Michael Hudson diz que guerra contra Irã muda a economia global
Michael Hudson diz que guerra contra Irã muda a economia global ao agravar a crise energética, pressionar fertilizantes e ampliar o risco de depressão
247 - A guerra contra o Irã marca, na avaliação do economista Michael Hudson, uma ruptura de grandes proporções na economia mundial. Segundo ele, o conflito aprofunda a crise de energia, afeta o fornecimento de fertilizantes, interrompe cadeias de pagamentos e amplia o risco de uma depressão internacional, com efeitos que, em sua leitura, não poderão ser revertidos rapidamente.
As declarações foram dadas por Hudson em entrevista publicada no YouTube, em conversa com o apresentador Glenn Diesen, na qual o professor sustenta que o embate ultrapassa o terreno militar e deve redesenhar fluxos de comércio, finanças, produção agrícola e relações de poder entre Estados Unidos, Europa e Ásia.
Ao longo da entrevista, Hudson afirma que a guerra tem alcance global justamente porque envolve insumos decisivos para o funcionamento da economia contemporânea. Na visão dele, petróleo, gás, fertilizantes, enxofre, amônia e hélio estão no centro de uma disputa que afeta não apenas o Oriente Médio, mas todo o sistema internacional. “Este não é simplesmente uma guerra no Irã”, disse. “É uma guerra dos Estados Unidos para manter um ponto de estrangulamento sobre toda a economia mundial controlando o petróleo, porque todo mundo precisa dele.”
O economista argumenta que a ofensiva se insere numa estratégia mais ampla de controle de exportações energéticas. Segundo Hudson, Washington busca impedir que países produtores mantenham soberania plena sobre o petróleo que exportam, subordinando o fluxo desses recursos a seus interesses geopolíticos. Na entrevista, ele associou essa política às sanções impostas ao Irã, à Venezuela e à Rússia, sustentando que a meta é fazer com que aliados dos Estados Unidos dependam de fontes de energia sob influência americana.
Hudson também afirmou que o conflito não se resume à justificativa nuclear apresentada por Washington. “O verdadeiro objetivo de estarmos no Irã e de termos travado esta guerra não tem nada a ver com o Irã querer obter uma bomba atômica”, declarou. “Ele quer, na verdade, o petróleo iraniano.” Na mesma linha, o economista comparou a situação atual a ações anteriores dos Estados Unidos no Iraque e em outros países exportadores de petróleo.
Na entrevista, um dos pontos centrais da análise é a avaliação de que não haverá retorno ao cenário anterior mesmo em caso de recuo diplomático. Hudson sustenta que os danos já produzidos sobre cadeias logísticas e de abastecimento tornam a reversão improvável no curto prazo. “Até que essas sanções sejam removidas, até que os Estados Unidos retirem sua presença e, na prática, admitam que perderam a guerra contra o Irã, o mundo não vai voltar a ser o que era”, afirmou.
Ele destacou ainda o impacto direto sobre insumos industriais e agrícolas. Segundo Hudson, o fornecimento de hélio já foi interrompido e há restrições sobre fertilizantes justamente no momento em que diversas regiões entram em período de plantio. A consequência, disse ele, será imediata sobre a produção de alimentos e sobre os preços internacionais. “Sem fertilizante, a produtividade das lavouras cai. E quando a produtividade cai, os preços sobem”, resumiu.
A partir desse raciocínio, Hudson projeta um quadro recessivo profundo. Em sua avaliação, o encarecimento da energia e dos insumos agrícolas, somado à quebra de contratos e à desorganização nos pagamentos internacionais, pode levar o mundo a uma contração severa. “O mundo está entrando na depressão mais séria desde a Grande Depressão dos anos 1930”, disse. “Não importa o que aconteça, não há como evitar essa depressão.”
Outro eixo da entrevista trata da vulnerabilidade financeira dos Estados Unidos. Hudson argumenta que a economia americana já vinha sustentada por bases frágeis desde a crise de 2008, com forte financeirização, juros baixos por um longo período e valorização de ativos sustentada por crédito barato. Na leitura dele, esse arranjo favoreceu bancos, fundos e grandes grupos financeiros, mas deixou salários estagnados e a economia real comprimida.
Ao comentar esse processo, o economista afirmou que o sistema passou a funcionar como uma estrutura dependente de refinanciamentos contínuos. “A única forma de fazer isso funcionar é transformar a economia em um esquema Ponzi”, declarou, ao afirmar que empresas e devedores passaram a depender de novos empréstimos para pagar juros e evitar inadimplência. Com o aumento das taxas e a pressão adicional provocada pela guerra, Hudson avalia que a engrenagem tende a entrar em colapso.
Na análise do professor, a crise energética se conecta diretamente ao sistema financeiro porque rompe a cadeia de pagamentos que sustentava parte importante do comércio internacional. Ele afirmou que a interrupção no fluxo de petróleo, gás, fertilizantes e outras commodities deve desencadear calotes, perdas bancárias e retração econômica em série. “Essas rupturas na cadeia de pagamentos vão levar a inadimplências”, disse. “E, quando há inadimplência, esse processo exponencial de crescimento da dívida se inverte.”
Hudson também apontou efeitos distintos entre os grandes pólos de poder. Para ele, a Europa caminha para um impasse cada vez mais grave ao insistir em restringir energia russa mesmo diante de custos crescentes para sua indústria e seus consumidores. O economista afirmou que o continente corre o risco de aprofundar uma trajetória de desindustrialização, citando especialmente o caso alemão. Em sua avaliação, a combinação entre sanções, energia cara e aumento do gasto militar empurra governos europeus para escolhas socialmente regressivas.
Sobre a reorganização global, o entrevistado argumentou que a Ásia tende a ganhar centralidade no novo cenário, enquanto Estados Unidos e Europa perdem capacidade de atração econômica. Ele observou que a própria linguagem geopolítica mudou e citou a substituição gradual do termo “Oriente Médio” por “Ásia Ocidental” como sinal de uma reorientação histórica. Para Hudson, trata-se de uma divisão estrutural do sistema internacional, e não de uma oscilação passageira.
Na parte final da conversa, o economista defendeu que a crise atual não deve ser descrita apenas como declínio da hegemonia americana, mas como uma ruptura abrupta. “Não é um declínio. É um colapso”, afirmou. Segundo ele, o fim da era de predominância dos Estados Unidos não resultou de uma ofensiva externa coordenada, mas de decisões tomadas pelo próprio país ao confrontar simultaneamente os interesses de múltiplas nações.
Hudson concluiu que o cenário aberto pela guerra exige mudanças institucionais profundas, tanto na arquitetura financeira quanto nos mecanismos de governança internacional. Para ele, o sistema construído no pós-guerra perdeu eficácia diante da escalada de sanções, conflitos e violações de soberania. “Estamos vendo o fim de uma era”, disse, ao defender a construção de novos arranjos monetários, comerciais e jurídicos para evitar que crises semelhantes se repitam.


