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“O modelo da conciliação institucional bateu no teto”, diz Genoino ao defender Lula mais à esquerda em 2026

Genoino afirma que governo precisa apostar em soberania nacional, direitos sociais e mudanças estruturais para enfrentar a direita nas próximas eleições

José Genoino (Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados)
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247 - O ex-presidente nacional do PT José Genoino defendeu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dispute as eleições de 2026 com uma plataforma mais à esquerda, centrada em direitos sociais, soberania nacional e mudanças estruturais no Estado brasileiro. A avaliação foi feita em entrevista ao jornalista Breno Altman, no programa 20 Minutos, do Opera Mundi.

A conversa abordou a recuperação parcial da aprovação do governo Lula, a disputa presidencial de 2026, a crise do bolsonarismo, os rumos do PT e a proposta de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Para Genoino, a melhora recente de Lula nas pesquisas não seria resultado de uma estratégia de moderação ao centro, mas de uma postura mais ativa do presidente em temas como endividamento das famílias, fim da escala 6X1 e defesa da soberania nacional. “Existe uma avenida Lula. Ocupe essa avenida com a pauta do povo, com a defesa radical da democracia e com a defesa da soberania nacional”, afirmou.

O petista sustentou que o modelo de conciliação institucional chegou ao limite. Segundo ele, o governo errou ao não transformar crises no Congresso em embates políticos mais amplos. “O modelo da conciliação institucional bateu no teto e subiu no telhado”, disse.

Um dos pontos centrais da entrevista foi a avaliação sobre o impacto político da conversa envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Genoino classificou o episódio como “um tiro no coração do bolsonarismo” e disse que a candidatura de Flávio à Presidência poderia se tornar inviável.

Na análise do ex-presidente do PT, a direita teria três alternativas: insistir em Flávio Bolsonaro, substituí-lo por Michelle Bolsonaro ou apoiar um nome mais orgânico da direita tradicional, como Ronaldo Caiado. Ele afirmou que Caiado teria maior capacidade de recompor setores conservadores, embora não possua o mesmo carisma do bolsonarismo “raiz”.

Genoino também defendeu que Lula apresente um programa de “transformação” em eventual quarto mandato. Entre as propostas citadas estão mudanças no arcabouço fiscal, recuperação do papel do Estado como indutor do desenvolvimento, tributação progressiva, combate à precarização do trabalho, regulação das plataformas digitais e ampliação de direitos sociais.

“2022 eu fui para a contenção; 2026 eu vou para a transformação”, resumiu Genoino, ao sugerir o tom que Lula deveria adotar na campanha.

Outro eixo da entrevista foi a soberania nacional. O dirigente histórico do PT defendeu maior controle estatal sobre terras raras, petróleo, energia, satélites e tecnologia nuclear. Para ele, o Brasil deveria discutir uma empresa pública para minerais estratégicos e recuperar mecanismos semelhantes ao regime de partilha.

Genoino também voltou a defender uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva e soberana. Segundo ele, a Constituição de 1988 teve avanços importantes, mas foi deformada por reformas neoliberais, pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela captura do orçamento por emendas parlamentares. “A Constituinte é uma ruptura democrática no tratamento da questão do poder”, afirmou.

Ao avaliar o governo Lula 3, Genoino reconheceu avanços na contenção do bolsonarismo, na recuperação de políticas públicas, no salário mínimo e na renda popular. Mas criticou o que chamou de excesso de diálogo sem disputa política com o centrão.

“Nós não somos filhos desse sistema. Eu vim de fora dele. Esse sistema queria me matar”, declarou, ao defender que o PT volte a tensionar a conjuntura e a organizar sua militância em torno de causas populares.

Sobre o futuro do PT, Genoino disse que o partido enfrenta uma crise de direção, burocratização e envelhecimento, mas ainda pode surpreender se retomar formação política, trabalho de base e renovação geracional. “A gente nasceu do sonho. Hoje nós somos a geração das causas. O importante é ser; hoje o importante é ter. Eu quero ser. Eu quero causas”, afirmou.

Ao final, perguntado sobre a principal liderança de esquerda desde o século XX, Genoino escolheu Vladimir Lenin, por ter dirigido uma revolução que, em sua avaliação, marcou a história da humanidade.

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