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Lula lidera ciclo histórico de concessões e amplia investimentos em infraestrutura no Brasil

Com 50 leilões entre 2023 e 2025, governo acelera projetos em portos, rodovias e aeroportos e prepara nova carteira para 2026

Renan Filho e Lula (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerra 2025 à frente do maior volume de concessões federais de infraestrutura já registrado no país, com 50 leilões de rodovias, portos e aeroportos no ciclo 2023–2025.

Os dados constam de um levantamento dos ministérios dos Transportes e dos Portos e Aeroportos, feito a pedido da Folha de S.Paulo, que mostra a concentração recente dessa política: desde 1995, quando entrou em vigor a Lei das Concessões, foram 160 leilões federais de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, e quase um terço, 31%, ocorreu entre 2023 e 2025.

O desempenho supera o volume executado em governos anteriores. Entre 2019 e 2022, a gestão Jair Bolsonaro foi responsável por 45 leilões, enquanto Fernando Henrique Cardoso realizou 26, sendo 22 no primeiro mandato, de 1995 a 1998.

A leitura de especialistas e do próprio governo é que o avanço das concessões responde a uma estratégia pragmática para elevar investimentos, acelerar obras e ampliar a capacidade de entrega em um contexto de restrições fiscais, aproveitando uma carteira considerada atrativa e um ambiente regulatório mais amadurecido. “O presidente percebeu que, para ampliar o investimento, era importante aumentar a participação da iniciativa privada dadas as restrições fiscais”, disse o ministro dos Transportes, Renan Filho, em entrevista à Folha.

Portos puxam o recorde e Tecon 10 entra no radar de 2026

O setor portuário é o principal motor do recorde recente, com 26 terminais concedidos desde o início do governo. Segundo o Ministério dos Portos e Aeroportos, os projetos somam R$ 15,5 bilhões em investimentos.

Para 2026, a pasta projeta a realização de um dos leilões mais aguardados pelo mercado. O Tecon 10, megaterminal de cargas no porto de Santos, deve ser ofertado em março, com investimento previsto de R$ 6,5 bilhões, reforçando a perspectiva de continuidade da carteira e de ampliação da capacidade logística do país.

Rodovias ganham escala e concentram investimentos bilionários

O segundo maior peso da carteira está nas rodovias, com 22 certames no ciclo atual, sendo 13 somente em 2025. De acordo com o Ministério dos Transportes, os projetos somam R$ 247 bilhões em investimentos, e a expectativa para 2026 é de mais 13 rodovias licitadas.

Além dos portos e rodovias, completam a conta dos 50 leilões do atual mandato a relicitação do aeroporto de Natal e a concessão de um bloco de terminais aeroportuários regionais, ampliando o alcance da política para diferentes modais e regiões.

Perfil dos projetos muda e governo prepara retomada ferroviária

A série histórica também revela mudanças no perfil das concessões ao longo de três décadas. As ferrovias viveram a “era de ouro” durante o governo FHC, quando ocorreram 9 dos 12 leilões feitos desde 1995, embora alguns ativos daquele período tenham enfrentado dificuldades de conservação e operação, caso da FCA (Ferrovia Centro-Atlântica), concedida em 1996. Segundo o relato presente no material, o governo fechou recentemente um acordo de renovação com a concessionária responsável pelo trecho, com compromissos de investimentos e indenização à União.

Hoje, o setor ferroviário passa por um momento de renegociações e busca por novos projetos. A última concessão ocorreu em 2021, no governo Bolsonaro, referente a um trecho da Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste). Para enfrentar a paralisia, o Ministério dos Transportes prepara oito leilões de ferrovias para 2026, com expectativa de movimentar cerca de R$ 140 bilhões.

Aeroportos: de onda forte a ritmo menor, com foco em reequilíbrios

O setor aeroportuário, que teve forte ciclo em períodos anteriores, aparece agora com ritmo mais baixo, em meio a reacomodações do mercado. No primeiro mandato de Dilma Rousseff (2010 a 2014), ativos considerados atrativos foram concedidos, como Guarulhos, Viracopos e Galeão. Depois, o governo Michel Temer (2016 a 2018) destravou projetos que ficaram represados durante a crise econômica e leiloou quatro aeroportos. A gestão Bolsonaro intensificou a agenda, com 9 leilões que agruparam 49 aeroportos em blocos.

Ao comentar a orientação da atual política, Renan Filho afirmou à Folha que o impulso recente tem base pragmática. “O presidente Lula, apesar de ser pessoalmente de esquerda, faz um governo de frente ampla. Ele nunca foi um político ideológico”, disse.

Investimento privado ganha protagonismo e sustenta expansão da carteira

Renan também citou um levantamento da Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base) indicando que o volume de investimento privado no Brasil deve ter batido a máxima histórica em 2025, segundo projeção feita em novembro. Do total de R$ 280 bilhões projetados para investimentos em infraestrutura no ano, 84% (R$ 235 bilhões) devem ter vindo de grupos privados, com alta real de 11% em relação a 2024, enquanto a participação pública recua.

Para Fernando Vernalha, sócio-fundador do escritório Vernalha Pereira, o cenário reforça a necessidade de ampliar a presença privada para aproximar o país do patamar considerado adequado de investimento. “Nós não tivemos muita alternativa que não buscar esses investimentos na iniciativa privada. A forma de fazer isso foi por meio de concessões e PPPs [parcerias público-privadas]”, disse.

Vernalha avalia ainda que o Brasil conseguiu oferecer oportunidades raras em comparação internacional, citando os aeroportos como exemplo de ativos que atraíram forte interesse de grupos estrangeiros. Renan Filho, por sua vez, aponta que poucos países reúnem simultaneamente carteira atrativa e condições institucionais para sustentar a confiança do investidor, como sustentabilidade ambiental, agências regulatórias com autonomia e mercado de capitais sofisticado.

Contratos estressados e relicitações entram como “segunda rodada” de eficiência

A trajetória das concessões também inclui casos em que a primeira rodada não funcionou como esperado, com desequilíbrio financeiro, obras atrasadas e investimentos não realizados, os chamados “contratos estressados”. Parte desses ativos voltou ao mercado nos últimos anos, permitindo que novos desenhos contratuais e concorrência reorganizem projetos e viabilizem a execução.

No setor rodoviário, o governo já realizou quatro leilões envolvendo ativos problemáticos, e ainda há pelo menos outras seis estradas nessa situação. Para 2026, a previsão é de certames simplificados em alguns desses casos, com disputa para a assinatura de novo contrato.

Marco Aurélio Barcelos, diretor da ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias), disse que o setor vive um momento especialmente favorável, embora com desafios operacionais a endereçar. “É o melhor momento, sem dúvida alguma. Agora, isso não significa que não temos desafios.” Entre os pontos citados, Barcelos mencionou melhorias na estrutura de seguros e maior celeridade no licenciamento ambiental, destacando o horizonte de obras à frente. “Nunca vivemos no Brasil o que vamos viver nos próximos oito anos em termos de execução de investimentos. É muita obra que vai acontecer”, afirmou.

Na avaliação do diretor, apesar do volume, o mercado ainda deve ter apetite e capacidade de absorção no curto prazo, mas com possível acomodação adiante. “Eu diria que vamos ter essa esteira de produção intensiva em 2026 e talvez até 2027. Depois, veremos uma queda na quantidade de leilões.”

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