Master: terrenos de Ronaldinho viram lastro de R$ 330 milhões sem aval do ex-jogador
Investigação aponta uso de imóveis em CRIs ligados ao Banco Master e a fundos da Reag sem conhecimento do atleta, segundo a defesa
247 - Dois terrenos pertencentes ao ex-jogador Ronaldinho Gaúcho foram utilizados como lastro em uma operação de captação de R$ 330 milhões envolvendo o Banco Master, sem que o atleta tivesse dado aval ou tivesse conhecimento da emissão dos títulos, segundo seus advogados. As áreas foram incluídas como garantia em créditos estruturados que, após captados, tiveram os recursos direcionados a fundos de investimento ligados à própria instituição financeira, de acordo com apurações do Ministério Público Federal (MPF). A defesa sustenta ainda que a operação imobiliária que deu origem às tratativas já havia sido cancelada antes da emissão dos papéis, informa o jornal O Globo.
As investigações indicam que o Banco Master, por meio do Fundo City 02 — do qual era o único cotista — concedia empréstimos a pessoas jurídicas que, na sequência, repassavam quase a totalidade dos valores a fundos administrados pela gestora de investimentos Reag. Assim como o Master, a Reag foi posteriormente liquidada pelo Banco Central. Parte relevante dessas operações tinha início com a emissão de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), títulos lastreados em créditos do setor imobiliário, como parcelas de financiamentos ou receitas futuras de aluguéis, usados para antecipar recursos no mercado.
Em agosto de 2023, a Base Securitizadora, empresa citada nas investigações, realizou a emissão de R$ 330 milhões em créditos para a S&J Consultoria. O lastro da operação consistia em notas comerciais voltadas ao desenvolvimento de terrenos em Porto Alegre, incluindo duas áreas de propriedade de Ronaldinho Gaúcho. No entanto, advogados do ex-jogador da Seleção Brasileira e de sócios envolvidos no empreendimento afirmaram que o negócio não avançou.
Segundo a defesa do atleta, as negociações tiveram início em 2021 com as empresas União do Lago e Melk, mas foram interrompidas por entraves como a ausência de licenças ambientais e pendências relacionadas ao IPTU. O advogado de Darci Garcia da Rocha, sócio no projeto original, também declarou desconhecer a emissão dos CRIs e o destino dos recursos.
“As parcerias imobiliárias com o grupo do Ronaldinho não foram para frente por desacordo comercial”, afirmou o advogado Maurício Haeffner, acrescentando que não houve aporte relevante de recursos nos terrenos.
A investigação do Banco Central aponta que diversas empresas adotaram dinâmica semelhante: primeiro, captavam recursos por meio da emissão de CRIs ou outros instrumentos financeiros e, em vez de investir em obras, realocavam os valores em fundos ligados ao próprio Banco Master e à Reag. No sistema bancário, o volume de ativos é um indicador central de solidez e capacidade de alavancagem. Ao registrar esses papéis como ativos, o grupo financeiro passava a apresentar patrimônio inflado, superior ao que efetivamente possuía em bens tangíveis ou ativos de qualidade.
Para os investigadores, a estratégia teria como objetivo melhorar artificialmente os índices do Master, atraindo investidores e elevando a credibilidade da instituição, ainda que os recursos circulassem em um circuito fechado, sem impacto real na economia. Nesse contexto, os terrenos serviriam apenas como uma “fachada” para a captação de recursos. Enquanto os títulos financeiros eram negociados e inflavam os indicadores, os lotes permaneciam vazios, sem qualquer obra em andamento.
As empresas envolvidas são alvo de investigações da Polícia Federal e foram atingidas por mandados autorizados pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). O magistrado destacou que o volume total de CRIs sob suspeita emitidos pela Base Securitizadora pode chegar a R$ 1 bilhão.
A Base Securitizadora foi criada pelo empresário César Reginato Ligeiro, que deixou a companhia em 2022. Já a S&J foi constituída em 2021, tendo como sócia a empresa Land I, também controlada por Ligeiro. Atualmente, ele ainda figura como administrador da OCC S.A., empresa que participa do quadro societário da S&J. Procurado, Ligeiro afirmou: “Ao longo de sua trajetória, integrou sociedades que realizaram operações usuais dos mercados financeiro e imobiliário, sempre em conformidade com a legislação e as normas aplicáveis. Eventuais questionamentos envolvendo terceiros ou fatos não relacionados à atuação direta das empresas operacionais devem ser analisados nos âmbitos competentes”.


