“'A esquerda precisa trazer o debate da economia para nós'”, diz dirigente do MST
João Paulo Rodrigues defende que a disputa sobre juros, industrialização e geração de renda seja central na construção do projeto nacional para o Brasil
247 - O integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, afirmou que a esquerda brasileira precisa colocar a economia no centro do debate político e programático para responder aos desafios enfrentados pela classe trabalhadora e construir um novo projeto nacional de desenvolvimento. A declaração foi dada durante entrevista ao programa Brasil Popular, da TV 247.
Segundo Rodrigues, os problemas enfrentados pela população não podem ser discutidos apenas a partir das pautas tradicionais de direitos ou da organização política dos movimentos sociais. Para ele, questões como endividamento das famílias, emprego, industrialização, juros e novas formas de trabalho precisam ocupar lugar central nas formulações da esquerda.
“O debate da economia define a vida real das pessoas”, afirmou. Na avaliação do dirigente, a discussão sobre projeto nacional passa necessariamente pela construção de alternativas concretas para trabalhadores urbanos e rurais, especialmente diante das transformações provocadas pela digitalização da economia e pelo avanço da inteligência artificial.
Rodrigues argumentou que parte da nova geração de trabalhadores está sendo atraída por discursos ligados ao empreendedorismo individual e que os movimentos populares precisam apresentar respostas econômicas capazes de dialogar com essa realidade. Para ele, a defesa de direitos continua importante, mas não é suficiente para mobilizar amplos setores da população.
O dirigente citou como exemplo a situação de pequenos produtores rurais. Segundo ele, garantir a permanência dessas famílias no campo exige enfrentar problemas relacionados à produtividade, ao acesso à tecnologia, à industrialização da produção e à renda. Sem isso, afirmou, discursos simplificados sobre sucesso individual tendem a ganhar espaço.
A mesma lógica, segundo Rodrigues, vale para trabalhadores urbanos submetidos à precarização e à chamada uberização do trabalho. Ele defendeu que a esquerda apresente propostas para regular as plataformas digitais e construir formas de organização econômica que garantam renda e proteção social.
Outro ponto destacado foi o impacto da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho. Rodrigues avaliou que o tema ainda não ocupa o espaço necessário nas discussões políticas e sindicais. Para ele, o avanço tecnológico deve ser orientado para reduzir o esforço físico dos trabalhadores, ampliar o tempo livre e aumentar a capacidade produtiva do país.
“O governo federal tem feito um esforço muito grande, mas nós vamos ser atropelados pela inteligência artificial. A esquerda precisa discutir isso”, afirmou.
Na entrevista, o dirigente também relacionou o debate econômico à necessidade de um projeto nacional mais amplo, capaz de enfrentar a dependência financeira do país, estimular a industrialização e gerar empregos. Segundo ele, temas como a política de juros, o papel do Banco Central e a destinação dos recursos públicos precisam ser incorporados ao cotidiano das organizações populares.
Para Rodrigues, a construção de um novo ciclo político exige que movimentos sociais, sindicatos, universidades e organizações populares debatam não apenas reivindicações específicas, mas também os rumos da economia brasileira. Ele defendeu que a elaboração desse projeto ocorra paralelamente à disputa eleitoral e continue após as eleições, como parte de um processo permanente de mobilização social.
Ao final da entrevista, o dirigente reafirmou que discutir economia é condição para enfrentar problemas estruturais do país e aproximar a política da vida concreta da população. “Por que o Banco Central não baixa o juro? Por que temos tanto endividamento? Esses assuntos precisam estar na pauta, porque são eles que definem a vida real das pessoas”, concluiu.



