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Richard Wolff vê guerra contra Irã como sinal de declínio dos EUA

Richard Wolff vê guerra contra Irã como sinal de declínio dos EUA e diz que conflito pressiona preços, orçamento americano e economia global

Richard Wolff vê guerra contra Irã como sinal de declínio dos EUA (Foto: REUTERS/Carlos Barria | Divulgação)

247 - Na avaliação do economista Richard Wolff, a guerra contra o Irã aprofundou pressões já visíveis sobre a economia mundial, elevando os custos de energia, fertilizantes e transporte, além de ampliar a instabilidade fiscal dos Estados Unidos. Para ele, o conflito expõe não apenas a interdependência da economia global, mas também o enfraquecimento da posição americana no cenário internacional.

Em entrevista ao programa UpFront, exibido no canal da Al Jazeera no YouTube, Wolff afirmou que os efeitos da ofensiva lançada por Estados Unidos e Israel ultrapassam o campo militar e atingem diretamente cadeias produtivas, governos e consumidores em várias regiões do mundo. Ao longo da conversa, ele sustentou que a guerra acelera contradições econômicas e políticas que, segundo sua análise, já estavam em curso dentro e fora dos EUA.

Segundo o professor, a alta do petróleo, do gás natural e dos fertilizantes produz impactos imediatos sobre diferentes setores, de forma quase simultânea, justamente porque a economia global funciona hoje com cadeias longas de suprimento, comércio veloz e fluxos permanentes de investimento. “Esta guerra, com pouco mais de um mês, já está tendo implicações enormes pelo aumento do preço do petróleo, do gás natural, dos fertilizantes e assim por diante”, disse.

Wolff argumentou que esse encarecimento generalizado atinge continentes e atividades produtivas de maneira ampla, comprimindo margens de produção e consumo. Em sua leitura, o efeito político dessa pressão econômica é direto: o desgaste recai sobre os líderes responsáveis pela escalada militar. “Toda a pressão de um mundo danificado por esses aumentos de preços está exercendo enorme pressão sobre o sr. Trump e o sr. Netanyahu, muito além do que eles previram”, afirmou.

Ao abordar o impacto interno nos Estados Unidos, o economista descreveu o quadro como um “desastre fiscal”. Ele observou que, antes mesmo da guerra contra o Irã, Donald Trump já defendia uma ampliação maciça do gasto militar. Na entrevista, Wolff lembrou que o orçamento de defesa partiria de cerca de US$ 900 bilhões para US$ 1,5 trilhão no ano fiscal de 2027, o que representaria, segundo ele, “o maior aumento de gastos militares da história americana”. A isso se somaria, ainda de acordo com ele, o pedido adicional de US$ 200 bilhões para financiar a guerra.

Para Wolff, a situação se agrava porque os Estados Unidos já convivem com déficits superiores a US$ 1 trilhão e com um quadro de endividamento estrutural. Ele também destacou o rebaixamento da nota de crédito do governo americano pelas grandes agências de classificação de risco como parte do cenário de vulnerabilidade. “Estamos olhando para uma crise fiscal de enormes proporções”, declarou. Em seguida, acrescentou: “É assustador como perspectiva que a coesão interna da economia dos EUA também esteja sendo pressionada de uma forma que nunca vimos antes”.

O economista disse ainda que os custos dessa política recaem de forma desigual sobre a sociedade americana. Na sua avaliação, os grupos mais ricos, especialmente os que concentram ações no mercado financeiro, tendem a se beneficiar, enquanto a maioria da população enfrenta deterioração do poder de compra. “Os 10% mais ricos dos Estados Unidos possuem 80% do mercado de ações”, afirmou, ao argumentar que a valorização bursátil não traduz melhora para a maior parte dos trabalhadores.

Wolff apontou dois mecanismos concretos para explicar esse impacto social. O primeiro é o encarecimento dos fertilizantes, derivados do petróleo, somado às dificuldades logísticas no estreito de Ormuz. O segundo é a alta do diesel, que encarece o transporte rodoviário e, por consequência, o preço de mercadorias em circulação. “O preço de tudo está subindo, e quanto menos dinheiro você tem, mais um aumento de preços machuca você”, resumiu. Para ele, esse movimento pressiona o orçamento das famílias e aprofunda a insatisfação social.

