Subestimar o irã é um erro, afirma Pedro Costa Jr. sobre guerra
Pedro Costa Jr. diz que os EUA erraram ao subestimar o Irã, avalia desgaste de Trump e alerta para risco de escalada
247 - O conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos expôs erros de cálculo de Washington, aprofundou a instabilidade no Oriente Médio e ampliou o risco de uma escalada de consequências imprevisíveis, na avaliação do cientista político Pedro Costa Jr. Para ele, a principal falha da Casa Branca foi não dimensionar corretamente a capacidade de reação iraniana, tanto no plano militar quanto no político.
A análise foi feita por Pedro Costa Jr. em entrevista ao Boa Noite 247, da TV 247, em que ele sustentou que Donald Trump entrou em uma guerra sem apoio sólido da opinião pública norte-americana, sem articulação consistente com aliados e sem compreender o alcance estratégico do Irã no atual tabuleiro internacional.
Ao longo da entrevista, o pesquisador organizou sua leitura da crise em torno de três erros centrais cometidos por Trump. O primeiro deles, segundo afirmou, foi a subestimação da força iraniana. “O grande erro foi subestimar o Irã, subestimar a capacidade militar iraniana. E eles estão pagando por isso”, declarou. Na avaliação dele, a resposta de Teerã mostrou que o país dispõe de capacidade ofensiva muito superior àquela imaginada por seus adversários.
Para Pedro Costa Jr., a atual guerra revelou que o Irã conseguiu atingir pontos sensíveis de seus inimigos e alterar a percepção de segurança na região. Em sua leitura, os ataques não atingem apenas Israel, mas também interesses estratégicos dos Estados Unidos e de aliados regionais, o que muda o ambiente político do Oriente Médio e impõe novas dúvidas a governos que até então confiavam na proteção militar americana.
Ao tratar da situação israelense, ele afirmou que a guerra também corroeu a imagem de invulnerabilidade construída em torno do sistema de defesa do país. “O domo de ferro mostrou que pode ser perfurado”, disse. Segundo o analista, mesmo sob forte censura e controle de informações, os efeitos dos bombardeios passaram a se impor no cotidiano da população israelense, obrigada a conviver com sirenes constantes e idas frequentes a abrigos.
Pedro Costa Jr. também associou a resistência iraniana ao apoio externo. Na entrevista, afirmou que há sinais claros de colaboração de Rússia e China, especialmente nos campos militar, tecnológico e estratégico. Segundo ele, o peso do Irã para Moscou e Pequim ajuda a explicar a dimensão da resposta ao conflito e o patamar de resistência demonstrado até agora por Teerã.
O segundo erro atribuído a Trump foi, de acordo com o pesquisador, a ausência de debate interno nos Estados Unidos antes do envolvimento direto na guerra. Para ele, a sociedade americana continua marcada pelo desgaste acumulado com décadas de intervenções militares no Oriente Médio, e a entrada em um novo confronto tende a aprofundar divisões internas. “Não houve nenhum esforço para convencer a população. Os Estados Unidos já estão exaustos dessas guerras intermináveis”, afirmou.
Na mesma linha, ele sustentou que o presidente americano rompeu com a lógica política que o levou de volta à Casa Branca. Segundo Costa Jr., parte importante do campo conservador que sustenta Trump rejeita novas aventuras militares e vê o conflito como uma guerra alheia aos interesses diretos dos Estados Unidos. Nesse contexto, o republicano teria se afastado do discurso de prioridade nacional que marcou sua trajetória recente.
Ao comentar a mais recente fala pública de Trump, Pedro Costa Jr. avaliou que a tentativa de apresentar o episódio como uma vitória acabou produzindo o efeito oposto. “Ao declarar vitória, ele acabou assumindo a derrota”, disse. Na interpretação do cientista político, o presidente percebeu que não conseguirá alcançar objetivos como a mudança de regime no Irã e passou a buscar uma forma de reduzir o desgaste político da operação.
O terceiro erro, segundo ele, foi diplomático. Pedro Costa Jr. afirmou que Trump entrou no conflito sem construir apoio consistente entre aliados tradicionais e que a guerra aprofundou fissuras entre os próprios países do chamado Norte global. Em sua leitura, a dificuldade dos Estados Unidos para mobilizar parceiros europeus evidencia isolamento político e amplia o custo internacional da ofensiva.
Questionado sobre a possibilidade de uma invasão terrestre, o pesquisador foi taxativo ao apontar esse cenário como desastroso para Washington. “Uma invasão por terra seria uma guerra nefasta para os Estados Unidos. Seria o fim do Trump”, afirmou. Para ele, uma operação desse tipo abriria um atoleiro militar e político, com impacto direto sobre a popularidade do presidente e sobre as eleições legislativas de novembro.
Pedro Costa Jr. argumentou que uma guerra em solo iraniano teria efeitos ainda mais profundos porque os Estados Unidos já carregam o peso de campanhas mal sucedidas na região. Na comparação feita por ele, o Irã representa um desafio muito superior ao de outros países enfrentados por Washington nas últimas décadas, tanto por sua dimensão territorial e populacional quanto por sua estrutura militar e capacidade de resistência.
“O Irã não pode ser comparado ao Afeganistão ou ao Iraque. É um país de 90 milhões de habitantes, com território difícil, grande capacidade de ataque e apoio estratégico de Rússia e China”, afirmou. Em seguida, reforçou que o tempo tende a favorecer Teerã em um conflito prolongado. “O Irã tem mais capacidade de resistência, mais tolerância a perdas e mais fôlego para uma guerra longa”, declarou.
O analista também destacou o peso histórico desse fator. “O Irã é uma civilização persa com 2.500 anos de resistência. É um povo forjado na guerra e na sobrevivência”, disse. Para ele, esse componente foi ignorado por Washington e por Israel, que teriam apostado em uma reação mais limitada do país persa.
A entrevista ainda abordou o impacto econômico e geopolítico do conflito, especialmente em torno do estreito de Ormuz. Na avaliação de Pedro Costa Jr., o controle iraniano da área pressiona cadeias energéticas, amplia tensões sobre o preço do petróleo e produz consequências que ultrapassam o campo militar. Ele afirmou que esse movimento afeta diretamente a Europa, os mercados internacionais e a própria estrutura de poder do sistema global.
Ao final, o pesquisador afirmou que o mundo vive um quadro de “instabilidade radical” e evitou descartar cenários mais graves, embora tenha sugerido que Trump parece buscar uma saída menos custosa diante das dificuldades encontradas. Ainda assim, alertou para o agravamento da crise e para a banalização crescente do debate sobre o uso de armas nucleares táticas, algo que classificou como profundamente preocupante.


