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Eleição brasileira será teste para influência de Trump sobre a América Latina

Governo Lula vê eleição na Colômbia como primeiro termômetro, mas pleito brasileiro será crucial para definir os rumos da região

Donald Trump e Lula (Foto: Reuters | Ricardo Stuckert/PR)
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247 - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que a eleição brasileira deste ano poderá se tornar um dos principais testes para Donald Trump medir o alcance de sua estratégia de influência política na América Latina, em um cenário de crescente pressão dos Estados Unidos sobre a região, relata o Metrópoles.

A avaliação no Planalto ocorre após a divulgação, no fim de 2025, da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, documento que recolocou a América Latina no centro das prioridades de Washington e retomou referências à Doutrina Monroe, princípio formulado em 1823 para impedir interferências europeias no continente.

A diretriz foi atualizada em 1904 pelo então presidente Theodore Roosevelt, quando passou a admitir intervenções diretas dos Estados Unidos na região, inclusive por meios militares. Agora, sob o chamado “Corolário Trump”, a estratégia norte-americana tem como objetivo conter a presença de potências como China e Rússia na América Latina.

Integrantes do governo brasileiro veem a eleição presidencial da Colômbia como um primeiro termômetro do nível de envolvimento dos Estados Unidos nas disputas eleitorais latino-americanas. O segundo turno colombiano está marcado para 21 de junho e é acompanhado de perto por auxiliares de Lula.

Ainda assim, a avaliação no governo é que o pleito brasileiro tem peso político e estratégico maior. O Brasil é o maior país da América Latina em território e população e reúne ativos considerados relevantes para Washington, como reservas de terras raras e minerais críticos, entre eles o nióbio.

Atuação de Trump na Colômbia acende alerta no Planalto

A preocupação ganhou força depois que Trump declarou apoio ao candidato de ultradireita Abelardo de la Espriella, dois dias após o primeiro turno da eleição colombiana. Em publicação na rede Truth Social, o presidente norte-americano elogiou o político e afirmou que ele poderia impulsionar a economia e fortalecer as relações com Washington.

De la Espriella terminou o primeiro turno na liderança, com 43,74% dos votos. Ele ficou mais de 673 mil votos à frente do senador Iván Cepeda, apoiado pelo presidente Gustavo Petro, que obteve 40,90%.

Auxiliares de Lula evitam prever se Trump poderá declarar apoio público ao senador Flávio Bolsonaro, do PL, pré-candidato à Presidência. A possibilidade, no entanto, não é descartada por integrantes do governo. Aliados do presidente avaliam que a relação entre Trump e Lula é menos tensionada do que a mantida pelo republicano com Petro, o que poderia reduzir a intensidade de uma eventual tentativa de interferência.

Apesar disso, decisões recentes de Washington em relação ao Brasil passaram a ser tratadas como sinais de alerta no Palácio do Planalto.

Tarifas contra produtos brasileiros elevam tensão

Na segunda-feira (1º), o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, anunciou a conclusão de uma investigação que propõe taxar produtos brasileiros em 25%. A medida mira itens que já haviam sido alvo de ações semelhantes no início do segundo mandato de Trump.

Segundo o USTR, a apuração foi conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. O órgão acusa o Brasil de adotar políticas e práticas consideradas desleais em relação aos norte-americanos. Entre os pontos citados estão o Pix, decisões da Justiça brasileira envolvendo big techs e o acesso ao mercado brasileiro de etanol.

Um dia depois, outro parecer, também fundamentado na Seção 301, recomendou a imposição de tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros. Nesse caso, o Brasil aparece ao lado de outros 59 países. A investigação apontou supostas falhas dessas economias para impedir a entrada, em seus mercados internos, de produtos fabricados com mão de obra forçada.

Os dois pareceres ainda precisam passar por consultas públicas e dependem do aval de Trump para entrar em vigor.

