Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Como o BRICS está construindo uma nova arquitetura global de saúde

Como o BRICS cria produtos médicos essenciais, tornando as mais recentes tecnologias acessíveis aos países do Sul Global? O que impede esse avanço?

BRICS (Foto: Ricardo Stuckert)
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247 - A cooperação entre os países do BRICS na área da saúde tem produzido chamativos resultados nos últimos anos. Especialistas destacam, por exemplo, os avanços no combate a vírus. Em março de 2022, foi criado o Centro do BRICS de Pesquisa e Desenvolvimento de Vacinas, e estão em andamento desenvolvimentos conjuntos de vacinas contra as febres tropicais Marburg, Lassa e do Nilo Ocidental. Existe também uma rede de pesquisa do BRICS sobre tuberculose. O intercâmbio de tecnologias médicas avança ativamente. Por iniciativa da Rússia, em 2023 foi criado um Grupo de Trabalho Especial dos países do BRICS dedicado à criação e produção de fármacos radiológicos inovadores. Além disso, funciona no âmbito do grupo uma plataforma de especialistas: a Coalização da Saúde. 

A reportagem é da TV BRICS

"Hoje, a interação dos países do BRICS na produção de tecnologias médicas já não se resume a memorandos diplomáticos; é um sistema que realmente funciona. Seu alicerce é a compreensão compartilhada de que produtos médicos essenciais, desde simples insumos até equipamentos de diagnóstico sofisticados, não podem depender das tempestades geopolíticas. Os membros do grupo buscam criar seu próprio circuito interno confiável e, é preciso dizer, estão conseguindo aos poucos", afirmou Margarita Isaakova, especialista em diplomacia acadêmica e científica, exportação da educação russa, cooperação internacional em saúde e pesquisa médica internacional.

As questões de cooperação em tecnologias médicas têm importância estratégica para o BRICS. O intercâmbio de experiências, tecnologias e recursos humanos e científicos permite não apenas construir um circuito independente, mas também avançar mais rapidamente nas áreas mais promissoras. Entre elas, os especialistas apontam: tecnologias celulares, medicina personalizada, medicina nuclear e combate à resistência antimicrobiana. Cada país é capaz de contribuir significativamente com os desenvolvimentos conjuntos.

"China e Índia têm forte capacidade produtiva e industrial, Brasil com tradição em sistemas públicos de saúde [SUS] e produção via laboratórios públicos", afirma em entrevista à TV BRICS a pesquisadora em saúde digital no SUS e mestre em gestão do cuidado em enfermagem, Vitória Davi Marzola. 

A Rússia, por sua vez, é tradicionalmente forte em medicina nuclear e radiofarmacêutica. Além disso, a Índia é líder mundial reconhecida na produção de medicamentos genéricos e biossimilares acessíveis, enquanto a China se destaca em softwares médicos e sistemas de inteligência artificial. O Brasil conta com uma sólida escola de engenharia de equipamentos médicos, e a África do Sul funciona como uma ponte natural para o continente africano, com boa infraestrutura clínica.

Os demais membros do BRICS também são capazes de contribuir significativamente para o desenvolvimento de tecnologias médicas. Os Emirados Árabes Unidos investem ativamente em saúde digital e infraestrutura médica; o Irã possui competências sólidas na produção de medicamentos e biotecnologia; o Egito desenvolve ativamente sua indústria farmacêutica e consolida sua posição como um dos principais produtores de medicamentos na África e no Oriente Médio; e a Etiópia e a Indonésia representam mercados importantes para a implementação de soluções médicas acessíveis e a expansão de programas de saúde pública.

Os países do BRICS não apenas colaboram na área de tecnologias médicas, seu principal objetivo é criar cadeias logísticas sustentáveis para ampliar o acesso a cuidados de alta tecnologia. Cada vez mais, fala-se na construção de uma arquitetura unificada de saúde do BRICS, que se manifesta também no desenvolvimento da cooperação industrial.

