Datafolha aponta polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro e antecipa clima de segundo turno
Analistas da FESPSP avaliam que levantamento não captou impacto político do caso Banco Master e apontam disputa polarizada entre lulismo e bolsonarismo
247 - A pesquisa Datafolha apontou sinais de recuperação do presidente Lula no cenário eleitoral de 2026, interrompendo a trajetória de queda observada nos últimos meses e consolidando uma disputa polarizada com o senador Flávio Bolsonaro. Para analistas da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), porém, o levantamento ainda não reflete os impactos políticos da crise envolvendo o parlamentar e o banqueiro Daniel Vorcaro no escândalo do Banco Master.
As análises destacam que a coleta de dados do Datafolha ocorreu nos dias 12 e 13 de maio, antes da divulgação da reportagem do The Intercept Brasil que revelou conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Por isso, os especialistas consideram que os números representam um cenário “pré-crise”, sem a influência do desgaste provocado pelo caso no eleitorado.
Segundo Beto Vasques, os dados mostram um ambiente de forte polarização e antecipação da lógica típica de segundo turno ainda na fase de pré-campanha.
“Com isso, nos aproximaríamos de um cenário de estabilidade, com uma disputa acirradíssima entre Lula e Flávio, em situação de empate técnico”, avalia.
O cientista político destaca que a estabilização de Lula pode estar relacionada a medidas voltadas às classes médias e populares, além da postura institucional adotada pelo presidente nos últimos meses.
“Quanto ao respiro numérico de Lula, com oscilações favoráveis em ambas as pesquisas desta semana, isso poderia estar respondendo a fatores objetivos”, enfatiza.
Entre os elementos citados por Vasques estão políticas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, o programa Desenrola 2 e iniciativas ligadas à pauta social e de proteção às famílias.
Ao mesmo tempo, o especialista afirma que os efeitos do caso envolvendo Flávio Bolsonaro ainda deverão aparecer nos próximos levantamentos eleitorais.
“Os efeitos do áudio de Flávio com Vorcaro serão percebidos nas próximas pesquisas. O áudio e suas consequências não tendem a afetar significativamente o eleitorado de direita anti-Lula, mas podem incidir decisivamente no eleitorado ‘nem-nem’”, completa.
O professor e cientista político Hilton Fernandes afirmou que o levantamento representa um alívio para o governo federal após derrotas recentes no Congresso Nacional. Apesar disso, ele acredita que aliados de Flávio Bolsonaro usarão os números para sustentar a narrativa de que o escândalo não abalou a candidatura do senador.
“A pesquisa provavelmente será utilizada pelo grupo bolsonarista para defender que Flávio não perdeu apoiadores e que as denúncias não afetarão sua campanha”, frisou.
Fernandes pondera, no entanto, que o avanço das revelações sobre a relação entre integrantes da família Bolsonaro e Daniel Vorcaro pode provocar dificuldades políticas futuras.
“Outras relações entre a família Bolsonaro e o banqueiro preso começaram a aparecer, o que pode afastar aliados e inviabilizar uma candidatura com chances de vitória”, salientou.
Sem terceira via
Na avaliação do cientista político Jairo Pimentel, os números reforçam o enfraquecimento de alternativas da centro-direita tradicional diante da força do bolsonarismo. “O dado mais relevante é que Zema e Caiado aparecem menos competitivos contra Lula do que Flávio Bolsonaro”, disse.
Para ele, o cenário eleitoral tende a se consolidar como uma disputa direta entre lulismo e bolsonarismo, reduzindo o espaço para candidaturas moderadas ou de terceira via.
“A eleição tende a se organizar menos como uma disputa entre governo e centro-direita tradicional e mais como um plebiscito entre lulismo e bolsonarismo”, analisou.



