o ministério, Moretti ocupava a função de secretário especial de Análise Governamental na Casa Civil.
Guilherme Mello é secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda desde o início da gestão comandada por Fernando Haddad. Economista ligado ao campo desenvolvimentista e professor licenciado da Unicamp, ele também atuou como assessor econômico do presidente Lula durante a campanha eleitoral de 2022, consolidando-se como um dos nomes mais influentes da formulação econômica do PT.
A indicação para o conselho da Petrobras tem peso político e econômico. Trata-se de uma posição central na estrutura de governança da maior estatal brasileira, em um momento em que a empresa segue no centro das discussões sobre investimentos, política energética, distribuição de dividendos e papel estratégico no desenvolvimento nacional.
Mudança sepulta ida ao Banco Central
A ida de Guilherme Mello para o comando do conselho de administração da Petrobras praticamente encerra a possibilidade de sua nomeação para a diretoria do Banco Central. O nome do economista chegou a ser defendido por Haddad para uma das duas vagas abertas na autoridade monetária desde 1º de janeiro deste ano, nas áreas de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro e Resolução.
No entanto, a indicação nunca foi formalizada pelo presidente Lula. De acordo com o relato da Folha de S.Paulo, a proposta enfrentava resistência do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o que acabou travando o avanço da nomeação.
A divergência entre Haddad e Galípolo em torno do nome de Mello remonta ao ano passado. Segundo os relatos publicados, Galípolo argumentou junto a Lula que a escolha de Mello poderia ser interpretada como uma intervenção do governo no Banco Central, percepção que poderia provocar reação negativa do mercado financeiro e dificultar, inclusive, o processo de redução dos juros.
Esse foi justamente um dos pontos mais sensíveis da discussão. Ainda segundo a reportagem, havia o entendimento de que uma indicação com esse perfil poderia contaminar os preços de ativos e ampliar a pressão de agentes do sistema financeiro, tradicionalmente avessos a nomes identificados com uma visão econômica menos ortodoxa.
Economista desenvolvimentista e alvo de resistência do mercado
Guilherme Mello é visto como um dos principais formuladores econômicos do campo petista. Suas posições costumam divergir das defendidas por setores do mercado financeiro, sobretudo em temas como papel do Estado, política fiscal, crédito, crescimento e coordenação do investimento.
Essa diferença de visão ajudou a transformar seu nome em foco de resistência em parte do sistema financeiro. Quando a possibilidade de sua ida ao Banco Central veio a público, a recepção foi negativa, segundo a reportagem, justamente porque sua presença na diretoria poderia ser lida como um movimento do governo para imprimir maior influência política à condução da política monetária.
No entorno do presidente Lula, porém, a questão acabou perdendo centralidade. Com o passar dos meses, outras prioridades passaram a ocupar o centro da agenda política, entre elas a movimentação em torno de indicações institucionais relevantes, como a do atual chefe da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal.
Diante desse cenário, a equipe econômica comunicou a Lula que não haveria pressa para encaminhar os nomes do Banco Central. De acordo com a Folha de S.Paulo, parte do grupo político ligado ao presidente avalia que essas indicações só devem ser enviadas ao Senado após as eleições, embora esse entendimento não seja unânime entre os aliados mais próximos do chefe do Executivo.
Petrobras no centro da estratégia do governo
A escolha de Mello para o conselho da Petrobras reforça a importância da estatal na estratégia econômica do governo. Mais do que uma empresa de petróleo, a Petrobras é tratada pelo Palácio do Planalto como instrumento de política industrial, energética e de investimento de longo prazo.
Nesse contexto, a presença de um economista alinhado à visão do governo no principal órgão de deliberação estratégica da companhia tende a ampliar o peso político da administração federal nas discussões sobre o futuro da empresa. O conselho de administração tem papel decisivo em decisões que envolvem grandes investimentos, diretrizes corporativas e relação entre retorno aos acionistas e projeto nacional de desenvolvimento.
A indicação de Guilherme Mello, portanto, não é apenas uma troca administrativa decorrente da saída de Bruno Moretti. Ela também sinaliza a intenção do governo de manter quadros de confiança em posições-chave da Petrobras, ao mesmo tempo em que reorganiza o xadrez de poder nas instituições econômicas federais.
Com isso, Lula reposiciona um de seus principais assessores econômicos em um posto de grande influência, enquanto deixa em segundo plano, ao menos por ora, a disputa em torno das cadeiras abertas no Banco Central.


