Associação de torcedores organizados propõe fim gradual da torcida única em São Paulo
Anatorg sugere jogo-teste com visitantes e revisão do modelo adotado desde 2016 nos clássicos paulistas
247 - A Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg) elaborou uma proposta formal para encerrar gradualmente o modelo de torcida única nos jogos envolvendo Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo, Guarani e Ponte Preta, no estado de São Paulo. O plano prevê a retomada experimental e controlada da presença de torcedores visitantes nos estádios, sob supervisão dos órgãos de segurança pública.
A iniciativa foi entregue nesta segunda-feira (23) ao delegado Cesar Saad, da Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (Drade), da Polícia Civil. O documento, redigido pelo advogado da entidade, Renan Bohus da Costa, também será encaminhado à Polícia Militar, ao Ministério Público, ao Poder Judiciário e à Federação Paulista de Futebol.
A política de torcida única foi implementada em abril de 2016 pela Secretaria da Segurança Pública, com aval de outros órgãos, após confrontos registrados antes e depois de um clássico entre Palmeiras e Corinthians pelo Campeonato Paulista. Desde então, torcedores visitantes estão impedidos de frequentar partidas entre os principais clubes paulistas.
A proposta da Anatorg sugere a realização de um jogo-teste com participação limitada de torcida visitante. De acordo com o texto, até 10% da capacidade do estádio poderia ser destinada ao setor visitante — percentual que era adotado anteriormente no estado e que, segundo a associação, está alinhado a padrões internacionais de segurança. Nesse estágio inicial, não haveria divisão igualitária do estádio entre as torcidas.
O modelo prevê venda de ingressos com rastreamento individual, priorizando sócios do clube visitante e integrantes de torcidas organizadas formalmente reconhecidas e previamente cadastradas, conforme as exigências da Lei Geral do Esporte. A medida busca permitir identificação e responsabilização em caso de incidentes. A entidade também admite, num primeiro momento, restringir a comercialização de entradas a idosos, crianças e pessoas com deficiência.
O deslocamento dos torcedores visitantes até o estádio partiria de um ponto de encontro definido em conjunto com o 2º Batalhão de Polícia de Choque, responsável pelo planejamento operacional, escolta e policiamento em dias de jogos na capital paulista.
Para o advogado Renan Bohus da Costa, a proposta não representa um retrocesso nas políticas de segurança. “O que estamos propondo não é um retorno irresponsável ao passado, mas uma atualização da política pública à luz da tecnologia e da responsabilidade individual. A torcida única foi uma resposta emergencial em determinado contexto”, afirmou. Ele acrescentou: “Hoje, com sistemas de reconhecimento facial, videomonitoramento inteligente e integração de dados, é possível identificar e punir quem comete ilícitos sem penalizar coletivamente milhares de torcedores”.
O delegado Cesar Saad confirmou a realização da reunião e classificou o encontro como institucional. “O projeto trata da revisão do modelo atual e propõe uma retomada gradual da torcida visitante nos estádios, dentro de critérios técnicos e operacionais que precisam ser analisados com responsabilidade”, declarou. Segundo ele, a Drade considera essencial o diálogo com torcidas organizadas para o amadurecimento do debate público e reiterou a disposição da delegacia de colaborar dentro de suas atribuições legais.


