Clientes da Fictor sacaram 70% dos recursos após crise do Banco Master
Grupo pede recuperação judicial alegando crise de liquidez e afirma que pretende pagar dívidas sem descontos em até cinco anos
247 – O Grupo Fictor atribuiu o pedido de recuperação judicial apresentado no domingo, 1º de fevereiro, a uma crise de liquidez desencadeada após o anúncio de uma proposta de compra do Banco Master, em consórcio com fundos dos Emirados Árabes Unidos não identificados. As informações foram publicadas pelo InfoMoney, com relatos do advogado que coordena o processo de recuperação do grupo.
Segundo a versão apresentada pela empresa, a turbulência se intensificou no dia seguinte ao anúncio da oferta, em 18 de novembro, quando o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master. A partir dali, a crise de confiança que já rondava o banco teria se estendido para a Fictor, provocando uma corrida por resgates entre clientes e investidores vinculados às estruturas do grupo.
Retiradas aceleradas e impacto bilionário
De acordo com o advogado Carlos Deneszczuk, do escritório DASA Advogados, que atua na condução do processo, os clientes solicitaram a retirada de cerca de 70% dos recursos que estavam investidos desde 18 de novembro, somando quase R$ 2 bilhões. O movimento, afirma, pressionou o caixa e reduziu a capacidade de honrar fluxos esperados, especialmente em operações que dependiam de regularidade de pagamentos.
A narrativa do grupo busca enquadrar o problema como uma crise típica de liquidez — quando ativos e investimentos existem, mas a velocidade das saídas supera a capacidade de realizar recursos e manter pagamentos no curto prazo. Na prática, porém, a dimensão da retirada descrita sugere um abalo de confiança de grande escala, associado diretamente ao episódio do Banco Master e à leitura de risco que se impôs após a decisão do Banco Central.
Recuperação judicial e dívida acima de R$ 4 bilhões
O pedido de recuperação judicial foi protocolado para as empresas Fictor Holding e Fictor Invest. O total de dívidas informado é superior a R$ 4 bilhões. A empresa declarou que pretende pagar os valores devidos sem oferecer descontos aos credores, e que a proposta em elaboração deve prever um limite de até cinco anos para os reembolsos.
A sinalização de “sem desconto” costuma ser apresentada como tentativa de preservar a relação com credores e reduzir resistências a um plano, mas também aumenta a exigência de um cronograma factível de pagamentos e de uma fonte realista de geração de caixa ao longo dos anos. O desafio se amplia quando o pano de fundo é uma crise de liquidez acelerada por retiradas, como relatado no caso.
SCPs, captação e ausência de FGC
Um ponto central do caso envolve o modelo de captação e investimento descrito no texto: a Fictor captava recursos e estruturava Sociedades em Conta de Participação (SCP) para investir em negócios e empresas. Segundo Deneszczuk, a crise atingiu a distribuição de dividendos aos sócios desses arranjos, em razão do aperto de liquidez.
Esse detalhe é decisivo para o investidor, porque SCPs e estruturas semelhantes não se confundem com depósitos bancários tradicionais. O próprio relato destaca que não há cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para esses investimentos. Em outras palavras: o risco assumido é distinto daquele de aplicações cobertas por garantia, e o desfecho depende da capacidade do grupo de reorganizar pagamentos e cumprir o plano.
No material divulgado, Deneszczuk sustenta que, até novembro, não havia problemas de pagamentos e que a intenção do grupo é evitar prejuízos aos credores. Em declaração atribuída a ele, o advogado afirmou ao jornal Estado de S. Paulo: “A ideia da empresa é não prejudicar os credores. Até novembro, não havia ocorrido nenhum problema de pagamentos”.
Investidor internacional e o consórcio ligado ao Banco Master
Outro elemento citado é a presença de um investidor internacional identificado como Royal Capital, descrito como participante do consórcio que compraria o Banco Master ao lado da Fictor. Segundo o texto, a reestruturação teria sido uma exigência desse investidor, o que indica que as tratativas envolvendo a compra do banco — mesmo frustradas pelo desfecho regulatório — teriam influenciado a decisão de buscar o Judiciário.
Nesse tipo de situação, quando a credibilidade é atingida por um evento externo (a liquidação do banco alvo da proposta), o dano pode se espalhar rapidamente para parceiros, consorciados e empresas associadas ao mesmo episódio, ainda que as operações não sejam idênticas. Foi esse “efeito contágio” que o grupo procurou destacar ao relacionar diretamente a corrida por resgates ao caso Master.
TJ-SP determinou bloqueio cautelar de R$ 150 milhões
Paralelamente ao processo de recuperação judicial, a Fictor enfrenta uma decisão no Tribunal de Justiça de São Paulo. Na semana anterior ao pedido de recuperação, a desembargadora Maria Lúcia Pizzotti, da 30.ª Câmara de Direito Privado do TJ-SP, determinou o bloqueio cautelar de R$ 150 milhões em ativos financeiros do grupo.
Conforme relatado, o bloqueio teve como objetivo preservar uma garantia em dinheiro prevista em contrato — também no valor de R$ 150 milhões — ligada a uma operação de cartões de crédito empresariais. O texto aponta que a Orbitall, empresa responsável pelo processamento de pagamentos dos cartões da American Express, está no centro da disputa contratual. A medida teria sido tomada após a apresentação de um recurso, que reverteu entendimento anterior que havia negado o bloqueio.
Em processos dessa natureza, o bloqueio cautelar tende a elevar a pressão sobre o caixa, especialmente quando a empresa afirma estar no meio de uma crise de liquidez. Ao mesmo tempo, o Judiciário costuma justificar a medida como forma de proteger garantias contratuais e reduzir riscos de dissipação patrimonial em momentos de instabilidade.
Fictor Pay, maquininhas e cartão American Express
O texto também detalha uma aposta recente do grupo no segmento de pagamentos. Em 2024, a Fictor entrou na área ao criar a Fictor Pay, que teria começado como subadquirente — oferecendo maquininhas de cartão e serviços de tecnologia para pagamentos. No ano seguinte, segundo a descrição, foi lançado um cartão de crédito com bandeira American Express voltado a pessoas jurídicas.
O pedido de recuperação judicial, ainda conforme o relato, informa que o cartão chegou a movimentar R$ 200 milhões por mês. Havia também a intenção de lançar um produto para pessoas físicas. A operação da Fictor Pay estaria presente em nove Estados, com cerca de 500 clientes, e teria movimentado R$ 2,2 bilhões em seus terminais.
A expansão para pagamentos é frequentemente apresentada por grupos financeiros como diversificação de receita e aumento de recorrência. No entanto, em ambientes de perda de confiança, negócios sensíveis a risco reputacional podem sofrer impacto adicional, seja por aumento de exigências de garantias, seja por reprecificação de contratos e limites de crédito.

