"Eles não conseguem parar a solidariedade internacional", diz Thiago Ávila
Ativista brasileiro relata tortura, ameaças e prisão após interceptação de flotilha humanitária rumo a Gaza
247 - O ativista brasileiro Thiago Ávila afirmou ter sido submetido a agressões físicas, ameaças de morte, privação de direitos e tortura psicológica por forças israelenses após a interceptação de uma flotilha humanitária em águas internacionais. Em entrevista aos jornalistas Regina Zappa e Mario Vitor, da TV 247, ele descreveu em detalhes os dias que passou sob custódia israelense e denunciou o que classificou como uma tentativa de silenciar a solidariedade internacional ao povo palestino.
Segundo Ávila, a missão tinha como objetivo romper o bloqueio imposto a Gaza e recolocar a tragédia humanitária vivida pelos palestinos no centro da atenção mundial. Para ele, apesar das detenções e da violência sofrida pelos participantes, a operação alcançou seu propósito político.
"Eles conseguem causar uma dor indescritível na gente, mas não são capazes de parar a solidariedade internacional. O mundo voltou a falar de Gaza", afirmou.
O ativista explicou que a flotilha foi organizada ao longo de meses e pretendia se tornar a maior ação marítima de solidariedade à Palestina já realizada. A iniciativa reuniu embarcações e participantes de dezenas de países em uma tentativa de romper o cerco que, segundo ele, mantém a Faixa de Gaza isolada há quase duas décadas.
Ao contextualizar a missão, Ávila destacou que o sofrimento da população palestina permanece invisibilizado por parte da imprensa internacional e das plataformas digitais.
"As pessoas não estavam mais falando de Gaza. Havia a tentativa de criar a sensação de que o problema tinha acabado, mas as pessoas continuam morrendo, a ajuda humanitária continua sendo impedida e a terra palestina continua sendo tomada", declarou.
De acordo com o relato, a primeira interceptação ocorreu a cerca de 700 milhas náuticas de Gaza, ainda em águas internacionais. Ele afirma que soldados israelenses abordaram os barcos com armamento pesado, destruíram equipamentos de comunicação e conduziram os ativistas para uma embarcação adaptada como centro de detenção.
Ávila descreveu condições degradantes durante o período em que esteve preso no navio. Segundo ele, os detidos enfrentaram frio intenso, falta de medicamentos, escassez de água e ausência de assistência adequada.
"As pessoas se abraçaram para não entrar em hipotermia. Havia gente diabética, cardíaca e com outras necessidades médicas sem acesso aos remédios. Mulheres estavam sem itens básicos para higiene menstrual", relatou.
Diante da situação, os ativistas decidiram iniciar uma greve de fome e passaram a exigir informações sobre companheiros separados do grupo. A reação, segundo ele, foi o aumento da violência.
O brasileiro contou que foi retirado à força de um protesto pacífico dentro da embarcação-prisão e espancado por soldados israelenses.
"Eles começaram a me dar socos e chutes. Em determinado momento eu apaguei. Quando voltei, estava sendo arrastado e ouvi uma soldada dizer que aquela já não era mais a cara do Thiago", afirmou.
Em outro trecho da entrevista, Ávila relatou ameaças de execução e intimidações constantes.
"Amarraram um cadarço no meu pescoço e disseram: 'Agora podemos te enforcar. Você vai morrer hoje'. Em outro momento me levaram para a beira do navio e fingiram que iam me jogar no mar", disse.
Após ser transferido para Israel, ele afirma ter sido encaminhado para um centro de interrogatórios da inteligência interna israelense, onde permaneceu em isolamento e foi submetido a longas sessões de questionamentos.
Segundo o ativista, agentes tentaram enquadrar a flotilha como uma organização terrorista e o ameaçaram com penas que somariam um século de prisão.
"Eles diziam que eu poderia ficar 100 anos preso. Falavam que podiam me matar, que podiam me torturar e que meus direitos eram limitados porque eu estava sendo acusado pela legislação antiterror", contou.
Apesar das ameaças, Ávila afirma que se recusou a abandonar suas convicções políticas durante os interrogatórios.
"Eu repetia que quem estava cometendo crimes não éramos nós. O que está acontecendo em Gaza é uma violação do direito internacional e um genocídio diante dos olhos do mundo", declarou.
Um dos momentos mais dolorosos, segundo ele, ocorreu após sua libertação. Somente ao atravessar o deserto do Sinai, rumo ao Egito, o ativista descobriu que sua mãe havia morrido durante o período em que esteve preso.
Ao reconstruir os acontecimentos, ele concluiu que seus interrogadores já tinham conhecimento da morte e utilizaram a informação como instrumento de pressão psicológica.
"Eles passaram um dia inteiro falando que eu nunca mais veria minha mãe. Depois descobri que era exatamente o dia em que ela havia falecido", revelou.
Mesmo diante da violência sofrida, Ávila fez questão de relativizar sua própria experiência diante da realidade enfrentada pelos palestinos.
"Não existe outro nome para o que eu vivi: foi tortura física e psicológica. Mas o que os palestinos enfrentam diariamente é muito pior. Há milhares de pessoas presas e submetidas a violações ainda mais brutais", afirmou.
Ao encerrar a entrevista, o ativista defendeu a continuidade das mobilizações internacionais em defesa da Palestina e afirmou que novas missões serão organizadas enquanto persistir o bloqueio e a crise humanitária em Gaza.
"As condições que levaram à existência da flotilha continuam existindo e estão piores do que nunca. Por isso, vamos continuar. Não podemos abandonar a Palestina", concluiu.



