Lula critica conservadorismo de Galípolo: “porra, essa guerra até no BC?”
Presidente se diz frustrado com corte de apenas 0,25 ponto na Selic e cobra medidas contra alta abusiva dos combustíveis em meio à guerra no Oriente Médio
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta quinta-feira, 19 de março, o que classificou como postura conservadora do Banco Central ao reduzir a taxa básica de juros, a Selic, em apenas 0,25 ponto percentual. Lula afirmou estar “triste” com a decisão e esperava um corte mais significativo.
Durante evento em São Paulo, o presidente foi direto ao comentar a justificativa do Banco Central, que citou a guerra no Oriente Médio como fator de incerteza econômica. “Hoje é um dia que eu poderia estar mais feliz, mas estou triste”, disse. Em seguida, criticou o tamanho da redução: “Triste porque esperava que o Banco Central abaixasse os juros em pelo menos em 0,5%. E abaixou só 0,25% dizendo que é por causa da guerra. Porra, essa guerra até no nosso Banco Central?”
Decisão do BC e impacto da guerra
Na véspera, o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou o corte de 0,25 ponto percentual, fixando a Selic em 14,75% ao ano. A decisão já era amplamente esperada pelo mercado, sobretudo após a escalada do conflito no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Antes da eclosão do conflito, no entanto, havia expectativa de um corte maior, de 0,50 ponto percentual — cenário que Lula também mencionou ao criticar a condução da política monetária.
No comunicado oficial, o Banco Central destacou repetidamente a guerra como uma nova fonte de incertezas, especialmente em relação à inflação. Por isso, o Copom evitou sinalizar os próximos passos da política de juros, deixando em aberto a possibilidade de novas reduções na próxima reunião, marcada para 29 de abril.
Lula denuncia aumentos abusivos nos combustíveis
No mesmo evento, Lula voltou a abordar o aumento dos combustíveis e fez duras críticas a práticas consideradas abusivas no mercado. Segundo ele, há agentes econômicos se aproveitando do conflito internacional para elevar preços de forma injustificada.
“E veja que coisa grave: não aumentou só o preço do diesel. Aumentou o preço do álcool, que não tem nada a ver com a guerra do Irã. Aumentou o preço da gasolina, que ainda não tinha por que aumentar. Significa que neste país tem bandido que quer ganhar dinheiro até com o enterro da mãe, até com a fome dos pobres, até com a miséria dos outros”, afirmou.
O presidente disse que o governo intensificou a fiscalização para coibir abusos. “Colocamos a Polícia Federal, a Receita Federal, os Procons para ir atrás de ver quem é que está aumentando, de forma abusiva, o preço do diesel. Porque não é necessário aumentar [o preço] nas bombas do trabalhador. Não é possível transferir para o caminhoneiro o preço da guerra do Irã”, declarou.
Pressão sobre governadores e risco de paralisação
Lula também pediu apoio dos governadores para reduzir temporariamente o ICMS sobre combustíveis, como forma de conter a inflação. A proposta prevê que a União compense metade da perda de arrecadação dos estados.
“Os governadores poderiam fazer uma isenção do ICMS [...] E o governo ainda se dispõe a devolver para ele metade da isenção que eles fizerem. Nós vamos pagar a metade. Vamos ver se eles vão fazer”, disse.
A medida foi apresentada pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, durante reunião do Confaz. Ele assumirá o comando da pasta no lugar de Fernando Haddad, que confirmou sua saída.
O governo busca evitar que o aumento dos combustíveis leve a uma nova paralisação de caminhoneiros, que já ameaçam greve diante dos preços elevados e do descumprimento do piso mínimo do frete por empresas.
Estratégia do governo para conter inflação
Nos últimos dias, o governo federal anunciou medidas emergenciais para reduzir o impacto da guerra sobre a economia brasileira, incluindo a zeragem de PIS e Cofins sobre o diesel.
Para Lula, o objetivo central é impedir que o conflito internacional afete diretamente o custo de vida da população. “Nós temos que fazer o sacrifício para tentar evitar que essa guerra do Irã chegue ao prato do feijão com arroz do povo brasileiro, ao café da manhã, à merenda de nossas crianças”, afirmou.


