“Quem vai impor limites ao Trump?”
Carlos Latuff afirma que o presidente dos Estados Unidos testa os limites da ordem internacional e coloca em xeque o futuro da OTAN
247 - A escalada de tensões entre os Estados Unidos e governos europeus, após novas ameaças tarifárias e declarações sobre a Groenlândia, levou o jornalista e cartunista Carlos Latuff a concentrar sua análise em uma pergunta central: “A pergunta que a gente precisa fazer é: quem vai impor limites ao Trump?”. Para Latuff, o presidente dos Estados Unidos atua como um agente que mede reações, avança quando não encontra barreiras e naturaliza a ausência de consequências.
As declarações foram feitas por Latuff em entrevista ao programa Boa Noite 247 da TV 247. Ao discutir o cenário de atrito entre Washington e países europeus, ele descreveu um ambiente em que, segundo sua leitura, faltam mecanismos efetivos de contenção política e institucional.
A ideia de “limite” e a lógica do teste permanente
Latuff sustentou que o presidente dos Estados Unidos opera a partir de um padrão de comportamento que, em sua visão, depende da inexistência de freios. “Se ele não tem um limite, ele faz o que ele quiser”, afirmou, ao insistir que a dinâmica se assemelha a um processo contínuo de experimentação: “Ele tá testando os limites”.
Na entrevista, o cartunista argumentou que esse teste ocorre tanto no plano doméstico quanto na projeção externa dos Estados Unidos. Internamente, ele disse não enxergar barreiras institucionais capazes de conter decisões do governo. “Na casa dele não tem ninguém”, afirmou, antes de listar elementos que, na sua avaliação, reduzem a possibilidade de reação: “O judiciário, ele já tem maioria, ele tem maioria no Congresso, tem parte da imprensa com ele”.
Ao abordar protestos contra o governo, Latuff também questionou a capacidade dessas mobilizações de produzir efeitos práticos diante do aparato estatal. “Não, eu não tô vendo qual é qual é impeditivo do Trump para impor agenda aos Estados Unidos e ao mundo”, disse. E, ao mencionar repressão a manifestações, resumiu a relação de força que enxerga: “O Trump inclusive ameaça colocar forças armadas”.
Groenlândia como ponto de pressão e o risco de ruptura na OTAN
Ao tratar diretamente da Groenlândia, Latuff associou o tema à credibilidade de compromissos militares no Atlântico Norte. Em seu diagnóstico, um movimento dos Estados Unidos contra um território ligado à Dinamarca colocaria em contradição o princípio de defesa coletiva. Ele apontou um dilema: “Quais são os países da OTAN, os países europeus que vão enfrentar o Trump caso ele tome a Groenlândia?”.
A partir daí, formulou a consequência política que, segundo ele, decorre de qualquer resposta europeia que seja insuficiente — ou de um recuo formal. “Se a União Europeia permitir que isso aconteça, seja através de um recuo… das duas formas ela estará capitulando e vai decretar efetivamente o fim da OTAN como a gente conhece”, afirmou.
Na entrevista, Latuff também afirmou que, do ponto de vista do governo dos Estados Unidos, a Groenlândia entraria numa lógica de área de influência regional. “Cada um, cada potência cuida do seu quintal”, disse, antes de acrescentar: “Os Estados Unidos entende que a Groenlândia faz parte do seu quintal”. Na mesma linha, concluiu que, diante desse entendimento, o presidente dos Estados Unidos se sentiria autorizado a ir além de medidas econômicas: “Com tarifa sem tarifa, se ele quiser mandar tropa para lá, ele manda”.
A ausência de “linha vermelha” e o vazio de contenção
Um dos eixos do raciocínio de Latuff foi a inexistência, hoje, de um ator que imponha limites sistemáticos ao presidente dos Estados Unidos fora do território norte-americano. “Quem é que vai colocar a linha vermelha pro Trump?”, perguntou. Ele afirmou que, no passado, existiriam condições geopolíticas diferentes para esse tipo de contenção: “Na Guerra Fria, no século XX, quem dava linha vermelha era a União Soviética”.
Na avaliação apresentada no Boa Noite 247, o efeito prático desse cenário seria a normalização de ações que, em outras circunstâncias, sofreriam bloqueios ou reações mais incisivas. “Você não tem ninguém para dar a linha vermelha”, disse Latuff, ao insistir que a dinâmica atual favorece avanços sucessivos do presidente dos Estados Unidos sempre que a resposta se limita ao plano retórico.
Ao encerrar sua análise sobre o tema, Latuff retomou o ponto de partida: a pergunta sobre limites não seria apenas retórica, mas o centro do impasse político que descreveu. “O Trump precisa de um limite, ele precisa de um obstáculo”, afirmou, ao sustentar que, sem barreiras internas e externas, a tendência é a continuidade do processo de teste e ampliação de poder que, segundo ele, já está em curso.