Escala 6x1 é “desumana” e redução da jornada melhora produtividade, afirma Carla Beni
Economista defende limite de 40 horas semanais e afirma que redução da jornada beneficia trabalhadores e empresas
247 - A economista Carla Beni afirmou que a escala de trabalho 6x1 é “totalmente desumana” e defendeu a redução da jornada semanal no Brasil como uma medida capaz de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e até beneficiar as empresas. As declarações foram dadas em entrevista ao Boa Noite 247, durante debate sobre a proposta em discussão no Congresso Nacional para reduzir a carga horária de 44 para 40 horas semanais.
Segundo Carla Beni, o acordo político em debate prevê uma transição gradual: inicialmente a jornada cairia para 42 horas semanais e, após um ano, seria reduzida para 40 horas. Para ela, a mudança não deve ser analisada apenas pelo aspecto econômico.
“Essa não é uma decisão econômica, ela é mais uma decisão política”, afirmou.
A economista explicou que, embora diferentes setores mantenham escalas específicas — como saúde, segurança e petróleo —, o mais importante é estabelecer um limite máximo de horas trabalhadas.
“O importante é que a gente não passe das 40 horas semanais. A escala seis para um é totalmente desumana”, declarou.
Carla Beni também rebateu o discurso de setores empresariais que apontam risco de queda do PIB, aumento de custos e desemprego caso a jornada seja reduzida. Segundo ela, esse argumento se baseia em uma visão ultrapassada sobre produtividade.
“Eu não posso produzir mais com menos e acabar com a saúde mental do trabalhador. Não posso produzir gerando burnout, adoecimento e destruição das relações familiares”, afirmou.
Ela destacou que muitos empresários já perceberam vantagens concretas na redução da jornada, principalmente pela diminuição da rotatividade de funcionários e pela melhora no ambiente de trabalho.
“A demissão é um custo caro e o treinamento é outro custo caro. Quando você mantém a equipe por mais tempo, isso é muito melhor para o empresário”, explicou.
A economista citou experiências de hotéis e redes varejistas que adotaram jornadas mais equilibradas e obtiveram aumento de produtividade, além de funcionários mais motivados e menos propensos a trocar de emprego.
Segundo Carla Beni, trabalhadores submetidos à escala 6x1 geralmente recebem salários baixos e enfrentam longos deslocamentos, fatores que ampliam a rotatividade e dificultam a permanência nas empresas.
“Esse trabalhador troca de emprego por R$ 50 a mais, ou por um trabalho mais perto de casa, porque a situação dele é muito frágil”, disse.
A economista também defendeu uma mudança cultural na relação entre consumo e trabalho. Para ela, a sociedade criou a expectativa de disponibilidade permanente de serviços sem considerar os impactos humanos disso.
“Criamos uma fantasia de que tudo precisa funcionar 24 horas por dia. Será que eu preciso comprar um saco de ração às três da manhã e ter alguém trabalhando para isso?”, questionou.
Ela lembrou que diversos países já adotam jornadas menores, citando o Chile, que trabalha com 40 horas semanais, além de nações europeias que discutem cargas ainda mais reduzidas, entre 30 e 32 horas semanais.
Outro ponto abordado por Carla Beni foi o programa Desenrola Brasil. A economista avaliou positivamente os resultados da segunda fase da iniciativa, que renegociou cerca de R$ 10 bilhões em dívidas nas primeiras semanas.
Segundo ela, aproximadamente 1 milhão de brasileiros já foram beneficiados, com descontos médios de 85% sobre juros e multas.
“Se você sai de um rotativo de cartão pagando 15% ao mês para uma renegociação de 1,99%, isso muda completamente a situação da dívida”, afirmou.
Apesar disso, Carla Beni demonstrou preocupação com a autorização para uso do FGTS no pagamento de débitos.
“Esse dinheiro é do trabalhador e foi pensado para o futuro e para emergências. Quando você usa o FGTS agora, está trocando o futuro pelo presente”, alertou.
A economista também criticou declarações recentes do apresentador Luciano Huck sobre o Bolsa Família. Segundo ela, existe desinformação e preconceito em torno do programa social.
“O Bolsa Família conseguiu interromper o ciclo de pobreza transgeracional”, afirmou.
Ela citou estudos da FGV Social indicando que mais de 70% dos jovens beneficiários trabalham com carteira assinada e destacou o impacto econômico positivo do programa.
“Para cada dólar investido no Bolsa Família, retornam 2,16 dólares para a economia”, explicou.
Na avaliação de Carla Beni, parte da sociedade foi levada a enxergar os mais pobres como responsáveis pelos problemas econômicos do país.
“Quem ganha R$ 100 mil por mês conseguiu convencer quem ganha R$ 10 mil de que o problema do Brasil é quem ganha R$ 1 mil”, declarou.



