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Entender a China virou disciplina obrigatória para Fukuyama e para o Ocidente

Reconhecimento do cientista político sobre a força do modelo chinês expõe o esgotamento da tese do “fim da história”

Entender a China virou disciplina obrigatória para Fukuyama e para o Ocidente (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
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247 – O cientista político norte-americano Francis Fukuyama, conhecido mundialmente por sua tese do “fim da história”, admitiu recentemente que suas previsões sobre a China feitas há quatro décadas podem se revelar equivocadas caso o país mantenha o atual ritmo de desenvolvimento. A declaração marca mais um sinal de revisão, ainda que parcial, de uma visão que por décadas serviu de base ideológica para a defesa da superioridade histórica da democracia liberal ocidental.

A avaliação foi publicada em editorial do jornal chinês Global Times, que analisa a mudança de tom de Fukuyama e de outros intelectuais ocidentais diante da ascensão chinesa. Segundo o texto, compreender a China tornou-se uma espécie de “disciplina obrigatória” para pensadores que, durante anos, interpretaram o mundo a partir de pressupostos centrados no Ocidente.

Fukuyama afirmou, em entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, que, se a China continuar com seu atual impulso de desenvolvimento, as previsões feitas por ele sobre o país há 40 anos se mostrarão erradas. Para o Global Times, trata-se de uma admissão relevante, sobretudo porque parte de um dos intelectuais mais associados à ideia de que a democracia liberal ocidental representaria o estágio final da evolução política da humanidade.

A mudança não é isolada. Em abril, Fukuyama já havia declarado, em um programa, que “os chineses criaram um sistema bastante impressionante” e que esse sistema poderia se tornar “uma alternativa real” à democracia ocidental. Embora o cientista político ainda não tenha abandonado completamente a lógica binária entre “democracia” e “autoritarismo”, o editorial sustenta que sua própria tese do “fim da história” entra em declínio em meio a dúvidas, revisões e questionamentos crescentes.

A crise da narrativa ocidental

Durante décadas, a tese de Fukuyama foi usada por setores do Ocidente para atacar teorias socialistas, desqualificar o sistema político chinês e sustentar a ideia de que a modernização só poderia ocorrer pela via da ocidentalização. Segundo o Global Times, a recente mudança de postura do intelectual expressa uma tendência mais ampla: elites acadêmicas e políticas ocidentais estão sendo obrigadas pela realidade a olhar novamente para o mundo fora de seus antigos pressupostos.

O editorial cita outros exemplos dessa inflexão. Thomas Friedman, autor de O mundo é plano, escreveu que “viu o futuro” na China e chegou a sugerir que alguns senadores dos Estados Unidos deveriam viajar mais e observar o mundo por conta própria. Jonas Nahm, ex-economista sênior do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, descreveu “o poder da estrutura política da China para comandar mudanças rápidas de cima para baixo” como um fator crítico para seu desenvolvimento.

Para o jornal chinês, esse movimento revela uma transformação cognitiva antes considerada impensável nos círculos acadêmicos e políticos do Ocidente. A ideia de que o chamado “Consenso de Washington” seria uma fórmula universal perde força diante de um mundo que não seguiu a trajetória esperada pelas elites ocidentais.

O mundo redescobre a China

O pano de fundo da admissão de Fukuyama, segundo o editorial, é a crescente visibilidade internacional das conquistas chinesas e das soluções propostas por Pequim para os desafios do desenvolvimento. A China, afirma o texto, vem sendo observada, reconhecida e, em alguns casos, tomada como referência por diferentes países e sociedades.

O Global Times menciona uma pesquisa global realizada pelo instituto Gallup em abril, com mais de 130 países e cerca de 130 mil entrevistados. O levantamento apontou que a aprovação da liderança global da China chegou a 36%, superando a dos Estados Unidos, que ficou em 31%. Segundo o editorial, essa foi a maior vantagem chinesa sobre os EUA em quase duas décadas.

