"Enredos críticos incomodam conservadores, pois provocam o debate que tentaram impedir”, diz Juarez Xavier
Professor da Unesp avalia que polêmica sobre desfile da Acadêmicos de Niterói revela disputa política, midiática e cultural no carnaval
247 - O professor e pesquisador em Comunicação Juarez Xavier, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), afirmou que a reação conservadora aos enredos politizados no carnaval, como o da Acadêmicos de Niterói no Rio de Janeiro, acabou ampliando o debate público que setores tentaram conter. A declaração foi feita em entrevista ao programa Brasil Agora, da TV 247.
Segundo ele, a polêmica envolvendo o desfile da Acadêmicos de Niterói demonstra o poder cultural e político das escolas de samba, capazes de mobilizar discussões nacionais quando abordam temas sociais sensíveis.
“A tentativa de impedir o debate provocou o debate. Foi muito interessante nesse sentido”, afirmou o professor.
O professor destacou que o carnaval sempre teve dimensão crítica e satírica, funcionando como espaço de questionamento do poder e da realidade social brasileira. Para ele, o desfile criticado por comentaristas conservadores foi, na verdade, um dos momentos mais relevantes da festa recente.
“O desfile da Acadêmicos de Niterói foi um desfile maravilhoso. Primeiro, fez um debate muito legal sobre a questão de alguém que vem das camadas mais pobres e ascende à condição de presidente da República e propõe mudanças”, lembrou o professor. A escola homenageou o presidente Lula trazendo a sua trajetória de vida.
Juarez Xavier ressaltou ainda que a força do enredo está diretamente ligada à participação comunitária, elemento central das escolas de samba.
“Você não faz um enredo dessa magnitude, com esse grau de criticidade, se você não tem o apoio da comunidade. Isso é extraordinário, fantástico”, lembrou.
Disputa de narrativa e papel da mídia
O professor argumentou que a cobertura midiática negativa desviou a atenção da qualidade artística e do significado social do desfile. Para ele, a controvérsia revela uma disputa maior sobre o significado do carnaval na sociedade brasileira.
Citando reflexões do geógrafo Milton Santos, o professor explicou que processos sociais complexos envolvem dimensões perversas, fabulações e possibilidades. No caso do carnaval, a dimensão perversa estaria relacionada à exclusão econômica e simbólica da população negra que historicamente construiu a festa.
“Encontrou-se um modo e um mecanismo de eliminar o preto e pardo de uma política negra, de uma política cultural negra”, argumentou. “Uma escola de samba que provoca tanta polêmica como ela provocou deveria ser vista com um olhar mais crítico, entender o impacto que isso tem na comunidade”, acrescentou.
Possibilidades de transformação
Apesar das tensões, Juarez Xavier demonstrou otimismo em relação ao futuro do carnaval como espaço de crítica social e protagonismo negro, especialmente com o retorno de enredos que abordam identidade, religião afro-brasileira e desigualdade social.
“Eu aposto na possibilidade. Eu aposto que é possível que a gente possa voltar a ter a visão crítica do carnaval”, frisou.
Para o professor, o momento atual pode abrir caminho para um debate mais profundo sobre a economia política do carnaval e a participação da população negra na riqueza gerada por uma das maiores manifestações culturais do país.


