Facções como terroristas: Beatriz Bissio alerta para ameaça à soberania brasileira
Para professora da UFRJ, decisão dos EUA sobre PCC e Comando Vermelho integra estratégia mais ampla de pressão sobre a América Latina
247 - A classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos representa mais do que uma medida de segurança pública. Na avaliação da historiadora Beatriz Bissio, professora do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a decisão deve ser compreendida dentro de uma estratégia geopolítica mais ampla de ampliação da influência norte-americana sobre a América Latina.
Em entrevista ao programa Brasil no Mundo, da TV Brasil, Bissio afirmou que a iniciativa se insere em uma tradição histórica de intervenção dos Estados Unidos na região, renovada durante o governo Donald Trump sob o discurso da segurança nacional.
“Donald Trump renova essa ambição. Ela nunca esteve, na verdade, fora do radar dos Estados Unidos”, afirmou. Segundo a professora, a América Latina voltou a ocupar posição prioritária na estratégia de Washington em um momento em que os Estados Unidos enfrentam desafios crescentes em outras regiões do planeta.
Para Bissio, o cenário atual revela diferentes mecanismos de pressão sendo construídos na região. Ela citou a presença militar norte-americana em países vizinhos, como Paraguai e Argentina, e avaliou que o Brasil passa a enfrentar uma espécie de cerco geopolítico.
A historiadora argumenta que a associação entre facções criminosas e terrorismo cria uma situação particularmente preocupante porque incorpora o tema à chamada “guerra ao terror”, conceito que, segundo ela, tem servido historicamente para justificar ações unilaterais dos Estados Unidos.
“Quando determinados grupos criminosos passam a ser enquadrados como terroristas, eles são inseridos numa doutrina que permitiu aos Estados Unidos extrapolar limites do direito internacional e agir sem se submeter plenamente às instituições multilaterais”, observou.
Na avaliação da professora, o combate ao narcotráfico exige cooperação internacional e instrumentos financeiros eficazes, e não medidas que possam servir de justificativa para ingerências externas. Ela destacou que o enfrentamento das organizações criminosas passa necessariamente pelo combate à lavagem de dinheiro e pelo monitoramento dos fluxos financeiros que sustentam essas atividades.
“O combate à lavagem de dinheiro é um dos caminhos fundamentais”, afirmou. “Há mecanismos concretos para enfraquecer essas estruturas sem recorrer a medidas que colocam em risco a soberania dos países.”
Bissio também criticou o que considera uma postura contraditória dos Estados Unidos em relação ao tráfico internacional de drogas. Segundo ela, a própria história recente demonstra que, em determinados momentos, interesses estratégicos norte-americanos se beneficiaram de circuitos ligados ao narcotráfico para financiar operações e conflitos internacionais.
Outro ponto de preocupação destacado pela pesquisadora envolve os possíveis impactos econômicos da medida. Na sua avaliação, a nova classificação pode abrir espaço para sanções e pressões sobre empresas, instituições financeiras e setores estratégicos da economia brasileira.
A professora observou que medidas dessa natureza frequentemente apresentam objetivos que vão além do discurso oficial de combate ao crime. Entre os riscos apontados por ela está a possibilidade de utilização do tema para ampliar mecanismos de controle financeiro sobre países da região.
Segundo Bissio, o momento exige atenção especial porque a decisão ocorre em um contexto pré-eleitoral no Brasil e em outros países latino-americanos, onde a pauta da segurança pública tem ganhado centralidade crescente nos debates políticos.
Para a historiadora, a principal tarefa das instituições democráticas, da imprensa e dos educadores será explicar à sociedade as implicações de longo prazo dessa classificação, especialmente no que se refere à soberania nacional.
“É necessário ajudar a população a compreender o que está em jogo”, afirmou. “A violência é uma preocupação legítima da sociedade, mas é preciso entender quais são as consequências de determinadas medidas e quais interesses elas podem atender.”
Bissio argumenta que o conceito de soberania tende a se tornar um dos temas centrais do debate político brasileiro nos próximos anos. Para ela, o desafio está em demonstrar que o combate ao crime organizado não pode servir de pretexto para a relativização da autonomia dos Estados nacionais.
Ao analisar o cenário internacional, a professora avalia que o mundo vive uma fase de profunda reorganização geopolítica, marcada pela intensificação das disputas estratégicas, pela militarização crescente e pela erosão de mecanismos multilaterais construídos após a Segunda Guerra Mundial.
Nesse contexto, ela considera fundamental que os países latino-americanos fortaleçam mecanismos próprios de cooperação e preservem sua capacidade de decisão soberana diante das pressões externas.
“A soberania não é um conceito abstrato”, concluiu. “Ela está diretamente relacionada à capacidade de cada país definir seus próprios caminhos e enfrentar seus problemas sem interferências externas.”