PCC e CV entram na lista de organizações terroristas dos EUA

Outra frente de tensão envolve a decisão dos Estados Unidos de incluir o Primeiro Comando da Capital, o PCC, e o Comando Vermelho, o CV, em listas norte-americanas de organizações terroristas. Na prática, a medida busca atingir as facções e pessoas ou empresas que mantenham vínculos com elas por meio de sanções econômicas e restrições legais.

Para o governo brasileiro e analistas de política internacional, a decisão pode abrir espaço para interferências na soberania nacional sob a justificativa do combate ao terrorismo, em linha com movimentos recentes adotados por Washington na Venezuela.

Ao serem classificadas oficialmente como Organizações Terroristas Estrangeiras, as facções brasileiras deixam de ser tratadas pela inteligência dos Estados Unidos apenas como grupos criminosos locais ou cartéis ligados ao narcotráfico. A mudança amplia o alcance das agências de segurança norte-americanas para rastrear, pressionar e neutralizar redes operacionais associadas aos grupos fora do território brasileiro.

Além do cerco financeiro, a designação aciona dispositivos penais mais rígidos contra indivíduos ou empresas acusados de prestar apoio às facções. O enquadramento pela Lei de Imigração e Nacionalidade dos Estados Unidos também impõe restrições de mobilidade e imigração a lideranças e integrantes cadastrados do PCC e do CV.

Qualquer cidadão estrangeiro com vínculo comprovado com uma das facções pode ter o visto norte-americano cancelado e ser considerado inadmissível nos Estados Unidos. Caso esteja em território norte-americano, fica sujeito a processos de deportação imediata.

Ofensiva de Trump se amplia na América Latina

A movimentação sobre o Brasil ocorre dentro de uma estratégia mais ampla de Trump para ampliar a influência dos Estados Unidos na América Latina durante seu segundo mandato na Casa Branca.

Em outubro de 2025, nas eleições legislativas da Argentina, Trump ofereceu apoio financeiro de cerca de US$ 40 bilhões para favorecer a vitória do partido de Javier Milei. O resultado das urnas foi favorável ao líder argentino.

Dois meses depois, em Honduras, Nasry “Tito” Asfura, candidato apoiado por Trump, venceu uma eleição marcada por controvérsias e atraso na apuração. O presidente norte-americano havia declarado publicamente apoio ao político dias antes da votação.

No início de 2026, os Estados Unidos invadiram Caracas, na Venezuela, e prenderam o então presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, sob acusações como narcoterrorismo e tráfico internacional de drogas. Ambos estão detidos em Nova York. A presidência interina passou a Delcy Rodríguez, enquanto Washington e Caracas iniciaram uma reaproximação diplomática e comercial voltada principalmente à exploração de petróleo.

Cuba também entra na mira de Washington

Mais recentemente, Cuba passou a figurar entre os principais alvos de Trump na região. O presidente norte-americano chegou a mencionar a possibilidade de “ocupar” a ilha após o fim da guerra no Irã.

Além de ampliar sanções econômicas e restrições ao envio de petróleo, agravando a crise energética cubana, Washington passou a mirar Raúl Castro. O ex-presidente de Cuba foi indiciado por crimes como conspiração, destruição de aeronaves e assassinato, relacionados a um episódio ocorrido há cerca de 30 anos.

No mesmo dia do indiciamento, o Comando Sul dos Estados Unidos iniciou uma mobilização militar no Caribe, com o envio do porta-aviões USS Nimitz e quatro navios de guerra.

Na quinta-feira (4), uma nova rodada de sanções foi anunciada contra integrantes do governo cubano. A lista inclui o presidente Miguel Díaz-Canel, familiares da família Castro e instituições ligadas ao aparato estatal da ilha.

Nesse contexto, a eleição brasileira passou a ser vista no Planalto como um ponto decisivo para medir o alcance da ofensiva de Trump na América Latina e a capacidade de Washington de influenciar disputas políticas em países estratégicos da região.

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