Pedro Celestino defende projeto nacional e diz que o Brasil precisa voltar a pensar grande
Engenheiro critica financeirização, perda de soberania tecnológica, Lava Jato e ausência de planejamento estratégico no país
247 - Em entrevista ao programa Conversas com Hildegard Angel, da TV 247, o engenheiro civil Pedro Celestino fez uma ampla análise sobre a conjuntura brasileira e internacional, defendendo que o Brasil retome um projeto nacional de desenvolvimento baseado em soberania, democracia, industrialização e justiça social.
Ex-presidente do Clube de Engenharia e liderança histórica do setor, Celestino afirmou que o país dispõe de recursos naturais, população, território e quadros técnicos para se desenvolver, mas perdeu, nas últimas décadas, a capacidade de planejar o próprio futuro. “O Brasil tem tudo para ter um projeto nacional que lhe possibilite se desenvolver de uma forma democrática, justa e soberana”, disse.
Ao longo da conversa, Celestino avaliou que a crise democrática atual não se limita ao Brasil. Para ele, desde os anos 1980, com a ascensão do neoliberalismo, Europa e Estados Unidos passaram a desmontar conquistas sociais construídas no pós-guerra. Esse processo, segundo ele, alimentou o descrédito popular na política e abriu espaço para discursos de ruptura.
“Há uma crise da democracia no mundo”, afirmou. “As pessoas se dão conta de que não adianta votar para mudar a política, porque quem quer que assuma o poder continua a fazer a mesma política: a política do capital financeiro.”
No caso brasileiro, Celestino sustentou que a redemocratização veio acompanhada de uma perda de musculatura econômica. Segundo ele, o país aprovou uma Constituição cidadã, mas, a partir dos anos 1990, abandonou a visão estratégica de industrialização e planejamento.
“Nós ganhamos a democracia e perdemos a economia a partir do Collor”, afirmou. Para o engenheiro, a abertura econômica sem proteção adequada acelerou a destruição de setores industriais. Ele também criticou governos posteriores por não terem reconstruído uma política estruturante de desenvolvimento nacional.
Celestino foi especialmente duro ao tratar da Lava Jato. Para ele, a operação não teve como principal consequência o combate à corrupção, mas a destruição da engenharia nacional. “O objetivo principal foi destruir a engenharia nacional”, declarou. Ele reconheceu a necessidade de combater ilícitos, mas afirmou que, sob essa justificativa, empresas estratégicas foram desmontadas, reduzindo a capacidade do Brasil de executar grandes obras sem depender de companhias estrangeiras.
Outro ponto central da entrevista foi a crítica à dependência tecnológica. Celestino defendeu que a administração pública brasileira reduza sua dependência de grandes empresas estrangeiras de tecnologia, especialmente em sistemas operacionais, armazenamento em nuvem e comunicações estratégicas.
“Toda a administração pública brasileira depende da Microsoft”, disse. “É hora de estabelecer uma política de migração dos sistemas operacionais da administração pública para o Linux, que é aberto.”
Ele também citou a Amazônia como exemplo de vulnerabilidade. Para Celestino, o país precisa ampliar redes próprias de comunicação, inclusive cabos fluviais, para evitar dependência excessiva de empresas como a Starlink. “Não adianta eu ficar reclamando que o outro tem poder e vai querer me oprimir. Eu tenho que tomar medidas para impedir que ele me oprima”, afirmou.
Na avaliação do engenheiro, o agronegócio brasileiro é forte e importante para a economia, mas carece de uma visão nacional articulada. Ele observou que o setor depende de fertilizantes russos e do mercado chinês, mas parte de suas elites segue politicamente orientada pelos Estados Unidos. “O agro depende do insumo da Rússia, depende do mercado chinês, mas tem umbigo em Miami”, disse.
Celestino também defendeu a coexistência entre agricultura empresarial tecnificada e agricultura familiar. Para ele, a primeira tem peso econômico e exportador, enquanto a segunda cumpre papel essencial na segurança alimentar e na ocupação social do território.
Ao tratar da inteligência artificial e da automação, Celestino disse que o avanço tecnológico exigirá novas formas de proteção social, incluindo renda mínima e redução da jornada de trabalho. “Há que haver renda mínima”, afirmou. Para ele, a robotização pode abrir espaço para mais tempo livre, cultura, ciência e lazer, desde que haja disputa política para distribuir os ganhos de produtividade.
Na parte final da entrevista, Celestino defendeu a regulação das big techs, criticou a captura do Estado pelo capital financeiro e afirmou que o Brasil paga juros em volume incompatível com suas necessidades sociais e produtivas. “Nós precisamos de um Estado investidor, de um Estado que incentive o desenvolvimento industrial de empresas brasileiras de capital nacional”, disse.
Questionado sobre como se define, Pedro Celestino respondeu: “Eu sou um democrata. Tenho uma visão nacional, um compromisso inarredável com a paz mundial e com o desenvolvimento social de uma sociedade mais justa e equilibrada.”
Para ele, o maior desafio brasileiro é reconstruir uma aliança em torno de um projeto de país. “Nós precisamos pensar grande novamente”, resumiu.



