“O 8 de janeiro não pode ser esquecido”, diz Leandro Grass
Leandro Grass detalha como o Iphan atuou na recuperação do patrimônio atacado em Brasília e defende uma política de memória sobre os atos golpistas
247 - A reconstrução do patrimônio vandalizado nos ataques de 8 de janeiro se tornou um dos eixos centrais da gestão de Leandro Grass no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ao fazer um balanço de sua passagem pelo órgão, ele destacou a resposta montada já nos primeiros dias após a depredação dos prédios da República, com mapeamento de danos, restauração de obras e acompanhamento das intervenções na Praça dos Três Poderes.
Em entrevista à TV 247, ao jornalista Joaquim de Carvalho, Grass afirmou que o trabalho começou no momento em que a equipe chegou ao instituto e ao Ministério da Cultura, diante de uma capital marcada pelos atos golpistas. “A nossa atuação, nosso desafio com a Praça dos Três Poderes começou no dia 8 de janeiro, quando nós chegamos ao Iphan, chegamos ao Ministério da Cultura, Brasília estava destruída pelo atentado, pela tentativa de golpe de estado, pelos atos golpistas daquele momento”, declarou.
Segundo ele, o Iphan foi mobilizado de imediato para atuar ao lado do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto. A prioridade inicial foi recuperar edifícios públicos, restaurar obras de arte e produzir apoio técnico para as instituições atingidas. Grass destacou que o órgão teve papel direto no Planalto, onde acompanhou a recuperação de peças vandalizadas. “O Iphan fez um trabalho importante lá no Palácio Planalto, em especial com a recuperação de 20 peças que foram vandalizadas, entre elas a obra As mulatas de Di Cavalcanti, que foi perfurada pelo golpista”, disse.
O presidente do Iphan relatou que assumiu o cargo em meio ao impacto imediato da destruição. A conversa final para sua posse havia ocorrido na véspera dos ataques, mas, no dia seguinte, o cenário era outro. “E aí veio 8 de janeiro, domingo, Brasília implodida”, afirmou. No dia 9, segundo ele, a equipe já estava em campo. “A gente já tava em campo com a ministra Margareth, com os nossos técnicos do Iphan, fazendo mapeamento de dano, tirando fotos, fazendo vídeos, trazendo informações para poder subsidiar a recuperação daquilo que foi destruído pelos golpistas”, declarou.
Na avaliação de Grass, a resposta ao vandalismo acabou também reposicionando o próprio Iphan. Ele disse que o órgão enfrentava fragilidade institucional e que a recuperação do patrimônio caminhou junto com a retomada da estrutura técnica e política da autarquia. “A recuperação do patrimônio do 8 de janeiro veio junto com a recuperação do próprio Iphan, de uma instituição que tava muito traumatizada, tava muito debilitada do ponto de vista orçamentário, técnico”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “A gente reposicionou o Iphan, colocou mais perto da população, mais próximo dos estados e municípios, com resultados concretos”.
Um dos focos mais visíveis dessa frente de trabalho foi a Praça dos Três Poderes. Grass relatou que, além da depredação de janeiro de 2023, o espaço voltou a sofrer com outro episódio de violência, o que ampliou a sensação de insegurança no local. De acordo com ele, o Iphan estruturou uma resposta a partir de recursos do novo PAC. “Foi então que o Iphan através do novo PAC, com recursos do PAC, contratou um projeto”, disse. A proposta, segundo relatou, envolve tratamento do piso, drenagem, iluminação, restauro de monumentos e adaptação de acessibilidade. “Uma obra que vai recuperar a praça na sua plenitude”, resumiu.
Ao detalhar o sentido dessa intervenção, Grass associou a recuperação física do espaço a uma tentativa de restabelecer a relação da cidade com um de seus marcos simbólicos. “Resgatando esse bem, resgatando a autoestima também aqui da nossa cidade”, afirmou. Para ele, o impacto dos ataques não se esgota na destruição material, mas se conecta a um processo mais amplo de deterioração da vida pública no Distrito Federal.
Na entrevista, o dirigente também sustentou que a restauração do patrimônio não deve ser vista apenas como resposta emergencial, mas como parte de uma política de memória. “Todo o trabalho que o Iphan e as demais instituições fazem para recuperar, preservar o patrimônio, é um gesto também de fortalecimento à democracia”, declarou. Na mesma linha, afirmou que o desafio daqui para frente é impedir o apagamento político e histórico daqueles acontecimentos. “O 8 de janeiro não pode ser esquecido e a gente não tá aqui para celebrá-lo e exaltá-lo, mas para memorar, fazer com que as pessoas entendam o que aconteceu e por aconteceu”, disse.
Grass defendeu ainda que a reconstrução dos bens destruídos precisa estar acompanhada de formação pública sobre patrimônio, cultura e democracia. “Temos o desafio de promover uma educação cada vez mais intensa, a educação patrimonial, a educação para a cultura e a educação para a democracia”, afirmou. Na sua leitura, o patrimônio atingido nos ataques pertence, em última instância, à população brasileira: “Os nossos bens culturais são nossos, de fato, são do povo”.
Ao concentrar sua avaliação nesse episódio, Leandro Grass apresenta a resposta ao 8 de janeiro como uma síntese de sua gestão no Iphan: ação técnica, articulação institucional e defesa da memória pública. Na entrevista à TV 247, ele tratou a recuperação de obras, edifícios e espaços simbólicos como parte de uma reconstrução maior, ligada à preservação da democracia e à recusa do esquecimento.

