Violência contra crianças e adolescentes mais que dobra no Brasil em seis anos
Levantamento foi feito pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina com dados do Ministério da Saúde
247 - A violência infantil mais que dobrou no Brasil em seis anos, aponta levantamento da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) com dados do Ministério da Saúde. As notificações envolvendo crianças e adolescentes de 0 a 18 anos passaram de 73.635 em 2020 para 165.413 em 2025, uma alta de 125%.
As informações foram divulgadas pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo. A análise da SPDM utilizou registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), base do Ministério da Saúde que reúne ocorrências de doenças e violências identificadas pelos serviços de saúde em todo o país.
Ao todo, o levantamento contabilizou 685.529 notificações de violência contra crianças e adolescentes entre 2020 e 2025. O avanço ocorreu em todas as regiões brasileiras, mas foi mais intenso no Nordeste, onde a variação chegou a 1.200%. Em seguida aparecem Norte, com alta de 809%; Centro-Oeste, com 508%; Sul, com 421%; e Sudeste, com 221%.
Para o presidente da SPDM, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, o crescimento das notificações pode refletir, em parte, uma melhora na capacidade dos serviços de saúde e da rede de proteção em identificar os casos. Ainda assim, ele avalia que os números revelam a permanência de um quadro grave.
Segundo Laranjeira, o volume de registros mostra "que a violência contra crianças e adolescentes permanece como um problema grave e persistente no país" e demanda políticas de prevenção, acolhimento e proteção às vítimas.
A violência sexual aparece como o tipo mais frequente nas notificações, presente em 34% dos registros analisados. Casos de negligência e abandono representam 33,3%, enquanto a violência física corresponde a 32,9% das ocorrências.
A adolescência concentra a maior parcela dos casos. Foram 294 mil notificações nessa faixa etária, o equivalente a 43% do total. A primeira infância, que reúne crianças de até 6 anos, aparece em seguida, com 256,6 mil registros, ou 37%. Já a segunda infância, entre 7 e 12 anos incompletos, responde por 135 mil notificações, 20% do total.
O levantamento também aponta que meninas e adolescentes do sexo feminino são maioria entre as vítimas, representando 62% dos casos. Meninos aparecem em 38% das notificações.
A análise por raça e cor mostra que quase metade das crianças e adolescentes envolvidos nas ocorrências foi classificada como parda, grupo que representa 49,1% dos registros. Crianças e adolescentes brancos somam 35,7%, enquanto negros aparecem em 7,6% das notificações.
Outro ponto destacado pelo estudo é a predominância do ambiente familiar como cenário da violência. A mãe aparece como autora da agressão em 34% das notificações, enquanto o pai está envolvido em 26% dos registros. Para a SPDM, esse dado reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à prevenção e à proteção dentro dos núcleos domésticos.
"Quando uma criança ou adolescente é vítima de violência, os impactos podem ultrapassar o momento da agressão e se estender por toda a vida. Por isso, é fundamental fortalecer a atuação integrada entre saúde, assistência social, educação e sistema de justiça", afirma Ronaldo Laranjeira.
Os dados indicam que a ampliação da rede de identificação e notificação é importante, mas também expõem a dimensão persistente da violência contra crianças e adolescentes no país, especialmente em contextos familiares e domésticos.



