Fernando Horta: “o mundo de leis e tratados acabou no dia em que Trump sequestrou Maduro”
Para o historiador, o Brasil é ainda mais vulnerável que a Venezuela ao controle digital dos EUA.
247 - O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos expôs, segundo o historiador Fernando Horta, uma nova realidade geopolítica que coloca o Brasil diretamente em risco. Em entrevista ao programa Brasil Agora, da TV 247, Horta afirmou que a ação do governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, rompeu com dois séculos de construção diplomática.
“Donald Trump jogou todo esse mundo no lixo no dia 4”, declarou. Horta explicou que o que foi rompido não é apenas o arcabouço jurídico do pós-guerra, mas toda a lógica que organiza as relações entre países desde o século XVIII.
“Não é só violação ao direito internacional. É violação a todos os preceitos da diplomacia que a gente conhece desde o século XVIII e XIX”, disse.
Segundo ele, a ideia de que existiam regras comuns para evitar guerras e agressões foi descartada pelos Estados Unidos.
“A partir do século XVIII, a gente foi convencido de que existiam leis, tratados, tribunais e padrões de conduta que garantiam a segurança de todo mundo. Enquanto isso, os Estados Unidos foram produzindo porta-aviões, caças e domínio sobre satélites”, afirmou.
E completou: “Agora eles botaram isso na mesa. Quem acreditou nisso tudo era otário”.
Segundo ele, do ponto de vista tecnológico, o Brasil está ainda mais vulnerável do que a Venezuela à vigilância e à intervenção norte-americana.
“Se puderam fazer essa operação no Maduro do jeito que fizeram, eu pediria para avisar o Alexandre de Moraes, o Lula e o pessoal que, a partir de agora, ninguém mais está seguro”, declarou.
O comentário foi feito após o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, atual presidente do país, recuar da acusação de que Maduro chefiava o chamado Cartel de los Soles, abandonando a tese de uma organização criminosa estruturada e passando a tratá-lo apenas como alguém que “atua dentro dessas estruturas”.
Para Horta, a mudança confirma que a prisão não teve base jurídica real. “Aquela narrativa do narcoterrorismo era para convencer o mundo de que as ações eram legítimas. Agora eles não precisam convencer mais nada e ninguém”, disse.
Segundo o historiador, a operação contra Maduro só foi possível porque os Estados Unidos controlam os fluxos de informação globais.
“Eles desabilitaram todas as comunicações essenciais via mundo digital dentro da Venezuela”, afirmou.
Horta explicou que a localização do presidente venezuelano foi feita por meio da análise de dados de equipamentos conectados. “Hoje em dia, ar-condicionado é smart, geladeira é smart, aspirador de pó é smart. Todos esses equipamentos produzem uma quantidade brutal de informações”.
Ele lembrou que regimes autoritários já usavam métodos rudimentares de vigilância. “Em 64, o regime militar brasileiro monitorava padarias para ver onde aumentava a venda de pão. Os Estados Unidos fazem a mesma coisa hoje com fluxo de energia e de dados”, destacou.
Brasil ainda mais exposto
Horta fez um alerta sobre a posição brasileira. “A Venezuela tinha um índice de inserção nas redes internacionais menor do que tem o Brasil. O Brasil é muito mais vulnerável a isso do que a Venezuela”, disse. E completou: “Não há tanque, não há avião, não há míssil, não há nada que não possa ser desligado digitalmente”.
Eleições de 2026 sob risco
Para Horta, a ofensiva contra a Venezuela inaugura uma nova fase de interferência internacional.
“As eleições de dois mil e vinte e seis começam a partir de agora a ter necessariamente um componente internacional”, afirmou. E concluiu: “Eles mostraram que conseguem localizar qualquer liderança. Se quiserem, sabem onde está o Lula”.



