Petrobras enfrenta impasse após Lula condenar leilão de GLP e prometer anulação
Presidente critica alta superior a 100% no gás de cozinha, fala em “cretinice” e “bandidagem”, e crise expõe choque entre governo e execução da Petrobras
247 – A Petrobras passou a viver um impasse político e operacional após a reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP), o gás de cozinha, realizado no último dia 31. A informação foi publicada pelo jornal Estado de S. Paulo, que relatou a pressão do presidente pelo cancelamento do certame, mesmo depois de sua conclusão e do início das entregas do produto com os novos preços.
Segundo a reportagem, a situação se agravou porque o leilão já foi executado integralmente, com entregas iniciadas à zero hora do dia 1º. Fontes do setor apontam que, antes mesmo da próxima segunda-feira, dia 6, as 70 mil toneladas negociadas já deverão ter sido integralmente entregues. O episódio abriu uma crise dentro do governo e colocou a estatal em uma posição delicada, já que a orientação política do Palácio do Planalto colide com uma operação comercial que já entrou em vigor.
Em entrevista à TV Record da Bahia, Lula atacou duramente a realização do leilão e afirmou que o governo vai tentar revertê-lo. O presidente foi direto ao condenar a decisão:
“Foi feito um leilão, com cretinice e bandidagem que fizeram com o óleo diesel. As pessoas sabiam da orientação do governo e da Petrobras: ‘Não vamos aumentar o GLP’. Pois fizeram um leilão contra a vontade da direção da Petrobras. Vamos rever esse leilão, vamos anular esse leilão. O povo pobre não pagará, em hipótese alguma, o preço dessa guerra”
A fala do presidente evidencia que, para o governo, a elevação do preço do gás de cozinha contraria uma diretriz política central: evitar que a população de baixa renda seja penalizada pela escalada internacional dos combustíveis em meio à guerra no Oriente Médio. O GLP, assim como o óleo diesel, vem sofrendo os efeitos da pressão internacional, já que parte do produto consumido no Brasil depende de importações.
O leilão durou mais de seis horas, de acordo com a apuração publicada pelo jornal Estado de S. Paulo. O caso mais expressivo ocorreu no polo de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde o preço do gás de cozinha saltou de R$ 33,37 para R$ 72,77, um ágio de 117% sobre o valor de referência. O resultado reforçou a percepção, dentro do governo, de que a operação teria forte impacto social e político, sobretudo por atingir um item essencial no orçamento das famílias brasileiras.
O preço do GLP estava congelado desde novembro de 2024. A disparada agora pressiona diretamente políticas públicas voltadas à proteção social, entre elas o programa Gás do Povo. Na avaliação de agentes do setor citados na reportagem, a alta exigirá revisão do preço de referência da iniciativa governamental, o que amplia o desgaste para a administração federal.
A crise também expôs falhas de comunicação entre a Petrobras e o núcleo político do governo. Conforme a apuração do jornal Estado de S. Paulo, o leilão já havia sido adiado do dia 27 para o dia 31, inicialmente às 9h, depois remarcado para as 15h, até ser efetivamente realizado. A Casa Civil, porém, não teria sido informada desse adiamento e defendia o cancelamento da operação.
A intenção inicial do governo era estruturar antes do leilão uma subvenção para amortecer o impacto da alta do GLP. Mas o reajuste de 54% no querosene de aviação (QAV), anunciado pela estatal na quarta-feira, acabou alterando a ordem das prioridades e impediu que a compensação para o gás de cozinha fosse preparada a tempo.
Ainda segundo a reportagem, quando integrantes da Casa Civil foram avisados de que o leilão estava em andamento, a reação foi imediata e dura. Nos bastidores do governo, teriam sido usadas expressões como “desobediência”, “traição” e até a previsão de que “cabeças vão rolar”. A gravidade das palavras mostra que a crise ultrapassou o campo técnico e passou a ser tratada como um episódio de insubordinação à orientação política do governo federal.
Até a publicação da notícia original, a Petrobras não havia retornado aos pedidos de manifestação. O silêncio da empresa, diante da crise, ampliou a sensação de descompasso entre a estatal e o governo, num momento em que a administração Lula tenta reforçar o papel social da companhia e alinhar sua política comercial a objetivos de interesse público.
O volume de GLP vendido no leilão corresponde a cerca de 12% de tudo o que a Petrobras comercializa mensalmente. As vendas se concentraram em sete polos de entrega. Como a empresa já começou a operar com preços mais altos, pessoas a par da discussão afirmam que uma subvenção retroativa aparece como a solução mais provável para reduzir os danos, embora a alternativa enfrente resistência das distribuidoras.
Além disso, qualquer medida corretiva ainda dependerá de regulamentação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). De acordo com fontes citadas pela reportagem, as revendedoras ainda não haviam recebido a carta que formaliza os novos preços do GLP, o que acrescenta mais um elemento de incerteza ao mercado.
O Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás), procurado pela reportagem, afirmou que não comenta preços, projeções ou estimativas relacionadas ao mercado. Em nota, a entidade declarou:
“A entidade ressalta que é de conhecimento público que os preços do petróleo e de seus derivados vêm sofrendo forte pressão, em grande parte decorrente de conflitos com impacto relevante sobre a cadeia global do petróleo, o que pode influenciar os custos do GLP e promover eventuais mudanças nas condições econômicas e de mercado na cadeia do produto”
A nota do Sindigás reforça que a pressão internacional sobre o petróleo ajuda a explicar a tensão no setor. Ainda assim, o centro da crise está menos nos fatores externos e mais na forma como a decisão foi conduzida internamente. O episódio atingiu em cheio a narrativa do governo de proteção ao consumidor e reacendeu o debate sobre quem, de fato, controla a política de preços e de comercialização da Petrobras.
O caso agora se transforma em teste político para o governo Lula e em prova de fogo para a direção da estatal. De um lado, o presidente deixou claro que não aceita que a população pobre arque com os custos da turbulência internacional. De outro, a Petrobras já executou uma operação que elevou os preços e colocou parte do mercado em movimento. A tentativa de anular o leilão, rever contratos ou adotar uma compensação retroativa poderá definir não apenas o desfecho imediato da crise, mas também o grau de autoridade do governo sobre a empresa em temas sensíveis como combustíveis e custo de vida.


