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José Antunes Sobrinho: a indústria naval é estratégica e precisa de ações de longo prazo

Empresário e engenheiro defende, em entrevista à TV 247, retomada da indústria naval também critica o esgotamento do modelo liberal

José Antunes Sobrinho (Foto: Divulgação)

247 – A indústria naval brasileira voltou a entrar no radar do desenvolvimento nacional com novos contratos, aumento previsto de empregos e a defesa de uma política de longo prazo para impedir que o setor repita o “voo de galinha” de ciclos anteriores. Em entrevista à TV 247, o empresário e engenheiro José Antunes Sobrinho, acionista do grupo Novapar (que reúne a Engevix e a Ecovix), afirmou que “um setor como o naval não pode viver como no passado, altos e baixos” e precisa de previsibilidade, planejamento e constância.

A entrevista, conduzida pelo jornalista Leonardo Attuch, foi baseada também no discurso de Antunes em Rio Grande (RS), no dia 19 de janeiro, durante um evento ligado a encomendas para a Transpetro e a Petrobras, com presença do presidente Lula, quando o empresário celebrou a retomada do estaleiro e o impacto social da geração de empregos.

Conteúdo local, Petrobras e a lógica da cadeia produtiva

Ao ser questionado sobre o argumento recorrente de que “seria mais barato comprar navios na China”, Antunes respondeu que o debate precisa considerar soberania produtiva, emprego e encadeamento industrial. Ele sustentou que o petróleo, por ser um recurso do país, deve puxar a indústria nacional e ampliar a geração de trabalho: “Se você tá extraindo um bem público, que é o petróleo do seu país, nada mais lógico que você puxa a cadeia”.

Ele explicou que a Ecovix retoma o estaleiro com foco em navios completos, não mais em cascos de plataformas como no ciclo anterior. Segundo Antunes, o projeto original do estaleiro estava ligado a uma expectativa elevada de conteúdo local, que foi reduzida ao longo dos anos. “Quando o estaleiro foi pensado, ele foi pensado com 75% de conteúdo local. Depois essa política foi mudada para 25%. E para esses navios que estamos fazendo lá, hoje a política é de 50%”, disse.

Sobre o horizonte de demanda, ele citou o plano da Petrobras para renovação de frota: “No plano estratégico da Petrobras são 48 navios de suporte… além de uma série de plataformas offshore aonde terão algum conteúdo local”. Também mencionou a possibilidade de revitalização de plataformas, apontando a capacidade física do estaleiro para esse tipo de serviço.

Lava-Jato, destruição de reputações e a lenta reconstrução da engenharia

A entrevista também avançou sobre o impacto do ciclo de lawfare no setor. Antunes relatou que a paralisação do estaleiro e o colapso do ambiente de negócios envolveram cancelamentos e um longo período de recuperação judicial. “Entramos em Recuperação Judicial, ficamos 8 anos em RJ, saímos dela no ano de 2025”, contou, descrevendo que a retomada ocorre “quase do zero” em termos de operação e contratos.

Ele foi direto ao caracterizar o que considera o mecanismo mais destrutivo daquele período: “O problema principal da Lava-Jato… foi imediatamente quando a operação se montou, foi a destruição moral das empresas na mídia”. Na sequência, descreveu a cascata de efeitos: “Automaticamente você fechou o crédito… trancou garantia… e ainda por cima com o mercado ficou contrário a você”. Para o empresário, a combinação de perda de reputação, bloqueio de financiamento e dificuldades de garantias jogou companhias inteiras no abismo.

Antunes também relatou como decidiu seguir em frente apesar do trauma e da insegurança. “Eu pensei muito e achei que uma empresa que já tinha um histórico tão grande… não deveria morrer”, disse, ao narrar a reorganização societária em 2016 e a escolha de manter o grupo vivo. Segundo ele, houve perdas e redução de escala, mas a tendência é de retomada, ainda que distante do auge: “Está retomando sim, mas nem de longe o que foi no passado… talvez 20% atualmente”.

Ao comentar vendas de ativos, a entrevista abordou a troca de controle de participações e a saída de posições que antes estavam sob comando do grupo. O tema foi citado como parte do ambiente adverso e das consequências econômicas do período, que atingiu a engenharia e a capacidade nacional de investimento.

Protecionismo no mundo, China “imbatível” e a disputa geopolítica

Antunes afirmou que o modelo ultraliberal perdeu força globalmente e que a proteção de cadeias estratégicas virou regra — inclusive nos Estados Unidos. “Aquela política 100% liberal… ela acabou… é um modelo que não atende a sociedade”, disse. 

Sobre a China, o empresário fez um contraste histórico. Ele contou que viajava ao país desde o fim dos anos 1990 e se disse impressionado com a transformação recente em produtividade e automação. “É outro país… as fábricas todas robotizadas”, afirmou, concluindo de forma categórica: “É imbatível competir com a indústria chinesa para qualquer país”. Para ele, o caminho envolve políticas de proteção “até um limite” e, simultaneamente, atração de produção local, já que a própria China passou a instalar fábricas perto dos mercados consumidores para reduzir barreiras.

Na análise geopolítica, Antunes atribuiu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, um papel de ruptura: “O presidente Trump está mudando a ordem econômica do mundo como ninguém mudou nos últimos 50 anos”. Ele avalia que novas conexões e blocos econômicos estão em formação, com maior peso de países como Índia e Indonésia, e com redução relativa da influência europeia.

Juros, crédito e “economia real” como medidor de eficiência

Ao final, Antunes retomou a frase que arrancou aplausos no evento em Rio Grande — “economia real” como sinônimo de emprego — e criticou o que considera um desequilíbrio estrutural no país. Ele classificou como “absurda” a situação de juros reais elevados, argumentando que isso sufoca empresas e bloqueia investimentos: “A situação do Brasil hoje com juro real acima de 10%… ela é absurda, né? Ela afoga empresas”.

Ele defendeu que crédito é base do crescimento: “Capitalismo é crédito em primeiro lugar”, disse, citando o professor José Márcio Rego. E projetou um cenário de aceleração caso os juros caiam: “Se você baixar de 15 para 11%… você vai haver uma explosão na economia brasileira”. Na mesma linha, reforçou a crítica à financeirização: “Juros não gera emprego”.

A fala final amarra o ponto central da entrevista: sem planejamento e financiamento compatíveis, a reindustrialização fica refém de ciclos e disputas. Já com política de Estado, conteúdo local e crédito, a indústria naval tende a voltar a ser alavanca de empregos, tecnologia e soberania produtiva — exatamente o que Antunes defende quando diz que o setor não pode mais depender de “altos e baixos”, mas de um projeto nacional continuado.

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