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Paulo Gala: o crescimento do PIB vai surpreender mais uma vez

Economista Paulo Gala diz à TV 247 que queda dos juros e transferência de renda podem elevar o PIB acima das projeções do mercado em ano eleitoral

Paulo Gala, Fernando Haddad e Lula (Foto: Fator Administração de Recursos/Divulgação | ABR)

247 - A economia brasileira pode ter um desempenho acima das estimativas mais usadas por mercado e organismos internacionais em 2026, segundo o economista Paulo Gala. Na avaliação dele, o ritmo de atividade tende a superar o patamar apontado no início do ano por projeções como as do boletim Focus e do Banco Central.

A análise foi feita por Gala em entrevista gravada à TV 247, na qual ele afirmou que “sempre que o economista faz aquela previsão de janeiro, precisa tomar cuidado” e lembrou uma sequência recente de erros nas estimativas de começo de ano: “Toda previsão do começo do ano era: ‘Ah, o Brasil vai crescer 0,8, vai crescer 1%, aí cresceu 3,5’”

Projeções apontam desaceleração, mas Gala vê espaço para surpresa

As projeções mais difundidas para 2026 apontavam um crescimento do PIB entre 1,6% e 2%, com base em estimativas do Fundo Monetário Internacional e na média das expectativas reunidas no boletim Focus. Paulo Gala ponderou que esse tipo de cálculo, feito no início do ano, tende a refletir maior cautela e lembrou os números divulgados naquele período: “O próprio Banco Central fez uma previsão mais pessimista, ele espera um crescimento de 1,6% no último relatório que ele soltou, o Focus, que é o relatório de mercado, tá com uma previsão de 1,8”.

A partir desse ponto, ele apresentou seu cenário central: “Eu tô um pouco mais otimista, para te falar a verdade. Eu acho que dá para crescer pelo menos dois, talvez um pouco mais do que dois”. O economista também argumentou que, se o resultado se confirmar, o período recente pode sustentar uma média mais alta para o atual ciclo do governo. “Vai ser a melhor média de crescimento desde 2007, 2008”, disse, ao comentar a possibilidade de uma sequência de anos com desempenho acima de 3% em parte do período, tema que ele relacionou ao padrão histórico observado em governos anteriores.

Queda dos juros e políticas sociais como motor do consumo

O principal eixo da explicação de Gala para um PIB acima do consenso foi a combinação entre redução do custo do crédito e manutenção de transferências públicas que sustentam a demanda doméstica. “Primeiro porque os juros vão cair. Acho que tá contratado esse corte de juros”, afirmou. Em seguida, ele indicou a trajetória que esperava para a taxa básica: “Acho que a Selic deve cair até uns 12, 12,5”.

Na mesma linha, ele apontou a força de políticas sociais e mecanismos de renda como fatores que, segundo sua leitura, sustentaram o crescimento nos últimos anos e tendem a continuar influenciando em 2026. “As políticas sociais continuam muito fortes”, afirmou, e citou programas e despesas que, no seu diagnóstico, ajudam a manter o consumo: “Foi Bolsa Família, foi BPC, as próprias aposentadorias, transferências de renda para quem ganha até dois, três salários mínimos”.

Gala também mencionou medidas e regras que, segundo ele, ampliariam o impulso de renda ao longo do ano. Entre os exemplos, citou “a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000” e o reajuste do salário mínimo a partir de um regime que, conforme disse, combina inflação e PIB. Ele detalhou o efeito do ajuste recente: “O ano passado a gente cresceu algo como 2,5, mais a inflação de quatro deu um reajuste de salário mínimo de quase 7%”.

Ao explicar o mecanismo, Gala associou essas despesas a um aumento do consumo agregado: “Nós temos aí mais de R$ 1 trilhão de reais de despesas de transferências públicas que são indexadas por salário mínimo”. E concluiu com o efeito que espera sobre a atividade: “Tudo isso… injeta a demanda, aquece a economia”.

Por que as estimativas podem ficar defasadas ao longo do ano

Um ponto recorrente na fala do economista foi a ideia de que previsões formuladas no começo do calendário frequentemente não capturam mudanças rápidas em juros, inflação e renda, o que pode distorcer a leitura sobre o PIB. Ele citou outro exemplo recente para reforçar a cautela: “O ano passado a previsão era: ‘Ah, a inflação no Brasil vai ser seis, a inflação foi 4,2’”.

Com base nesses elementos, Gala sustentou que o crescimento de 2026 não precisa repetir o ritmo observado em anos anteriores para ainda assim superar a mediana das projeções. “Não vai ser o crescimento de 3,5 dos últimos anos, mas eu acho que dá para enxergar um crescimento de 2%, talvez um pouquinho mais até”, disse.

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