“A democracia representativa está morrendo no mundo todo”, alerta Miguel Nicolelis
Neurocientista afirma que a crise de representação abre espaço para o avanço dos gigantes da inteligência artificial e alerta para riscos à soberania
247 - O médico, neurocientista e professor Miguel Nicolelis, considerado um dos mais importantes cientistas brasileiros da atualidade e uma das principais referências mundiais em neurociência, fez uma análise sobre os riscos que a expansão do poder das gigantes da tecnologia representa para a democracia. Em entrevista ao programa Giro das Onze, da TV 247, ele afirmou que a democracia representativa atravessa uma crise global e que esse cenário vem sendo explorado pelos principais líderes da indústria da inteligência artificial.
Ao analisar as transformações políticas em curso no mundo, Nicolelis chamou atenção para o afastamento entre representantes políticos e a população, especialmente entre os mais jovens. Segundo ele, a perda de confiança nas instituições democráticas tem se tornado um fenômeno global.
“A democracia representativa está morrendo no mundo todo porque as camadas de jovens estão perdendo a esperança que eles podem ser ouvidos pela classe política. Isso é universal no mundo todo”, frisou.
Para o neurocientista, esse vácuo de representação está criando uma oportunidade para que empresários e grupos ligados ao setor da inteligência artificial ocupem espaços cada vez maiores no debate público e na definição dos rumos da sociedade.
“E os overlords da inteligência artificial estão aproveitando desse vazio, desse vácuo criado pela distância entre os representantes e os representados para entrar no meio e tentar dizer que nós temos que viver sem isso, que é para acabar com a democracia”, argumentou.
Nicolelis afirmou que existe um projeto político por trás do discurso de parte da elite tecnológica mundial. Segundo ele, a proposta seria substituir estruturas democráticas e nacionais por um sistema concentrado de poder.
“Esse é o projeto global desses caras, instituir uma monarquia tecnocrática global, onde não existem nações, não existem governantes locais, não existem culturas locais, porque tudo vai ser homogeneizado segundo o plano deles”, disse.
O cientista também rejeitou a ideia de que a humanidade deva aceitar passivamente um futuro definido pelos grandes conglomerados tecnológicos. Durante a entrevista, ele criticou a narrativa segundo a qual a obsolescência humana diante da inteligência artificial seria inevitável.
“Querem vender que a nossa obsolescência é inevitável que o negócio é basicamente aceitar o destino certo? E nos conformar, não, nada é inevitável, o destino não está definido, não está traçado”, rebateu.
Na avaliação de Nicolelis, a sociedade não delegou aos líderes da tecnologia a responsabilidade de decidir os rumos da humanidade. Por isso, ele defende que as decisões sobre o futuro devam permanecer submetidas ao debate democrático.
“Porque ninguém elegeu esses caras para decidir qual é o nosso futuro, ninguém deu para eles, ninguém deu na mão deles um mandato... eleitoral aí, um cargo para decidir pela humanidade qual é o nosso futuro e quem são eles para decidir o que vai ser que nós vamos fazer ou não vamos fazer”, enfatiza.
Ao comentar uma entrevista concedida por Bill Gates nos Estados Unidos, Nicolelis voltou a questionar a legitimidade das lideranças do setor para falar em nome da população mundial.
“O cara perguntou para o Gates: 'e aí, vai sobrar seres humanos? Os seres humanos vão fazer alguma coisa?. Aí o Gates, do alto da arrogância diz: 'não muita coisa, mas nós vamos decidir'. Nós quem? Não, mas nós quem? Nós quem, cara pálida?, questionou.
Em seguida, reforçou a crítica à concentração de poder nas mãos de um grupo restrito de empresários e investidores: “Quem deu para ele o direito de falar em nome de oito bilhões de pessoas e seus descendentes?”
Além das preocupações políticas, Nicolelis demonstrou preocupação com a concentração de recursos financeiros em projetos ligados à inteligência artificial. Segundo ele, a disputa tecnológica global está impulsionando uma mobilização sem precedentes de capital.
“Essa operação, esse IPO, eu estou definindo como o maior aspirador financeiro da história da humanidade”, afirmou. Para o neurocientista, a captação de dezenas ou centenas de bilhões de dólares por empresas do setor pode gerar impactos significativos sobre a economia mundial.
“Você faz um IPO que você pede dois trilhões de valor da sua empresa para levantar setenta, cem bilhões no mercado. Você está sugando toda a liquidez do mercado”, disse.
Nicolelis defendeu que o futuro não está determinado e que a sociedade ainda pode influenciar os rumos das transformações tecnológicas. Para ele, a principal tarefa dos governos democráticos é reconstruir os canais de diálogo com a população e impedir que decisões estratégicas para a humanidade fiquem concentradas nas mãos de um pequeno grupo de atores econômicos.

