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A comunicação de Lula precisa mudar com urgência, diz José Fernandes, do portal do José

O advogado e comunicador progressista defende que o governo siga o modelo da experiência adotada no México por Lopez Obrador e Claudia Sheinbaum

José Fernandes, do portal do José (Foto: Reprodução Youtube)

247 – Em meio ao acirramento do debate político rumo às eleições de 2026, o advogado e comunicador José Fernandes, do Portal do José, fez duras críticas à estratégia de comunicação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alertou para o avanço da extrema direita no ambiente digital. As declarações foram feitas durante participação no programa Boa noite 247, exibido no domingo (29), em conversa com a jornalista Sara Goes.

Ao analisar o cenário político atual, Fernandes foi direto ao ponto ao afirmar que o principal problema do campo progressista não está nas pesquisas eleitorais, mas na incapacidade de disputar narrativa nas redes sociais. “A comunicação é a chave de se ter um governo bem avaliado ou mal avaliado”, afirmou, ao destacar que a direita tem ocupado esse espaço de forma sistemática desde 2017.

Segundo ele, a ascensão de nomes ligados ao bolsonarismo — como Flávio Bolsonaro — nas pesquisas reflete menos a realidade objetiva e mais a força de um ecossistema digital consolidado. “Pesquisa eleitoral induz voto. Instituto de pesquisa não está só captando opinião, está influenciando”, disse, acrescentando que esse movimento tem gerado desânimo entre setores progressistas.

Falta de estratégia e isolamento do presidente

Um dos pontos centrais da crítica de Fernandes é o que ele chama de “cordão sanitário” ao redor do presidente Lula. Para ele, o entorno do governo tem falhado em compreender a centralidade da comunicação digital na política contemporânea.

“O Lula reclama de comunicação, mas ninguém chega para ele e diz: ‘o maior comunicador do governo é o senhor’”, afirmou. Segundo ele, a ausência de Lula nas redes sociais impede que o governo estabeleça uma narrativa própria e acabe reagindo constantemente à pauta da oposição.

Fernandes também criticou diretamente a atuação da Secretaria de Comunicação (Secom), apontando falhas técnicas e estratégicas. “Esse pessoal acha que TikTok e Instagram resolvem. Isso é informação descartável. Quem forma opinião é quem produz conteúdo”, declarou.

Ele ainda mencionou problemas práticos que dificultam a disseminação de conteúdos governamentais por apoiadores independentes. “Eles fazem vídeos com músicas protegidas por direito autoral. A gente não pode reproduzir, senão desmonetiza o canal”, explicou.

Disputa de narrativa e avanço da extrema direita

Durante a entrevista, Fernandes ressaltou que o bolsonarismo se fortalece não por resultados concretos, mas pela construção de uma narrativa emocional e ideológica.

“O fato não importa mais. O que importa é a narrativa”, disse. Ele citou como exemplo a percepção disseminada por setores da população de que a economia estaria pior, mesmo diante de indicadores positivos.

“Você pergunta para um eleitor do Flávio Bolsonaro por que ele vota nele e ele não sabe dizer. Ele reproduz uma crença, uma mentira ou um preconceito”, afirmou.

Para o comunicador, esse cenário é fruto de quase uma década de atuação contínua da extrema direita nas redes. “Nós estamos há quase 10 anos sendo bombardeados por fake news, discurso anticomunista e manipulação religiosa”, alertou.

Proposta: copiar o modelo mexicano

Como solução, José Fernandes defendeu que o governo brasileiro adote uma estratégia inspirada na experiência do México, durante os governos de Andrés Manuel López Obrador e, mais recentemente, de Claudia Sheinbaum.

Segundo ele, a principal iniciativa é a realização de coletivas diárias, com transmissão direta nas redes. “É simples: é copiar o modelo mexicano. Todo dia, de manhã, o presidente fala com o povo”, explicou.

Ele destacou que esse formato cria um ciclo contínuo de informação e engajamento. “O que o presidente fala vira assunto o dia inteiro. As redes replicam, os jornalistas repercutem, os youtubers recortam. Isso forma opinião”, afirmou.

Além disso, mencionou iniciativas específicas, como quadros semanais de combate à desinformação. “No México tem o ‘detector de mentiras’. Toda semana o governo desmente fake news uma por uma”, disse.

Para Fernandes, esse tipo de prática inibe abusos da mídia tradicional e fortalece a narrativa governamental. “Quando tem contraponto, os grandes veículos puxam o freio”, avaliou.

Comunicação como fator decisivo para 2026

O entrevistado alertou que o tempo é um fator crítico e que o campo progressista já está atrasado na disputa digital. “Nós vamos ter que correr contra o tempo perdido”, afirmou.

Ele também demonstrou preocupação com o comportamento do eleitorado, especialmente aquele que não é ideologicamente alinhado. “Uma grande parte dos eleitores do Lula não é lulista. Se perder esse público, o risco é enorme”, disse.

Fernandes citou ainda a importância de pautas estruturais, como o fim da jornada 6x1, defendendo que sejam trabalhadas com mais firmeza e embasamento. “Não basta defender. Tem que apresentar estudo, impacto econômico, dados concretos”, afirmou.

Lula reage, mas alcance é limitado

Durante o programa, também foi exibido um trecho recente de discurso do presidente Lula, no qual ele ironiza ataques e fake news. “Treine, seu puto. Treine. Se prepare, beba menos e trabalhe para você ver como é que você faz”, disse o presidente, ao responder críticas sobre sua idade.

Em outro momento, Lula rebateu declaração de um adversário que o comparou a um carro antigo: “Eu tive um Opala 94 turbinado. Se ele conhecesse, não falava isso”.

Apesar do tom combativo e da forte conexão popular, os participantes do programa destacaram que esse tipo de conteúdo ainda não alcança ampla circulação nas redes.

Alerta final: risco de retrocesso

Ao encerrar sua participação, José Fernandes fez um alerta contundente sobre o momento político do país.

“Se a gente continuar nessa linha, vamos ter um Milei aqui”, disse, em referência ao presidente argentino Javier Milei, apoiado por setores da direita brasileira.

Ele afirmou que seguirá pressionando por mudanças. “Eu vou tentar quebrar a porta da torre de comando. Porque tem um iceberg na frente”, declarou, em metáfora sobre os riscos eleitorais.

Para o comunicador, a disputa de 2026 será definida menos pelos resultados de governo e mais pela capacidade de comunicação. “Quem não se comunica, se trumbica”, concluiu, citando o apresentador Chacrinha.

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