“O governo não tem liberdade para gerir a empresa em favor do Brasil”, diz Guilherme Estrella
Estrella diz que leis pós 2016 reduziram o controle do Estado sobre a Petrobras e limitaram a ação do governo no setor energético
247 - O geólogo Guilherme Estrella, reconhecido por ter liderado a equipe responsável pela descoberta do pré-sal, afirmou que a Petrobras perdeu capacidade de atuar de forma subordinada ao interesse público depois das mudanças legais e institucionais impostas nos últimos anos. Na avaliação dele, a estatal passou a operar sob amarras que restringem a ação direta do governo e enfraquecem o papel estratégico da empresa na política energética brasileira.
Em entrevista ao canal Tutaméia no YouTube, Estrella concentrou sua crítica na perda de controle estatal sobre a Petrobras e outras empresas públicas. Segundo ele, esse processo retirou do governo a capacidade de conduzir suas estatais em linha com um projeto nacional. “Tiraram do governo o controle total de suas estatais. O governo não tem liberdade para gerir as empresas de acordo com os interesses nacionais”, declarou.
Ao longo da entrevista, Estrella sustentou que a modificação das leis das estatais e das regras de governança alterou a estrutura de decisão dentro das empresas públicas. Segundo ele, o Estado deixou de ter a margem de atuação que possuía em períodos anteriores para definir prioridades estratégicas, orientar investimentos e usar essas companhias como instrumento de desenvolvimento nacional.
Ao comparar a situação atual com sua experiência na Petrobras, ele resumiu essa mudança de forma direta: “O governo não tem liberdade absoluta, como tinha, para gerir a empresa inteiramente em favor do Brasil”. Na leitura do geólogo, esse novo desenho institucional subordinou a estatal a mecanismos que priorizam o retorno financeiro e reduziram sua função como empresa vinculada à soberania energética.
Estrella também relacionou esse quadro à composição acionária da Petrobras. Segundo ele, a presença ampliada de investidores privados e estrangeiros reforçou a pressão por rentabilidade imediata e distribuição de dividendos, em detrimento de uma lógica de planejamento de longo prazo. “A Petrobras está amarrada”, afirmou. Em seguida, associou essa condição às normas aprovadas nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro: “O governo precisa vencer e anular essas leis, porque elas foram produto de um golpe de Estado”.
Na entrevista, o geólogo argumentou que a companhia foi gradualmente deslocada de uma função estratégica para uma lógica de mercado financeiro. “Transformaram a Petrobras num fundo de investimento com lucro máximo, divisão e antecipação de dividendos. Isso é completamente absurdo”, disse. Para ele, esse modelo compromete a capacidade da empresa de responder a necessidades internas do país e de atuar em favor da segurança energética brasileira.
Estrella afirmou ainda que a perda de controle sobre as estatais criou um impasse para o próprio governo. Mesmo diante de crises internacionais e de oscilações no setor de energia, argumentou, o Estado não dispõe mais dos instrumentos que tinha para intervir de maneira plena. “Não há saída para isso senão a reassunção do governo na gestão direta das nossas empresas estatais”, declarou.
A crítica central do geólogo é que energia continua sendo um dos pilares da soberania nacional e, por isso, não poderia ser administrada apenas segundo critérios de rentabilidade. Na avaliação dele, o enfraquecimento da capacidade estatal de comandar a Petrobras compromete não só a empresa, mas a possibilidade de o Brasil formular uma política energética voltada ao interesse nacional.
Ao defender a retomada desse controle, Estrella afirmou que o debate precisa ser recolocado no centro da discussão pública. Para ele, a reorientação da Petrobras depende de decisão política e de revisão do marco legal que, segundo sua avaliação, afastou o Estado da condução direta de suas empresas estratégicas.


