Nassif defende plano de metas para Lula e diz que Brasil precisa voltar a sonhar
Jornalista critica juros altos, poder do mercado, Lava Jato, mídia tradicional e avanço do crime organizado na política
247 – O jornalista Luís Nassif afirmou, em entrevista ao programa O Barato da Idade, na TV 247, apresentado por Miguel Paiva e Regina Zappa, que o Brasil precisa recuperar a capacidade de formular um projeto nacional de desenvolvimento e “voltar a sonhar”. Segundo Nassif, o presidente Lula tem como grande trunfo sua dimensão internacional, mas precisa superar um modelo de governo excessivamente pragmático, baseado apenas em entregas pontuais. “O Lula tem um grande trunfo e uma grande vulnerabilidade. O trunfo é o tamanho dele internacional. É o maior estadista talvez do mundo. O problema do Lula é outro: o modo de governar dele é empurrar com a barriga”, afirmou.
Para o jornalista, Lula deveria construir um novo plano de metas, inspirado na experiência de Juscelino Kubitschek. “Um estadista tem que ser maior que isso, ele tem que construir o sonho”, disse Nassif. “Se o Lula quiser, no quarto mandato, fazer aquela coisa inesquecível que ele diz que pretende fazer, ele vai ter que montar o seu plano de metas.”
Nassif também fez duras críticas ao modelo econômico brasileiro, especialmente ao regime de metas de inflação e à política de juros elevados. Para ele, o país ficou preso a uma armadilha que impede crescimento mais robusto. “Nós temos uma economia crescendo no chamado voo de galinha. Você cresce 2%, comemora, mas teria condição de crescer 4%, 5%”, afirmou.
Ele atribuiu parte desse problema à política econômica iniciada no governo Fernando Henrique Cardoso e mantida, em sua avaliação, sem ruptura estrutural nos governos posteriores. “A teoria das metas inflacionárias é o maior processo de concentração de renda da história”, declarou.
O jornalista também atacou a atuação do mercado financeiro e do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto. “O que o Roberto Campos Neto fez foi um crime contra o país”, disse. Segundo ele, a justificativa de que os juros são altos por causa da dívida pública inverte a lógica do problema. “Por que a dívida pública é alta? Porque a taxa de juros é alta”, afirmou.
Outro ponto central da entrevista foi a crítica à mídia tradicional. Nassif disse que a imprensa brasileira teve papel decisivo na construção de uma ideologia favorável ao mercado e na destruição de setores estratégicos durante a Lava Jato e o golpe de Estado contra Dilma Rousseff. “O impeachment e a Lava Jato desmontaram esse país”, afirmou.
Ele também acusou veículos tradicionais de terem naturalizado ataques contra Lula e sua família, mesmo sem provas. “Até ontem, o escândalo do Master era o Supremo Tribunal Federal e o Lulinha. É inacreditável”, disse.
Ao comentar a extrema direita, Nassif afirmou que o Brasil vive um cenário em que o crime organizado ganhou força política. “Com essa direita é ligação direta com o crime organizado”, declarou. Para ele, revelações envolvendo Flávio Bolsonaro podem alterar o quadro político e favorecer uma reorganização do campo democrático.
Nassif também abordou a questão militar e afirmou que o país não realizou uma verdadeira justiça de transição. “Não mudou nada nos currículos militares. A campanha do Bolsonaro começou na Academia Militar das Agulhas Negras, que continua com aquele mesmo grupo”, disse.
Apesar das críticas, ele afirmou que houve avanço institucional após o 8 de Janeiro. Segundo Nassif, a atuação de Alexandre de Moraes contra golpistas e militares envolvidos devolveu ao país um certo grau de legalidade. “A maneira como ele atuou nesse caso de 8 de janeiro, inclusive processando os militares, devolveu um legalismo que o Brasil não conhecia mais”, afirmou.
Na parte final da entrevista, Nassif falou sobre jornalismo, música e inteligência artificial. Bandolinista e compositor, ele afirmou que a música influenciou sua escrita. “Eu peguei o ritmo da música e transferi para a escrita. A escrita é um ritmo”, disse.
Para o jornalista, a inteligência artificial abre novas possibilidades para o jornalismo, desde que usada com critério. Ainda assim, ele disse preferir a escrita ao formato dominante dos vídeos. “Eu continuo curtindo realmente a escrita. Sei que está meio fora de moda”, afirmou.



