“O sequestro de Maduro rasga o direito internacional e expõe a guerra pelo petróleo”, diz Marcelo Uchoa
O jurista diz que ação do governo Trump transforma o presidente da Venezuela em moeda de troca e ameaça a soberania latino-americana
247 - O sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças dos Estados Unidos abriu uma crise sem precedentes no direito internacional e recolocou a América Latina no centro da disputa geopolítica global. Em entrevista ao programa Brasil Agora, da TV 247, o jurista e professor Marcelo Uchoa afirmou que a operação comandada pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não tem base legal e revela que o verdadeiro objetivo de Washington é o controle das riquezas venezuelanas, especialmente o petróleo.
Marcelo Uchoa alertou para o caráter especulativo das análises feitas pela grande imprensa brasileira sobre supostas traições internas no governo venezuelano, especialmente envolvendo a vice-presidenta Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente o governo após o sequestro de Maduro.
“A possibilidade da Delcy Rodríguez ser uma pessoa que não seja da confiança do chavismo é zero porque ela é da essência do Chávez”, afirmou o jurista.
Segundo Uchoa, a narrativa veiculada pela mídia corporativa parte de informações de agências internacionais que sequer mantêm presença permanente na Venezuela.
Marcelo Uchoa situou o atual conflito dentro de uma longa trajetória histórica que remonta ao pensamento de Simón Bolívar, o libertador da América do Sul, cuja visão de unidade latino-americana inspirou Hugo Chávez.
“O Chávez não era um trapalhão engraçado, como ele era apresentado aqui no Brasil. O Chávez era um marxista convicto, sabia o que estava fazendo de dentro das Forças Armadas”, afirmou.
Ele lembrou que, antes da chegada de Chávez ao poder, a Venezuela vivia sob o chamado Acordo de Punto Fijo, que garantia a alternância de elites políticas enquanto a riqueza do petróleo ficava concentrada em uma pequena parcela da população.
“A Venezuela tinha um PIB alto porque tinha muito petróleo, mas era um petróleo que só servia à classe dominante e aos Estados Unidos”, afirmou.
Para Uchoa, a razão central da ofensiva liderada por Donald Trump é econômica e estratégica.
“Não interessa se era ditador, se era democrata, se venceu ou não a eleição. Se trata de petróleo, ouro e terras raras”, afirmou.
Ele lembrou que a Venezuela é uma das maiores reservas de petróleo do mundo e está geograficamente muito mais próxima dos Estados Unidos do que o Oriente Médio.
“Para os Estados Unidos chegarem na Arábia Saudita, têm que cruzar o Atlântico, cortar o Mediterrâneo, passar pela Síria, atravessar o Iraque. Na Venezuela, eles tinham ali um país colônia”, explicou.
Houve traição?
Questionado sobre a tese de que Maduro teria sido entregue por alguém de dentro do sistema, Uchoa admitiu a possibilidade de traição em níveis baixos ou de espionagem, mas descartou qualquer rompimento no comando político do chavismo.
“Eu acho que houve, sim, uma traição de baixo nível que permitiu que isso acontecesse, ou então espionagem. Eles deram um blackout no país, atacaram algumas bases e fizeram aquela operação cirúrgica de prender o Maduro e a Cilia Flores”, analisou.
E acrescenta: “Não houve capitulação. A segurança pessoal do Maduro foi morta. Todos os venezuelanos e todos os cubanos que faziam a segurança pessoal dele”.
Maduro como prisioneiro de guerra
Marcelo Uchoa afirmou que o sequestro de Maduro viola frontalmente o direito internacional. “Eles sequestraram. Isso é um crime. E sequestraram um chefe de Estado que tem imunidade”, lembrou.
“Ele é um prisioneiro de guerra, protegido pelas Convenções de Genebra”, completou.
Para o jurista, Washington quer usar o presidente venezuelano como moeda de troca. “Eles levaram o Maduro vivo porque querem negociar o Maduro. Porque senão teriam feito como com Bin Laden”, afirmou.