A entrevista também abordou os danos estruturais provocados pela guerra nos países do Golfo. Ao comentar a situação do Catar, Wolff sustentou que, mesmo que os bombardeios cessem, os efeitos econômicos e geopolíticos continuarão por anos. Em sua interpretação, o conflito mostrou o esgotamento de um arranjo construído ao longo de décadas, no qual monarquias do Golfo exportavam energia em dólares, reciclavam parte desse excedente financiando o governo dos EUA e abrigavam bases militares americanas em troca de proteção.

Para o professor, a guerra revelou o colapso dessa lógica. “Eles agora aprenderam que a presença de uma base americana não é uma proteção, mas faz de você um alvo”, afirmou, ao citar os ataques iranianos que atingiram o Catar. Em sua visão, isso deve levar países da região a reconsiderar de forma profunda sua relação estratégica com Washington.

Wolff foi além e disse que o conflito atual precisa ser entendido como parte de uma transição histórica mais ampla. “O império dos Estados Unidos está em declínio, isso já não deveria mais ser uma questão”, declarou. Na sequência, afirmou que a questão central, daqui para frente, é saber “se o declínio será horrível ou se será suave e administrável”.

Na análise do economista, o Irã ocupa hoje uma posição decisiva nesse rearranjo de forças, por sua inserção em novos blocos internacionais e por sua conexão com a China e com o Brics. “Os iranianos têm as cartas aqui”, disse. Para ele, a exigência central de Teerã é a remoção do que considera uma ameaça existencial: “A presença dos Estados Unidos econômica, política e militarmente no Golfo”.

Ao responder sobre uma possível saída para a crise, Wolff defendeu uma reorganização radical da relação dos Estados Unidos com o Irã e com o restante do mundo. “Os Estados Unidos, espero que com consulta aos Estados do Golfo, têm de reorganizar radicalmente sua relação com o Irã e, portanto, com o mundo inteiro”, afirmou. Segundo ele, isso exigiria um recuo de poder e de posição por parte de Washington. Caso contrário, advertiu, a guerra poderá retornar em novos ciclos e manter aberta uma confrontação permanente.

O economista também associou a escalada militar a uma tentativa de desviar a atenção da opinião pública americana de problemas internos. Ele citou três frentes principais: a crise fiscal, o escândalo sexual ligado a Jeffrey Epstein e o agravamento da desigualdade econômica. Sobre esta última, foi enfático: “Estamos agora na economia mais desigual da minha vida”. Em seguida, acrescentou: “O nível da distância entre os mais ricos e a massa das pessoas é insustentável”.

Em outro trecho da entrevista, Wolff relacionou a guerra aos interesses do complexo industrial-militar. Para ele, o consumo acelerado de armas e equipamentos em conflitos como os da Ucrânia e do Irã garante novos contratos bilionários para fabricantes de armamentos. “Para eles, isso é dinheiro no banco”, afirmou, ao dizer que a reposição de estoques militares se tornou um grande motor de lucros para essas empresas.

Questionado sobre a decisão de aliviar sanções ao petróleo russo para conter a pressão inflacionária gerada pela guerra, Wolff classificou essa lógica como típica de impérios em declínio. “O jogo acabou”, disse, ao sustentar que Washington estaria tentando resolver uma crise criando outra ainda mais profunda. Segundo sua leitura, ao flexibilizar restrições sobre Rússia e Irã para reduzir a disparada dos preços da energia, os Estados Unidos terminariam reforçando financeiramente adversários que dizem combater.

A China apareceu na entrevista como o principal exemplo de adaptação a esse novo cenário. Wolff afirmou que Pequim se preparou por décadas para a perda relativa de poder americano, investindo em energia solar, diversificação produtiva e alianças estratégicas. Ele destacou que o crescimento chinês, em sua avaliação, superou com folga o dos Estados Unidos nas últimas décadas, e afirmou que o país asiático está mais protegido contra choques energéticos e mais bem posicionado para enfrentar a nova conjuntura global.

Ao final, Richard Wolff apresentou um diagnóstico duro sobre o momento histórico. Para ele, a guerra contra o Irã não é um episódio isolado, mas a expressão concentrada de uma disputa maior sobre poder, economia e ordem internacional. Na leitura do economista, o conflito escancarou a fragilidade fiscal americana, ampliou o custo de vida para trabalhadores e mostrou que os efeitos de uma guerra regional podem se espalhar rapidamente por toda a economia mundial.

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