Bloco do Amor reúne multidão e celebra diversidade no DF
Folia em Brasília destaca respeito, inclusão LGBTQIAPN+ e zero registros de violência, segundo organizadores
247 - O centro de Brasília foi tomado por cores, glitter e mensagens de afeto neste sábado de carnaval com mais uma edição do Bloco do Amor, que há 11 anos ocupa a capital federal com a proposta de promover respeito, diversidade e convivência pacífica. Fundado em 2015, o bloco voltou a reunir milhares de foliões nos arredores da Biblioteca Nacional e do Museu Nacional, reforçando sua marca como um dos eventos mais emblemáticos do carnaval do Distrito Federal.
As informações foram publicadas pela Agência Brasil, que acompanhou a festa e ouviu organizadores e participantes. De acordo com os responsáveis pelo bloco, no ano passado o público chegou a quase 70 mil pessoas, consolidando a celebração como uma das maiores da cidade.
Sonhar como ato de existência
Em 2026, o tema escolhido foi Sonhar como Ato de Existência. A proposta associa alegria e imaginação à resistência cultural e à transformação social. Com presença expressiva da comunidade LGBTQIAPN+, o Bloco do Amor se apresenta como espaço livre de preconceitos, no qual a folia acontece com respeito às diferenças.
À Agência Brasil, a coordenadora geral do bloco, Letícia Helena, destacou a pluralidade musical como reflexo da diversidade do público. “A diversidade está presente, inclusive, na variedade de ritmos que empurram os foliões, indo do axé retrô ao eletrônico, passando pela música pop, MPB e pelo forró”, afirmou.
A edição de 2026 integra a Plataforma Monumental, estrutura montada para receber diversos eventos ao longo de quatro dias de programação carnavalesca na capital federal.
Amor e representatividade no centro da capital
Produtora cultural, cantora, figurinista e formada em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), Letícia Helena explica que o bloco nasceu de uma inquietação coletiva. Segundo ela, surgiu da “necessidade de discutirmos o amor nesta cidade; o que queremos e o que somos, de forma a trazer mais representatividade para os espaços”.
A primeira edição ocorreu na Via S2 do Plano Piloto, local que, conforme relatou, reunia muitos profissionais que vendiam amor. “Foi ali a primeira edição do bloco. Como cresceu muito, o espaço não comportava mais o público, mudando para a área externa do Museu Nacional de Brasília”, acrescentou.
Ao longo da trajetória, o bloco passou a investir em protocolos de segurança e em ações de conscientização. Letícia afirma que houve avanços importantes na redução de ocorrências. “Percebemos, ao longo desses anos, muitas coisas melhorando. Isso está nas estatísticas. Para você ter uma ideia, o número de casos de assédio eram muito grandes no começo. Mas em 2024 conseguimos fazer uma festa que, segundo a Secretaria de Segurança Pública, zerou a quantidadde de registros de violência e assédio contra mulheres”, comemorou.
Ela atribui o resultado ao trabalho prévio com a equipe de produção. “Temos até protocolos indicando como agir nas mais diversas situações”, ressaltou.
Espaço de pertencimento e segurança
Entre os foliões, o sentimento predominante era de identificação com a proposta do evento. Fernando Franq, 34 anos, e Ana Flávia Garcia, 53, definiram o Bloco do Amor como o “bloco do coração” do casal.
“É um ambiente com o qual nos identificamos, de muita arte e com muitos artistas. Um lugar seguro para a comunidade LGBT, organizado por amigos que também estão em nossos corações”, disse Fernando.
Ana Flávia reforçou a percepção de segurança e acolhimento. “É um ambiente reverberado por pessoas apropriadas do próprio corpo. Aqui, todos são aceitos”. Para ela, o carnaval assume caráter transformador quando é vivido com respeito coletivo. “Note que temos uma juventude que já percebe a importância de um ambiente tranquilo por ser respeitoso, onde a nudez pode e deve ser respeitada, livre de assédios e preconceitos”, argumentou.
Primeira experiência e liberdade de expressão
A jovem bióloga Clarisse Pontes, 22 anos, participava pela primeira vez de um bloco de carnaval. “É a primeira vez que vou a um bloco de carnaval”, contou. Segundo ela, apesar das narrativas associadas à festa, a expectativa era diferente: “muita paz e curtição”.
Clarisse destacou a ideia de pertencimento aos espaços públicos da capital. “Penso que, como disseram aqui, os espaços de Brasília são de todos, com todos, para todos. Que a gente tenha um carnaval de muita diversidade e respeito”.
Com quatro edições no currículo, o estudante Alasca Ricarte, 23 anos, apostou em uma fantasia que une o mito grego de Dionisus à bandeira da bissexualidade. Para ele, o carnaval é momento de autenticidade. “O que mais agrada aqui é isso: ser livre como quero, ser aceito e aceitar a todos como todos são”, afirmou.
O estudante de design da UnB avaliou que há avanços na aceitação das diferenças, “ainda que haja forças atuando sempre no sentido inverso”. Ele observou que a capital federal é palco de disputas sobre o uso dos espaços públicos. “A cidade é um verdadeiro palco de disputas por espaço, entre habitantes com ideais diferentes sobre o uso do espaço. Percebo que, quanto mais tenso o embate, mais difícil é o debate sobre aceitação. O que garante os avanços é exatamente a nossa resistência. As pessoas têm de entender que, mesmo sendo um quadrado pequeno, Brasília é para todos”, argumentou.
Carnaval com respeito à liberdade
A estudante Ana Luíza, 25 anos, também buscou no bloco um ambiente mais seguro. “Ví muito, em outros blocos, mulheres sendo desrespeitadas por homens. A meu ver, carnaval, para ser bom, tem de ser curtido com respeito à liberdade”, declarou.
Ela explicou a escolha pela festa. “Vim aqui porque gosto desse ambiente de aceitação, e aceitação significa, também, segurança. Este é um bloco mais tranquilo, que tem como lema o amor e o convívio entre pessoas que buscam a alegria do carnaval”, disse à Agência Brasil.
Acompanhado da esposa e da filha de 7 anos, Ricardo Maurício, 41, afirmou que a participação também tem caráter educativo. “Sempre trabalhei esse tema da diversidade com a minha família, até porque temos uma família diversa”, relatou.
Para ele, o contato com diferentes realidades fortalece valores de respeito. “Respeitamos diferenças e vivemos na diversidade de um mundo que é grande e diverso. Quero que minha filha saiba disso, e que compreenda a riqueza das diferenças. Ela está acostumada com isso, até porque convive com casais gays e trans. Para ela, a diversidade já é algo trivial”, completou.


