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Lula busca apoio europeu para regulação das Big Techs e amplia articulação estratégica no G7

Aproximação entre Brasil e União Europeia envolve regulação das BigTechs, investimentos industriais e minerais estratégicos para o futuro econômico do país

Presidente Lula durante jantar com Chefes de Estado e/ou de Governo dos países do G7 e Convidados, em Évian-les-Bains - França (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
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247 - Durante participação no Boa Noite da TV 247, o professor de Relações Internacionais Leonardo Trevisan afirmou que a principal agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante sua participação na cúpula do G7 vai muito além das imagens protocolares e dos encontros bilaterais. Segundo ele, o foco estratégico do governo brasileiro está na aproximação com a União Europeia, especialmente em temas ligados à regulação das Big Techs, aos investimentos industriais e à disputa geopolítica por recursos estratégicos.

A análise foi feita durante entrevista concedida à TV 247, na qual Trevisan comentou os desdobramentos da participação de Lula no encontro das maiores economias industrializadas do mundo. Para o especialista, a ausência de uma conversa mais aprofundada entre Lula e Donald Trump não deve ser interpretada como um sinal de deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos.

Na avaliação do professor, os interesses econômicos e empresariais norte-americanos continuam fortemente ligados ao Brasil, sobretudo em áreas consideradas estratégicas para a economia global. Entre elas, destacam-se as terras raras, minerais fundamentais para a indústria tecnológica e para a transição energética.

“Os amigos das Big Techs têm muito interesse no Brasil”, afirmou Trevisan, destacando que o país ocupa uma posição privilegiada na disputa internacional por recursos minerais críticos.

Segundo ele, tanto a União Europeia quanto a China e os Estados Unidos demonstram crescente interesse pelos projetos brasileiros relacionados às terras raras. O especialista observou que empresas estrangeiras já ampliam investimentos no setor e que a legislação brasileira será um fator decisivo para o futuro dessas iniciativas.

Europa ganha protagonismo na estratégia brasileira

Trevisan considera que a aproximação entre Brasil e União Europeia representa um dos movimentos diplomáticos mais relevantes do atual momento. Para ele, embora questões comerciais, como as disputas envolvendo exportações de carne, tenham importância, o núcleo da relação está em setores de alta tecnologia e na reindustrialização.

“O que conta mesmo com a Ursula von der Leyen é a indústria, principalmente a indústria do futuro e os investimentos que se pretende fazer no Brasil”, afirmou.

De acordo com sua análise, europeus enxergam o Brasil como uma plataforma estratégica para ampliar sua presença econômica na América Latina, especialmente diante da competição cada vez mais intensa com China e Estados Unidos.

Regulação das plataformas digitais entra no centro das negociações

Para Trevisan, um dos pontos mais importantes da agenda brasileira no G7 envolve a discussão sobre a regulação das grandes plataformas digitais. O professor destacou que a União Europeia avançou significativamente nessa área e pode servir como referência para iniciativas brasileiras.

“O mais importante da conversa do Lula nesse G7 é a aproximação com os reguladores europeus das Big Techs”, declarou.

O especialista lembrou que a Europa vem implementando marcos regulatórios robustos para disciplinar a atuação das gigantes da tecnologia. Entre eles estão a Lei dos Mercados Digitais (DMA) e a Lei dos Serviços Digitais (DSA), que ampliaram as exigências de transparência, concorrência e responsabilização das plataformas digitais. 

Segundo Trevisan, existe uma convergência crescente entre setores da centro-esquerda e da centro-direita europeias em torno da necessidade de limitar o poder político e econômico das plataformas digitais.

“A Europa sabe perfeitamente que só conseguirá conter o avanço da extrema direita se conseguir também enfrentar o poder das Big Techs”, afirmou.

Essa avaliação ocorre em um contexto internacional marcado pelo fortalecimento das iniciativas regulatórias europeias. Mesmo diante das pressões de empresas de tecnologia e de setores políticos norte-americanos, dirigentes da União Europeia têm reiterado a defesa das normas que regulam os mercados digitais e a moderação de conteúdo online.

Relação com os Estados Unidos permanece estratégica

Embora reconheça divergências em temas específicos, Trevisan rejeita interpretações alarmistas sobre a relação entre Brasília e Washington.

Segundo ele, os laços entre os dois países estão sendo fortalecidos por múltiplos canais de diálogo que ultrapassam a esfera presidencial e incluem setores empresariais, militares e diplomáticos.

“O relacionamento entre Brasil e Estados Unidos está sendo consolidado por caminhos que não passam apenas pela Casa Branca”, explicou.

O professor também relativizou o impacto das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos sobre determinados produtos brasileiros. Em sua visão, tais medidas fazem parte de negociações destinadas à formação de cadeias produtivas integradas em setores considerados estratégicos.

Debate sobre Pix e sistema financeiro ganha relevância

Trevisan argumenta que as tensões mais relevantes entre Brasil e Estados Unidos atualmente não estão ligadas às tarifas comerciais, mas ao sistema financeiro e à economia digital.

Segundo ele, iniciativas brasileiras como o Pix e discussões sobre moedas digitais representam desafios para estruturas financeiras tradicionais dominadas pelo dólar.

“O X da história não é a tarifa. O X da história é o Pix”, afirmou.

Na visão do especialista, o debate sobre meios de pagamento digitais, stablecoins e alternativas ao sistema financeiro tradicional tende a ocupar um espaço cada vez mais importante nas disputas geopolíticas globais.

G7 reforça reposicionamento internacional do Brasil

Ao analisar o conjunto dos encontros realizados durante a cúpula, Trevisan conclui que o governo brasileiro busca ampliar sua margem de manobra internacional por meio de uma estratégia baseada na diversificação de parcerias.

Nesse cenário, a cooperação com a União Europeia em áreas como indústria avançada, transição energética e regulação das plataformas digitais aparece como um dos pilares centrais da política externa brasileira.

Para o especialista, mais do que questões comerciais pontuais, o que está em jogo é a construção de alianças capazes de posicionar o Brasil em debates decisivos sobre tecnologia, governança digital e desenvolvimento econômico nas próximas décadas.

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