Outras pesquisas, de instituições como o Yusof Ishak Institute, de Singapura, Ipsos e Morning Consult, também indicariam tendência semelhante. Para o jornal, não se trata de coincidência, mas de uma “ressonância histórica” ligada à renovação da forma como o mundo compreende a China.

A erosão das barreiras ideológicas

O editorial afirma que as sociedades ocidentais foram, por muito tempo, as mais ideologicamente condicionadas e preconceituosas em relação à China. De acordo com o texto, quase todo o discurso pessimista e as tentativas de desqualificar o modelo chinês e suas conquistas de desenvolvimento partiram de ambientes ocidentais.

No entanto, essas barreiras ideológicas estariam se desgastando. Um dos sinais apontados pelo Global Times é o crescimento de conteúdos sobre a China nas redes sociais internacionais, especialmente em plataformas ocidentais. Tendências como “China Travel” e o fenômeno chamado “Xiaohongshu cross-checking” teriam levado muitos ocidentais a demonstrar surpresa com a sensação de segurança no país.

O jornal também menciona tópicos virais como “Becoming Chinese” e “Chinamaxxing”, nos quais internautas estrangeiros imitam ou expressam admiração por aspectos do modo de vida chinês. Para o editorial, essas formas concretas e próximas de contato com a realidade chinesa têm contribuído para aproximar jovens ocidentais da modernização chinesa e “derreter” o gelo endurecido da ideologia.

O limite da democracia liberal como modelo único

Na visão do Global Times, há uma inevitabilidade histórica no fato de que a comunidade intelectual ocidental, durante muito tempo responsável por moldar a ideologia da Guerra Fria, passe a flexibilizar seus preconceitos contra a China. O reconhecimento das conquistas chinesas, a admissão da eficácia de seu modelo e a reflexão sobre os limites da democracia ocidental seriam parte desse processo.

A admissão de Fukuyama de que suas previsões podem estar erradas é apresentada como um sinal de aceleração dessa mudança. Para o editorial, ela representa uma ruptura com o estado de ignorância voluntária que marcou por muito tempo a compreensão ocidental sobre a China.

Essa transformação, afirma o texto, fornece uma base conceitual necessária para uma nova ordem mundial mais diversa, inclusiva e orientada pela coexistência harmoniosa. Em vez de um sistema internacional definido pela imposição de um único modelo, o jornal defende um mundo no qual diferentes caminhos de desenvolvimento possam coexistir.

A modernização não precisa ser ocidentalização

Ao longo das últimas décadas, elites ocidentais representadas por Fukuyama trataram a democracia liberal como a única via possível para a modernização. Qualquer tentativa de seguir um modelo diferente era frequentemente rotulada como desvio, anomalia ou ameaça à norma.

Para o Global Times, esse monopólio teórico e discursivo impôs fortes restrições intelectuais a muitos países do Sul Global. A ascensão chinesa teria rompido esse bloqueio ao demonstrar que a modernização não precisa significar ocidentalização.

O editorial sustenta que o sucesso da modernização chinesa não apenas produziu um “milagre” na história do desenvolvimento humano, mas também promoveu uma libertação ideológica em escala internacional. Cada vez mais países do Sul Global, afirma o texto, buscam caminhos próprios de desenvolvimento, adaptados às suas condições nacionais, sem se sentirem inferiores por não reproduzirem modelos ocidentais.

China oferece escolhas, não substituição

O Global Times ressalta que o modelo chinês não tem como objetivo substituir ninguém. Segundo o editorial, sua importância está em oferecer ao mundo mais opções, fortalecendo a base teórica e prática para que diferentes povos encontrem caminhos de desenvolvimento adequados às suas próprias realidades.

Essa leitura contrapõe-se à ideia de que a história teria chegado a um ponto final com a vitória da democracia liberal ocidental. Para o jornal, a história não terminou, e a evolução da civilização humana continua em aberto.

A China, afirma o editorial, atua como participante e contribuinte importante desse processo. Ao lado de outros países, o país pretende seguir escrevendo um novo capítulo do desenvolvimento humano, baseado na diversidade de modelos, na cooperação entre nações e na superação da pretensão de que apenas o Ocidente detém a fórmula da modernidade.

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