África vive nova disputa geopolítica por recursos estratégicos, avalia Ivanir dos Santos
Historiador da UFRJ afirma que o Sahel concentra minérios estratégicos e virou alvo da disputa entre potências globais
247 - O continente africano voltou ao centro das disputas geopolíticas globais. Riquezas minerais estratégicas, recursos energéticos, crescimento demográfico acelerado e a emergência de novos projetos políticos transformaram especialmente a região do Sahel em um dos principais tabuleiros da competição internacional do século XXI.
A análise foi feita pelo historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ivanir dos Santos durante entrevista ao programa Brasil no Mundo, da TV Brasil, apresentado por Cristina Serra, com participação dos jornalistas Jamil Chade e Yan Boechat. Segundo o pesquisador, a região atravessa profundas transformações políticas e econômicas que podem redefinir o futuro do continente africano.
Localizado na faixa de transição entre o deserto do Saara e a África Subsaariana, o Sahel concentra algumas das mais importantes reservas minerais do planeta. Entre elas estão depósitos de urânio, fundamentais para a geração de energia nuclear, além das chamadas terras raras, indispensáveis para a produção de equipamentos eletrônicos, baterias, veículos elétricos e tecnologias de defesa.
“Ali é uma área que tem muito urânio e também as chamadas terras raras. Entender as transformações políticas que estão existindo naquela região é fundamental porque elas podem influenciar toda a África negra”, destacou Ivanir.
Juventude impulsiona mudanças políticas
O pesquisador chamou atenção para outro elemento decisivo na atual conjuntura africana: a força demográfica da juventude. Em diversos países do continente, novas gerações demonstram crescente insatisfação com elites políticas que permanecem há décadas no poder.
Segundo Ivanir, muitos jovens altamente qualificados enfrentam dificuldades para encontrar oportunidades compatíveis com sua formação profissional, reflexo de economias ainda pouco industrializadas e marcadas por limitações estruturais.
“Você encontra jovens médicos vendendo laranja, jornalistas trabalhando em atividades informais. Existe uma juventude formada que não encontra espaço para se desenvolver”, afirmou.
A falta de industrialização permanece como um dos maiores desafios do continente. Embora países como Nigéria e Angola tenham economias impulsionadas pelo petróleo, a industrialização ainda avança lentamente, enquanto problemas de infraestrutura, especialmente no setor energético, dificultam o desenvolvimento econômico.
Rússia, China e novas potências ampliam presença
A disputa por influência no continente não envolve apenas as tradicionais potências ocidentais. Ivanir observou que Rússia e China têm adotado estratégias distintas para ampliar sua presença na África.
Enquanto Moscou fortalece sua atuação por meio de cooperação militar e segurança, Pequim aposta em investimentos em infraestrutura, energia e formação de quadros técnicos africanos.
“A China está investindo em infraestrutura, energia e formação profissional. Ela criou mecanismos para receber estudantes africanos e prepará-los para atuar no desenvolvimento de seus próprios países”, explicou.
Jamil Chade ressaltou que, além de China e Rússia, outros atores emergentes, como Índia e Turquia, também ampliam sua atuação no continente. Para ele, a Europa, especialmente a França, vem perdendo espaço de maneira acelerada.
“A África se tornou um dos principais tabuleiros da nova geopolítica internacional. A grande perdedora desse processo tem sido a Europa”, avaliou o jornalista.
Especialistas apontam que o Sahel tornou-se uma zona estratégica justamente por reunir recursos minerais críticos, rotas comerciais e interesses de múltiplas potências globais, além de conectar o Norte da África à África Subsaariana.
Transformações no Sahel desafiam influência francesa
Nos últimos anos, Mali, Burkina Faso e Níger passaram por mudanças políticas profundas. Governos militares apoiados por parcelas significativas da população iniciaram processos de afastamento da influência francesa, questionando estruturas herdadas do período colonial.
Esses países criaram a Aliança dos Estados do Sahel (AES), vista por muitos analistas como uma tentativa de construir maior autonomia regional. O movimento também tem sido associado ao fortalecimento de discursos nacionalistas e anticoloniais.
Para Ivanir, entretanto, seria um erro interpretar o cenário africano apenas como resultado da disputa entre potências estrangeiras.
“Os países africanos também têm projetos próprios de desenvolvimento. Essas novas alianças não são apenas imposições externas. Há interesses africanos muito claros sendo colocados na mesa”, observou.
O retorno do pan africanismo
Um dos fenômenos destacados pelo historiador é o ressurgimento do pan africanismo, movimento político e cultural que defende maior integração entre os países africanos e suas diásporas.
Ivanir participou recentemente do 9º Congresso Pan-Africano realizado no Togo e relatou que os debates estiveram fortemente concentrados em temas econômicos, integração regional, inovação tecnológica e desenvolvimento sustentável.
“O grande debate era sobre o desenvolvimento da África. Mercado, tecnologia, industrialização e a participação das diásporas passaram a ocupar o centro das discussões”, afirmou.
Segundo ele, a chamada “sexta região” — formada por africanos e afrodescendentes espalhados pelo mundo — vem adquirindo importância crescente nas estratégias de integração econômica e política do continente.
Relações com o Brasil
Ao analisar os laços entre Brasil e África, Ivanir defendeu uma política mais consistente e estratégica de aproximação.
Ele lembrou que houve avanços em diferentes períodos da história brasileira, especialmente durante os governos Lula, quando houve expansão da presença diplomática brasileira no continente. Ainda assim, considera que o Brasil conhece pouco a realidade contemporânea africana.
“O Brasil conhece muito mais uma África mítica do que a África contemporânea”, afirmou.
Para o pesquisador, há amplo espaço para cooperação em áreas como agricultura, tecnologia, educação, inovação, infraestrutura e intercâmbio acadêmico. Ele também destacou a necessidade de formar especialistas capazes de compreender as transformações políticas e econômicas em curso no continente.
Guerra no Sudão agrava crise humanitária
O programa também abordou a guerra civil no Sudão, considerada atualmente uma das maiores crises humanitárias do mundo.
Segundo Yan Boechat, o conflito já provocou centenas de milhares de mortes e milhões de deslocados, embora receba atenção internacional muito menor do que outras guerras recentes.
A disputa opõe diferentes facções militares após a queda do antigo presidente Omar al-Bashir e tem sido alimentada por interesses regionais e internacionais. O conflito tornou-se ainda mais grave diante da redução da ajuda humanitária internacional e do enfraquecimento das operações de assistência.
Para Ivanir, além dos fatores militares e econômicos, elementos religiosos também desempenham papel relevante em algumas disputas africanas contemporâneas, influenciando alianças políticas e estratégias de influência externa.
África no centro do século XXI
Ao longo da entrevista, Ivanir dos Santos sustentou que compreender a África atual exige abandonar visões estereotipadas e reconhecer o protagonismo crescente dos próprios africanos na definição de seus destinos.
Entre riquezas minerais estratégicas, juventude mobilizada, disputas entre potências globais e novos projetos de integração regional, o continente emerge como uma das regiões mais decisivas para os rumos da economia e da política mundial nas próximas décadas.
“A África está pensando em seu próprio desenvolvimento. Esse talvez seja o dado mais importante para entender o que está acontecendo hoje no continente”, concluiu.