"Aqui, os países do BRICS estão passando da simples troca comercial para uma parceria tecnológica real. Já foram lançados mecanismos que permitem desenvolver uma molécula em um país, sintetizá-la em outro, embalá-la em um terceiro e registrá-la simultaneamente em várias jurisdições. Isso é transferência de tecnologia de ciclo completo", observa Isaakova.

Os países do BRICS trabalham atualmente na harmonização dos requisitos de qualidade e segurança de medicamentos, construindo passo a passo um espaço regulatório comum, algo essencial para que os resultados de pesquisas realizadas em um país sejam reconhecidos nos demais.

Nos últimos anos, segundo especialistas, ocorreram reuniões marcantes entre os órgãos reguladores dos países do BRICS, nas quais foram discutidos mecanismos de reconhecimento mútuo acelerado de dados clínicos.

Atualmente, estão sendo definidas abordagens comuns para a elaboração de dossiês de registro e inspeções de unidades produtivas. Antes, como aponta Isaakova, esse tipo de harmonização levava décadas; agora, o processo foi significativamente acelerado, permitindo que os países do BRICS atuem na fronteira das tecnologias médicas.

Biossimilares de anticorpos monoclonais

Há mais de dez anos, especialistas começaram a falar sobre o início da era dos biossimilares de anticorpos monoclonais (AcM) em oncologia. Os avanços da biologia molecular permitiram identificar os alvos mais sensíveis dos tumores dos tecidos linfático e hematopoiético, o que serviu de base para o desenvolvimento de medicamentos de nova geração: os fármacos baseados em anticorpos monoclonais. Trata-se de proteínas inteligentes, criadas em laboratório, que funcionam como mísseis de precisão ou marcadores direcionados para o sistema imunológico.

Os AcM localizam uma célula doente específica, ligam-se a ela e a destroem diretamente ou a marcam para destruição pelas células imunes do organismo, atuando como uma espécie de "força especial" do sistema imune. Os AcM são eficazes tanto no tratamento do câncer quanto de artrite grave e esclerose múltipla.

No entanto, no início, a produção desses medicamentos complexos era muito cara. Já naquela época, empresas farmacêuticas ao redor do mundo passaram a iniciar processos de desenvolvimento de cópias biológicas dos AcM, os biossimilares, capazes de reduzir significativamente os custos para governos e pacientes no acesso a tratamentos eficazes e seguros.

Hoje, no âmbito do BRICS, desenvolve-se ativamente a cooperação entre a Rússia e a Índia na área de biossimilares de anticorpos monoclonais. Estima-se que, em um futuro próximo, seu custo possa cair várias vezes, tornando o tratamento mais acessível a parcelas muito mais amplas da população, afirma Isaakova.

Radioisótopos

Outra área apontada pelos especialistas como das mais promissoras e de crescimento mais rápido na cooperação do BRICS é a medicina nuclear. Em especial, a produção de radioisótopos, campo no qual a Rússia, com sua desenvolvida infraestrutura atômica, ocupa uma das posições de liderança, fornecendo uma parcela significativa dos suprimentos dentro da associação.

Radioisótopos são substâncias radioativas introduzidas no organismo para localizar doenças, como o câncer, ou tratá-las de dentro para fora. São "balizas" microscópicas ou "bombas de precisão" utilizadas, entre outras aplicações, no diagnóstico por PET (tomografia por emissão de pósitrons) — um método avançado de imagem médica por radionuclídeos.

O avanço da cooperação do BRICS em medicina nuclear se dá por meio da plataforma de energia nuclear dos países do bloco e seus parceiros, iniciativa voltada à criação de um espaço tecnológico e estratégico unificado para o desenvolvimento da energia nuclear, incluindo as tecnologias médicas nucleares, dentro do grupo.

"Alguns países transferem tecnologias, outros fornecem equipamentos, outros ainda organizam ciclos produtivos locais", diz Margarita Isaakova. "Assim, a principal conquista talvez seja a criação de uma esteira científico-produtiva capaz de transformar uma ideia de laboratório em produto em série dentro do bloco, contornando as antigas barreiras".

