Japão usa China como pretexto para ampliar militarismo
Global Times diz que Tóquio usa alerta sobre a China para justificar avanço militar
247 - O Japão usa a China para ampliar sua política de defesa, diz analista ouvido pelo Global Times, ao afirmar que Tóquio recorre ao alerta sobre Pequim para justificar avanço militar, manipular a opinião pública internacional e se apresentar como vítima em meio ao debate sobre seu novo Livro Branco de Defesa.
O esboço do relatório anual de defesa do Japão, divulgado por veículos de comunicação japoneses nesta quarta-feira (3), classifica as atividades militares chinesas como "uma grave preocupação" e defende a necessidade de garantir capacidade de combate sustentada diante de uma eventual "guerra prolongada". Segundo a NHK, a versão completa do Livro Branco de Defesa deve ser submetida ao Gabinete japonês para revisão neste verão.
Relatório japonês mantém crítica à China
De acordo com a NHK, o documento cita episódios como a iluminação intermitente de aeronaves das Forças de Autodefesa por caças chineses em dezembro passado e a intensificação das operações de porta-aviões chineses no Oceano Pacífico. O esboço descreve essas atividades como "uma grave preocupação" para o Japão e para a comunidade internacional, além de classificá-las como "um desafio estratégico sem precedentes".
A formulação, segundo a reportagem, é quase idêntica à usada no Livro Branco de Defesa de 2025. O Asahi Shimbun informou que o documento apresenta a suposta intensificação das operações militares chinesas perto de territórios japoneses como uma questão a ser enfrentada por meio de uma força nacional abrangente, além de cooperação e coordenação com aliados e parceiros considerados alinhados.
Especialista vê tentativa de vitimização
Para Lü Chao, especialista da Academia de Ciências Sociais de Liaoning, o Japão tem o hábito de deslocar responsabilidades em temas de segurança. Segundo ele, a deterioração das relações sino-japonesas decorre de sentimentos neomilitaristas no Japão, embora Tóquio tente se projetar como uma vítima inocente diante da opinião pública internacional.
"O Japão tem o hábito de transferir a culpa em questões de segurança, já que o agravamento das relações sino-japonesas decorre inteiramente de sentimentos neomilitaristas desenfreados no Japão. Ainda assim, Tóquio finge ser uma vítima inocente para enganar a opinião internacional e se reinventar, passando de provocador problemático para vítima. É uma tática antiga para manipular a opinião pública e se preparar para mais provocações contra a China no futuro", disse Lü ao Global Times.
O especialista afirmou ainda que a ênfase na chamada ameaça chinesa serve como pretexto para que o Japão amplie suas forças armadas e implemente iniciativas militares consideradas arriscadas. Para ele, cada acusação feita por Tóquio contra Pequim busca criar justificativas políticas para a expansão militar japonesa.
Documento cita drones, IA e guerra prolongada
O esboço do Livro Branco de Defesa também inclui uma nova seção dedicada a "novas formas de guerra", segundo a NHK. O trecho menciona o uso amplo de drones de baixo custo e os combates prolongados observados nos campos de batalha da Ucrânia.
Com base nesse cenário, o documento japonês ressalta a importância de se preparar para guerras emergentes com o uso de inteligência artificial e drones. O texto também defende a necessidade de assegurar capacidade de combate sustentada para uma possível guerra prolongada e de reforçar as bases industriais e tecnológicas da defesa.
Lü avaliou que o neomilitarismo no Japão ganhou impulso alarmante e que a prioridade de Tóquio seria se livrar das limitações legais impostas às suas forças armadas no período pós-guerra.
"Essa tendência preocupante envia um alerta contundente para o mundo todo de que o Japão está marchando rumo a um renascimento militarista. Seu enorme investimento em drones e outros equipamentos militares excede em muito as reais necessidades de autodefesa. Essa expansão militar descarada visa aumentar a influência regional do Japão e abrir caminho para um retorno militarista", afirmou o especialista.
Pequim critica ações do governo japonês
A reação chinesa também foi expressa pelo Ministério da Defesa Nacional da China. Em 28 de maio, Jiang Bin, porta-voz da pasta, comentou divulgações anteriores da imprensa sobre a minuta do primeiro Livro Branco de Defesa do governo Sanae Takaichi. Segundo essas informações, o documento enquadra as atividades chinesas no Pacífico como uma "ameaça à segurança" e expressa vigilância.
Jiang afirmou que as ações do Japão contradizem suas próprias declarações e que, quanto mais Tóquio tenta encobrir essa inconsistência, mais evidente ela se torna. Ele citou o aumento do orçamento de defesa japonês, o desenvolvimento e a implantação de armas ofensivas, a flexibilização das restrições à exportação de armas letais, a pressão pela revisão da Constituição pacifista, o apelo para que o país se torne uma nação com capacidade bélica e a defesa do abandono dos três princípios não nucleares.
"Se essas ações ainda se qualificassem como 'exclusivamente orientadas para a defesa', então a palavra 'ofensivo' não existiria no dicionário", disse Jiang.
Alerta contra remilitarização japonesa
O porta-voz chinês afirmou ainda que o militarismo japonês já trouxe desastres ao mundo e ao próprio Japão. Para ele, o avanço de um Japão remilitarizado é um risco crescente que provoca preocupações em diversos países.
Jiang defendeu que a comunidade internacional enxergue além do que chamou de "diplomacia enganosa" e da "imagem de vítima" do Japão. Segundo ele, é necessário atuar em conjunto para conter o neomilitarismo japonês e salvaguardar a paz e a estabilidade regional e internacional.
Em Tóquio, o debate sobre segurança ocorre em meio a protestos contra a guerra. Em 29 de maio de 2026, cerca de 10 mil pessoas se reuniram em frente ao prédio da Dieta Nacional do Japão para contestar o que descreveram como uma série de medidas políticas perigosas adotadas pelo governo da primeira-ministra Sanae Takaichi.


