Conde: “A política foi destituída de afeto”
Gustavo Conde defende resgate do afeto na política e reconstrução de vínculos democráticos
247 - Em entrevista ao editor-responsável do Brasil 247, Leonardo Attuch, o jornalista Gustavo Conde avaliou que o Brasil vive um período de transição após o ciclo marcado pelo bolsonarismo e pela crise institucional dos últimos anos. Para ele, mesmo com a vitória eleitoral do campo democrático em 2022 e com a prisão de Jair Bolsonaro, o país segue atravessando um momento sensível, no qual os desafios estruturais permanecem e novas ameaças continuam presentes.
A conversa foi exibida na TV 247, reunindo reflexões sobre o ambiente político brasileiro e, principalmente, sobre o que Conde considera uma lacuna central do debate público atual: a ausência de sentimento e de mobilização emocional na política. Segundo ele, a reconstrução democrática exige mais do que medidas administrativas e políticas públicas. Depende também da capacidade de reativar vínculos coletivos.
Ao comentar o cenário que antecede as eleições presidenciais de 2026, Conde afirmou que a sociedade brasileira atravessa uma espécie de desgaste após anos de confronto político intenso. Ele classificou o período atual como um momento de “ressaca”, em que o campo democrático venceu eleitoralmente, mas não consolidou um novo horizonte político capaz de reorganizar expectativas e mobilizar a população.
“Eu acho que a gente tá vivendo uma espécie de ressaca ou um fim de um ciclo, o ciclo do golpe do bolsonarismo que nós vencemos”, disse. Em seguida, apontou que a prisão de Bolsonaro, embora esperada por setores progressistas, não representou um encerramento real das tensões políticas. “A gente esperou tanto por esse momento, mas é uma coisa banal, tá preso, os generais estão presos e o Brasil continua com muitos desafios pra gente fazer”, afirmou.
A principal preocupação de Conde, no entanto, está no enfraquecimento da dimensão afetiva na política. Para ele, a extrema direita avançou ao capturar emoções como medo, raiva e ressentimento, enquanto setores progressistas perderam parte de sua capacidade de mobilizar esperança e pertencimento.
“A gente precisa trazer o sentimento, o afeto de volta pra política. A política foi destituída de afeto”, declarou. Ele argumentou que a cultura política brasileira foi transformada nos últimos anos, com a substituição de referências históricas ligadas à música, à cultura e à ideia de coletividade por uma lógica de hostilidade permanente.
Conde também lembrou que o Partido dos Trabalhadores e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre tiveram forte associação com símbolos culturais e afetivos, algo que, segundo ele, ajudou a consolidar a identidade do campo progressista. “O PT e o Lula sempre tiveram isso, a coisa do amor, da música, da cultura”, disse. Mas, ao comparar os mandatos recentes, ele afirmou que essa energia não se manifesta com a mesma intensidade no momento atual.
“A volta do Lula foi isso. O Lula 3 teve isso. Agora o Lula 4 não tá tendo tanto”, avaliou, ao defender que o campo democrático volte a “acionar” sentimentos coletivos. Para Conde, essa dimensão não pode ser tratada como detalhe eleitoral, pois é parte estrutural do funcionamento da política no Brasil.
Ao aprofundar o tema, Conde sustentou que eleições não são definidas apenas por argumentos racionais ou avaliações econômicas. Segundo ele, existe um componente emocional decisivo, capaz de reorganizar percepções sociais e impulsionar mobilizações. “A eleição é resolvida na emoção. O Lula sabe disso”, afirmou, acrescentando que a racionalidade, sozinha, não é suficiente para produzir engajamento.
“A racionalidade, de uma certa maneira, é uma espécie de nuvem, uma ilusão”, disse.
Na avaliação do jornalista, a ausência de utopias também agrava o quadro. Para ele, a sociedade brasileira entrou em um período dominado por distopias, com a sensação de que não há futuro coletivo possível. “A gente agora entrou no circuito das distopias. Não é nem só uma, são várias distopias”, declarou.
Conde afirmou que, sem um horizonte de projeto nacional, a juventude tende a se afastar do debate público e se concentrar em soluções individuais. Segundo ele, esse movimento se conecta ao discurso da extrema direita, que enfraquece a ideia de coletividade e reforça uma lógica de competição permanente.
“Se perdeu essa perspectiva da coletividade. Ela foi intoxicada por esse discurso da extrema direita”, afirmou. Ele também lembrou que, nas décadas de 1980 e 1990, o Brasil ainda carregava um imaginário de reconstrução democrática e de transformação social, o que gerava uma percepção de participação histórica.
Na entrevista, Conde indicou que a ausência de um “gatilho emocional” é hoje um dos fatores centrais para explicar a dificuldade do campo democrático em se mobilizar de forma mais intensa. “Eu acho, a gente precisa de um gatilho emocional, cara. É isso que a gente tá precisando”, disse.
Para ele, o país enfrenta um processo de fragmentação social que se reflete na violência e na radicalização. Ele mencionou que a individualização crescente e o enfraquecimento dos vínculos coletivos contribuem para a deterioração do tecido social. “As sociedades estão muito atomizadas”, afirmou, observando que isso se manifesta também em indicadores como feminicídio e letalidade policial.
A reconstrução do afeto, segundo Conde, não significa uma estratégia simplista ou um recurso retórico eleitoral. Ele afirmou que não existe solução rápida para reverter o ambiente de hostilidade e ressentimento consolidado nos últimos anos, mas sustentou que é necessário insistir nesse caminho. “Não vamos tirar um coelho da cartola, não tem bala de prata pra gente instalar o amor no debate público brasileiro”, afirmou. Ainda assim, defendeu que a tentativa precisa ser contínua: “Mas nós temos que tentar”.
Ao final da conversa, ao ser convidado por Attuch a deixar uma mensagem ao público, Conde sintetizou sua visão sobre o desafio político imediato do país. Ele afirmou que o campo democrático precisa reconstruir uma disposição coletiva para enfrentar a extrema direita e reorganizar expectativas sociais.
“Eu acho que o campo democrático tem que se permitir ser feliz de novo”, declarou, citando o slogan histórico da campanha presidencial de Lula em 1989. Para Conde, esse resgate não deve ser visto apenas como marketing político, mas como uma necessidade concreta de sobrevivência social e democrática.
“Sem medo de ser feliz. Eu acho que essa ideia precisa voltar a imperar não só como uma estratégia política, mas como um sentimento de vida”, afirmou.
Segundo ele, a extrema direita se fortalece em ambientes marcados por medo, retração e passividade, e tende a recuar diante de movimentos sociais organizados e confiantes. “Quando você demonstra ousadia, coragem, vai para cima, eles fogem”, disse.
Conde conclui defendendo que a sociedade brasileira, especialmente os jovens, volte a se engajar com experiências criativas, culturais e coletivas, como forma de reconstruir um horizonte nacional. Para ele, a política precisa recuperar capacidade de mobilizar, e a democracia precisa se expressar também como desejo de futuro.
“A extrema direita tem medo disso”, afirmou, ao insistir que o país precisa recuperar energia social antes que novas crises reabram espaço para retrocessos.