"A principal conquista não é apenas um produto específico, mas sim a criação de capacidades produtivas e tecnológicas compartilhadas. Ou seja [...] a maior conquista é a construção de uma base estruturante para soberania sanitária; a criação de condições para transferência de tecnologia e desenvolvimento conjunto", compartilha Vitória Davi Marzola.

Principais desafios e perspectivas

Os especialistas, porém, falam não apenas sobre avanços médicos e tecnológicos conjuntos, mas também sobre as dificuldades que ainda precisam ser superadas. Vitória Davi Marzola as divide em vários grupos:

  • Problemas regulatórios: as diferenças entre os órgãos de saúde dificultam a harmonização e a aprovação conjunta de tecnologias.
  • Questões de propriedade intelectual: as barreiras relacionadas a patentes ainda limitam o intercâmbio pleno de tecnologias.
  • Assimetria tecnológicas e econômicas: há desigualdades significativas entre os países em termos de capacidade de inovação e infraestrutura.
  • Integração produtiva limitada: os países do BRICS ainda apresentam baixo grau de integração nas cadeias globais de valor.

Como outros dois obstáculos relevantes à cooperação do BRICS em tecnologias médicas, Margarita Isaakova menciona o problema logístico do "último quilômetro" e, curiosamente, a barreira do idioma. Isso porque produtos biológicos, produtos celulares e muitas vacinas exigem o cumprimento rigoroso da cadeia de frio, às vezes a até -70°C.

Os países do BRICS abrangem enormes territórios com infraestrutura de difícil acesso: zonas rurais da Índia, regiões da Amazônia no Brasil, áreas remotas da África do Sul, da Etiópia e da Indonésia. A cadeia de frio frequentemente se rompe no último quilômetro.

"Por mais que se invista na produção conjunta, se o produto final se deteriora durante a entrega, tudo é em vão. São necessários investimentos coordenados em polos de refrigeração e transporte especializado", afirma Margarita Isaakova.

Apesar dos inúmeros desafios, os especialistas olham para a cooperação do grupo na área de tecnologias médicas com otimismo e chegam a enxergar o BRICS como um dos potenciais centros globais de produção de tecnologias médicas.

"É possível que o BRICS se consolide como um polo estratégico global na produção de tecnologias em saúde, contribuindo para ampliar o acesso, reduzir desigualdades e fortalecer a segurança sanitária internacional", diz Vitória Davi Marzola.

Para o desenvolvimento tecnológico, não bastará apenas aumentar os volumes, serão necessárias mudanças estruturais qualitativas: maior integração regulatória e desenvolvimento conjunto de equipamentos de alta tecnologia e diagnóstico.

Em breve, os especialistas esperam o surgimento de joint ventures entre os Estados do BRICS, que reunirão o melhor de cada país: potentes fontes de radiação da Rússia, eletrônica e software da China, insumos acessíveis da Índia, competências biotecnológicas do Irã e capacidade de investimento dos Emirados Árabes Unidos.

Outra área promissora de cooperação, na visão de Isaakova, é a bioimpressão e a medicina regenerativa. Já estão em andamento pesquisas ativas para a criação de implantes personalizados a partir das próprias células do paciente. Em pouco tempo, segundo previsões de especialistas, poderão surgir nos países do BRICS instalações capazes de imprimir tecido cartilaginoso e ósseo e, posteriormente, estruturas ainda mais complexas. Isso representará uma verdadeira revolução na ortopedia e na cirurgia bucomaxilofacial.

A conquista mais importante e significativa da cooperação do BRICS na área da saúde, porém, poderá ser a redução de custos e, consequentemente, a ampliação do acesso às mais recentes tecnologias médicas, não apenas para os 40% da humanidade que habitam os países do BRICS, mas para todo o Sul Global.

Este artigo foi elaborado por Svetlana Khristoforova.

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