“A carteira de trabalho não é o suficiente”, diz JR Freitas
Liderança dos entregadores afirma que modelo atual da CLT perdeu atratividade, cobra valorização da renda e defende conexão da esquerda com o trabalhador
247 - O entregador JR Freitas, membro da Aliança Nacional dos Entregadores de Aplicativos (Anea) e integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos, afirmou que o modelo tradicional de emprego formal deixou de responder às necessidades de grande parte da classe trabalhadora brasileira.
Em entrevista ao programa Brasil Agora, da TV 247, ele avaliou que a precarização salarial, a perda de perspectivas e a falta de atualização das leis trabalhistas ajudam a explicar o crescimento do trabalho por aplicativo.
“A carteira de trabalho não é o suficiente”, afirma ele, destacando que o problema não está na existência de direitos trabalhistas, mas no fato de que muitos empregos formais já não garantem renda digna nem qualidade de vida.
JR Freitas afirmou que muitos trabalhadores deixaram de enxergar no emprego formal uma solução real para suas vidas.
“Eu não ganho o suficiente. Se eu trabalhar, eu tenho que trabalhar em dois empregos para pagar meu aluguel”, declarou.
Na avaliação dele, a percepção de estagnação salarial e dificuldade financeira fez crescer a busca por alternativas fora do regime tradicional.
“Será que é isso que eu quero ser? Será que é isso que tem para mim?”, questionou, ao citar a visão de trabalhadores que observam aposentados vivendo com dificuldades.
Ele destacou que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) teve papel histórico importante, mas precisa ser repensada.
“A CLT tem pontos importantíssimos. Só que ela não teve uma reestruturação, não teve uma valorização de muito tempo para cá”, afirmou.
Freitas também explicou por que muitos profissionais migraram para plataformas digitais, como transporte e entrega. Segundo ele, o principal atrativo não é o chamado empreendedorismo, mas a flexibilidade de horários.
“Essa flexibilidade de não ter o patrão te cobrando é muito importante para o trabalhador hoje”, disse.
Ele citou como exemplo a possibilidade de organizar a rotina familiar sem a rigidez de um chefe direto.
“Você poder fazer o seu horário, poder buscar seu filho na escola sem que ninguém te oprima, isso é muito importante para ele”, acrescentou.
Apesar disso, JR Freitas reforçou que os trabalhadores conhecem os limites desse modelo e sabem que estão submetidos à exploração econômica.
“Eles sabem que está sendo explorado por alguém que tem um poder gigantesco, por exemplo, como as empresas de aplicativo”, declarou.
O líder dos entregadores defendeu uma regulamentação moderna para o setor de aplicativos, que preserve a autonomia de jornada, mas assegure remuneração justa e seguridade social.
“A gente busca uma valorização, hoje, nos ganhos, para que se implemente uma Seguridade Social, que também é muito importante”, afirmou.
Segundo ele, acidentes e doenças afetam fortemente a categoria, que muitas vezes fica sem renda e sem apoio.
“A gente sofre muito acidente”, disse Freitas, que também explicou a resistência de parte dos trabalhadores a contribuições previdenciárias.
“Quando a gente quer colocar o INSS, ele sabendo que vai ter descontado mais sete, oito por cento daquilo que ele ganha, ele já recusa na hora”, declarou.
Esquerda precisa voltar à base
Ao analisar o cenário político, JR Freitas disse que o campo progressista precisa reconstruir vínculos com a população trabalhadora e abandonar discursos distantes da realidade cotidiana.
“A gente precisa se conectar com o trabalhador”, afirmou. Para ele, a esquerda erra quando tenta impor fórmulas prontas sem escutar quem vive a precarização no dia a dia.
“Quando se trata de humildade, não é chegar com uma solução pronta e implementar na mente dos trabalhadores”, disse.
Freitas afirmou que categorias como entregadores e motoristas de aplicativo possuem contradições políticas, mas mantêm forte potencial de mobilização coletiva.
“Eles se veem com viés de direita, porém são pessoas que organizam greves”, apontou.
Redes sociais e disputa política
Outro ponto abordado por JR Freitas foi a comunicação digital. Segundo ele, a extrema direita ocupa espaço relevante nas plataformas porque domina uma linguagem rápida e simples.
“A esquerda sempre teve dificuldade, a gente saiu atrás na questão da comunicação das redes sociais”, afirmou.
Ele defendeu atuação mais estratégica para enfrentar fake news e disputar narrativas.
“Quem sai na frente tem a vantagem. Para desmentir uma mentira, é muito mais difícil”, declarou.
Apoio a Lula e Haddad em 2026
Questionado sobre eleições, JR Freitas declarou apoio ao presidente Lula e ao ex-ministro Fernando Haddad em disputa pelo governo paulista.
“O meu apoio ao presidente Lula desde o primeiro turno e para o Haddad, governador do Estado de São Paulo, já é garantido”, afirmou.
Ele também informou que ainda discute coletivamente uma possível candidatura própria em São Paulo. “A gente precisa tomar essa decisão coletiva”, concluiu.



