"O fascismo se sustenta no fanatismo de massas e na suspensão da crítica", diz psicanalista
Luciano Elia relaciona fascismo ao fascínio das massas, à suspensão da crítica e à identificação cega com o líder
247 - Ao analisar o avanço do autoritarismo no cenário político contemporâneo, o psicanalista Luciano Elia afirmou que o fascismo está ligado ao fascínio das massas, à suspensão da crítica e à identificação cega com o líder. A avaliação foi feita ao longo de análise na TV 247 em que ele defendeu que a psicanálise oferece instrumentos próprios para compreender esse tipo de fenômeno para além da disputa eleitoral e da análise estritamente institucional.
As declarações foram dadas no podcast Papo Curvo, da TV 247, em conversa sobre a relação entre psicanálise e fascismo em um contexto de crises políticas, sociais e geopolíticas. Ao longo da entrevista, Elia sustentou que o fascismo não pode ser reduzido a uma doutrina ou corrente ideológica, porque mobiliza afetos, desejos e formas de subjetivação coletiva.
Logo no início da conversa, ele resumiu sua leitura ao afirmar que o fascismo se estrutura como um fenômeno de massa. “Todo o fascismo se sustenta num fanatismo da massa. A massa está fanática. Ela abre mão de qualquer espírito crítico”, disse. Para o psicanalista, esse mecanismo não decorre apenas de adesão racional a um programa político, mas de uma captura subjetiva que envolve obediência, identificação e entrega ao comando de uma figura central.
Na avaliação de Luciano Elia, o líder é peça indispensável nessa engrenagem. “Não há fascismo sem líder”, afirmou. Em seguida, ele citou nomes que, segundo sua análise, expressam essa lógica em diferentes contextos históricos e contemporâneos, como Mussolini, Hitler, Trump e Bolsonaro. Para ele, a força dessas lideranças não está em um conteúdo elaborado ou em uma superioridade intelectual, mas justamente na capacidade de concentrar afeto e adesão de massa em torno de um comando autoritário.
Ao desenvolver a análise, Elia disse que a psicanálise pode contribuir para a leitura do fascismo porque identifica nesse processo uma articulação entre grupo, identificação e apagamento da singularidade. “É uma posição de massa”, afirmou. Segundo ele, o fascismo produz uma dinâmica em que os sujeitos deixam de lado a distância crítica e passam a repetir, sem mediação, o que vem da liderança. “Se o líder diz assim: ‘A terra é plana e não redonda’, todo mundo passa a dizer que a Terra é plana”, declarou, ao citar como exemplo o funcionamento da crença coletiva em estruturas autoritárias.
Em outro momento, o psicanalista associou esse processo a uma relação de encantamento e submissão. “O fascismo deriva de uma posição do fascínio”, disse. A partir daí, buscou relacionar a própria palavra “fascismo” à ideia de fascinação e feitiço, argumentando que a adesão fascista envolve uma massa “enfeitiçada” em torno de um fetiche político. Para ele, essa lógica produz obediência cega e elimina a possibilidade de elaboração própria por parte dos sujeitos.
Luciano Elia também sustentou que o fascismo se organiza a partir da hostilidade à diferença. “É um fascínio que prega o ódio ao diferente, às diferenças, à pluralidade, às singularidades”, afirmou. Em sua leitura, esse tipo de formação política exige homogeneidade e recusa tudo o que escapa da identidade do grupo. “Ninguém pode ser singular, ninguém pode ser próprio, todo mundo tem que ser igual à massa”, disse.
Ao comentar a adesão popular a projetos autoritários, o psicanalista rejeitou a ideia de responsabilizar individualmente a população por escolhas eleitorais conservadoras. Segundo ele, não se pode ignorar os processos históricos, sociais e econômicos que limitam a possibilidade de reflexão crítica. “A culpa não pode ser posta no eleitor”, afirmou. Na mesma linha, acrescentou que a precarização da vida, a exclusão social e a ausência de condições materiais para uma formação política consistente precisam ser levadas em conta quando se observa a expansão do discurso autoritário.
Elia também relacionou a ascensão do fascismo ao aprofundamento da crise social produzida pelo capitalismo. “O capitalismo é a receita da crise”, disse. Ainda assim, ponderou que a crise econômica, por si só, não explica integralmente a recorrência dos ciclos fascistas. Para ele, há algo mais profundo no modo como sociedades inteiras passam a aderir a saídas violentas, irracionais e regressivas em momentos de desorganização.
No podcast, o psicanalista insistiu que esse fenômeno não deve ser lido apenas pela chave da política institucional, mas também pela via da libido, do medo e das identificações coletivas. Ao lembrar o comportamento de apoiadores de Bolsonaro após a derrota eleitoral, observou que muitos reagiram como se tivessem sido abandonados por uma figura idealizada. “Tem esses elementos da libido, sabe? Não é uma coisa só política”, afirmou.
Ao tratar da atualidade brasileira, Luciano Elia demonstrou preocupação com a permanência de uma base social disposta a sustentar nomes ligados ao bolsonarismo. Ele criticou a normalização desse campo político e afirmou que o risco de retorno de forças autoritárias não pode ser subestimado. “O perigo existe real e não dá para brincar com isso”, declarou.
Na parte final da entrevista, o psicanalista defendeu a articulação de diferentes lutas sociais em torno de um eixo antifascista mais amplo. Para ele, pautas contra o racismo, o machismo, o feminicídio, o sexismo, o etarismo e o capacitismo precisam convergir para uma estratégia comum de enfrentamento ao autoritarismo. “A luta contra o racismo e contra o feminicídio e contra o machismo e tudo mais, elas são convergentes e não divergentes. Elas têm que estar subordinadas a um eixo maior agora, que é lutar contra o fascismo”, disse.
Ao encerrar sua participação no Papo Curvo, da TV 247, Luciano Elia fez uma convocação direta ao campo da psicanálise e aos setores progressistas para que abandonem a dispersão e se concentrem no combate político e simbólico ao fascismo. “Não dá para brincar com isso”, reiterou, ao defender que o momento exige mobilização, unidade e intervenção pública.