Gonzalo Vecina: “A próxima peste nos espera na esquina”
Sanitarista defende vigilância epidemiológica permanente e alerta para riscos causados pela destruição ambiental
247 - O médico sanitarista Gonzalo Vecina afirmou que o Brasil precisa se preparar para novas pandemias diante da pressão ambiental sobre os ecossistemas e os microrganismos. Em entrevista ao Boa Noite 247, ele defendeu a criação de um sistema moderno de vigilância epidemiológica e disse que a memória da Covid-19 deve servir como alerta permanente para evitar novos desastres sanitários.
“A próxima peste nos espera na esquina”, declarou. Segundo ele, o avanço do desmatamento, das queimadas e da destruição ambiental cria condições para o surgimento de novas doenças infecciosas. “Como é que aparece uma peste? Pela destruição do meio ambiente, pela pressão ecológica sobre os microrganismos”, afirmou.
Vecina explicou que os seres humanos convivem de forma permanente com microrganismos e que alterações ambientais podem provocar mutações e transmissões entre espécies. “Nós temos mais microrganismos no nosso corpo do que células. Vivemos numa simbiose. Muita coisa que a gente faz não somos nós que fazemos, são os microrganismos que vivem dentro de nós”, disse.
Ao comentar a origem de novas epidemias, ele citou o impacto das intervenções humanas sobre habitats naturais. “Estamos queimando, estamos matando. O bicho que vem voando lá do norte desce aqui, contamina o leão-marinho que está na praia. O leão-marinho é um mamífero como nós”, afirmou.
Para o sanitarista, a pandemia de Covid-19 demonstrou como a pressão humana sobre o meio ambiente pode facilitar o salto de vírus para humanos. “O que aconteceu em Wuhan? Um país de 1,4 bilhão de habitantes fazendo pressão sobre os morcegos. E o bicho que vivia no morcego resolveu saltar para o homem”, disse. Ele lembrou que o coronavírus provocou “20 milhões de mortes no mundo” e segue circulando. “O Sars-CoV-2 da geração Ômicron vai continuar aí”, afirmou.
Vecina defendeu que o Brasil assuma papel estratégico no monitoramento epidemiológico internacional por conta de sua dimensão territorial e da diversidade ambiental. “O Brasil é um país grande, tem seis biomas diferentes, todos sob ataque”, declarou, citando Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Pampa.
Segundo ele, o país precisa estruturar mecanismos permanentes de monitoramento para antecipar riscos sanitários. “O Brasil tem que construir um sistema de vigilância epidemiológica moderno, como a maioria dos países grandes e potentes tem”, afirmou.
O médico também relacionou a criação do Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19 à necessidade de preparação para futuras emergências sanitárias. “Essa data tem que ser lembrada para que nós nos preparemos para ser um dos polos no mundo de inteligência e vigilância do meio ambiente”, disse.
Vecina afirmou que novas pandemias inevitavelmente ocorrerão, mas argumentou que os impactos podem ser reduzidos com planejamento e ação preventiva. “Vai acontecer, vai acontecer. Mas pode ser melhor gerenciado”, declarou.



