China faz crítica severa a tentativa do Japão de justificar remilitarização
China afirma que o Japão busca justificar remilitarização após proposta do PLD para revisar documentos de segurança e ampliar apoio à indústria militar
247 - A China acusou o Japão de usar a revisão de documentos estratégicos de segurança para justificar uma nova etapa de remilitarização, em meio a uma proposta do Partido Liberal Democrático (PLD) que prevê ampliar o apoio institucional à indústria militar japonesa, fortalecer gastos em defesa e expandir a transferência de equipamentos militares. As informações são do Global Times.
Segundo a reportagem do Global Times, a reação chinesa ocorreu após o PLD, partido governista japonês, adotar uma proposta preliminar relacionada à revisão dos três principais documentos de segurança do país. Para Pequim, o movimento busca retratar as atividades militares chinesas como ameaça, influenciar a opinião pública japonesa e internacional e abrir caminho para a aceleração do fortalecimento militar do Japão.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, afirmou em coletiva de imprensa que a proposta japonesa reforça sinais de que setores políticos do país tentam romper limites estabelecidos no pós-guerra e avançar em uma agenda de expansão militar. Segundo ele, o texto “critica e difama indiscriminadamente as atividades militares normais da China” e tenta “enganar o público japonês e a comunidade internacional” para justificar a remilitarização.
Lin também advertiu que a proposta busca inserir a expansão militar e a prontidão para a guerra nas instituições nacionais, na infraestrutura econômica e na opinião pública japonesa. Para o porta-voz, esse processo ameaça restrições impostas pela Constituição do Japão, pelo direito internacional e pela legislação interna do próprio país.
“Essa trajetória está se tornando mais acentuada e representa um perigo real. A comunidade internacional precisa permanecer altamente vigilante e impedir que isso aconteça”, disse Lin Jian.
Proposta prevê reforço militar e maior apoio à indústria de defesa
De acordo com o jornal japonês Yomiuri Shimbun, citado pela reportagem, a proposta preliminar do PLD prevê um fortalecimento sem precedentes do apoio institucional à indústria militar japonesa. O texto também se conecta à revisão dos três principais documentos de segurança do país, prevista para ser formalizada pelo governo ainda este ano.
O Mainichi Shimbun informou que, além de defender um orçamento militar mais elevado, o projeto pede que o Japão demonstre de forma clara sua “vontade nacional” de fortalecer a autodefesa. A expectativa é que o PLD apresente suas recomendações à primeira-ministra Sanae Takaichi ainda neste mês.
O governo japonês pretende considerar também as recomendações de um painel de especialistas, previsto para o outono no Hemisfério Norte, antes de aprovar formalmente um novo conjunto de documentos de segurança em reunião de gabinete marcada para dezembro. Segundo o Mainichi Shimbun, uma expansão adicional dos gastos com defesa pode aumentar os encargos financeiros para a população japonesa.
Livro Branco de Defesa deve citar crescimento militar da China
Além da revisão dos documentos estratégicos, o governo japonês também deve publicar o Livro Branco da Defesa de 2026. Segundo o Yomiuri Shimbun, o documento deve afirmar que o Japão “fortalecerá a cooperação com aliados e países com interesses semelhantes e aprimorará as capacidades de dissuasão e resposta” diante do que descreve como rápido crescimento do poderio militar chinês.
O documento também deve mencionar a revisão planejada dos três principais textos de segurança do Japão e detalhar medidas para fortalecer a base industrial de defesa do país. Para analistas chineses ouvidos pelo Global Times, a estratégia japonesa faz parte de um esforço contínuo para transformar a chamada “ameaça chinesa” em justificativa para ampliar capacidades militares e flexibilizar restrições estabelecidas no pós-guerra.
Liu Jiangyong, professor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Tsinghua, afirmou que Tóquio tem usado essa narrativa para intensificar sua expansão militar, especialmente no campo das exportações de armas letais.
“O governo japonês tem usado a ameaça chinesa como pretexto para intensificar a expansão militar, particularmente na área de exportação de armas letais, uma tendência que deveria gerar preocupação na comunidade internacional”, disse Liu ao Global Times.
Japão estuda mecanismo para impulsionar exportações militares
O governo japonês também avalia criar uma nova organização para apoiar a indústria militar, incluindo medidas de promoção à exportação de equipamentos de defesa. Segundo o Yomiuri Shimbun, o plano poderia introduzir uma espécie de “versão japonesa de Vendas Militares Estrangeiras”, conhecida pela sigla FMS, na qual o governo atuaria como intermediário nas exportações realizadas por empresas privadas.
O Japão já concluiu acordos de exportação de armas no âmbito de seu Livro Branco de Defesa de 2025. Entre eles está a planejada exportação de destróieres da classe Mogami para a Austrália.
A ampliação das exportações militares tem provocado críticas dentro e fora do Japão. Em março, a Federação Japonesa de Associações de Advogados divulgou uma declaração contra a expansão das exportações de armas letais por meio da retirada de restrições sob a estrutura das chamadas “cinco categorias” que regulam transferências de equipamentos de defesa.
A entidade alertou que, caso as propostas do partido governista sejam implementadas, armas produzidas e exportadas pelo Japão poderiam contribuir para ampliar conflitos internacionais. A declaração também afirma que as mudanças enfraquecem o princípio de longa data de restrição às exportações de armas e corroem fundamentos da identidade pacifista japonesa, consagrados na Constituição do país.
Preocupação também atinge países vizinhos
As iniciativas japonesas também geram apreensão em países vizinhos. O Yahoo Japão já havia noticiado oposição à Parceria Abrangente e Estratégica Japão-Filipinas. Um residente filipino identificado como Mel afirmou temer que a crescente cooperação em defesa entre Japão e Filipinas envolva ainda mais Manila em estratégias militares lideradas pelos Estados Unidos e pelo Japão na região.
“A remilitarização do Japão e a expansão do papel militar das Forças de Autodefesa não são boas para a região da Ásia-Pacífico”, disse Mel.
Ele acrescentou que as memórias e consequências da Segunda Guerra Mundial continuam presentes para muitos povos da região, em um contexto no qual a expansão militar japonesa volta a ser tema de debate regional e internacional.



