Novo plano quinquenal da China levará em conta pressões tecnológicas, mudanças demográficas e ordem global instável
Como observou o estudioso britânico Martin Jacques, o plano quinquenal ressoa com uma cultura política que prioriza o pensamento de longo prazo
247 - Quando os legisladores e conselheiros políticos nacionais da China se reunirem em Pequim para as anuais "Duas Sessões", um documento se destacará: o esboço do 15º Plano Quinquenal, o blueprint que guiará a segunda maior economia do mundo de 2026 a 2030, informa reportagem do Global Times nesta quarta-feira (4).
Os planos quinquenais sempre foram centrais para a forma como a China conduz seu desenvolvimento. O próximo plano, porém, é acompanhado de perto não apenas por suas ambições econômicas, mas pela forma como um país de 1,4 bilhão de pessoas avança rumo à modernização em meio a disrupções tecnológicas, mudanças demográficas e uma ordem global cada vez mais fragmentada.
O novo plano está ancorado nas recomendações adotadas pelo Comitê Central do Partido Comunista da China em outubro de 2025, e foi concebido para se alinhar à visão de longo prazo de alcançar, até 2035, avanços significativos em força econômica, capacidade tecnológica, defesa nacional e influência global — ao mesmo tempo em que eleva o padrão de vida ao nível das economias desenvolvidas de médio porte.
A participação popular foi parte integrante do processo de elaboração. O exemplo mais expressivo foi a consulta pública online realizada no ano passado, com duração de um mês, que reuniu mais de 3,11 milhões de contribuições. As autoridades afirmaram que essas contribuições foram analisadas e incorporadas à formulação do plano — uma ilustração prática da democracia popular de processo integral da China.
O primeiro plano quinquenal da China, lançado no início dos anos 1950, surgiu quando o país ainda era predominantemente rural e distante da industrialização. Ao lançar agora seu 15º plano, o objetivo central permanece inalterado: construir um país socialista moderno.
Ao longo desse percurso, a China ergueu um dos sistemas industriais mais completos do mundo, eliminou a pobreza absoluta, desenvolveu uma economia de 140 trilhões de yuans (cerca de 20,2 trilhões de dólares) e se consolidou como parceira comercial de mais de 150 países e regiões.
Embora originários da era da economia planificada, os planos quinquenais evoluíram para um instrumento eficaz que articula mercado e governo na gestão macroeconômica. Esses planos estabelecem objetivos de médio e longo prazo, definem prioridades estratégicas e traçam diretrizes que orientam o desenvolvimento nacional. Na prática, o mercado exerce papel decisivo, enquanto o governo responde pela coordenação e orientação.
No livro "China's Megatrends", o estudioso americano John Naisbitt descreveu a abordagem chinesa de planejamento como "framing the forest and letting the trees grow" — destacando como os planos fixam prioridades nacionais amplas enquanto concedem a setores e empresas a liberdade de se desenvolverem a seu próprio modo.
Essa dinâmica produziu pontos fortes distintivos no sistema chinês de planejamento de médio e longo prazo. O mais visível talvez seja sua capacidade de mobilizar recursos em torno das grandes prioridades nacionais — algo especialmente relevante para um país de vasto território e significativas disparidades regionais, onde autoridades locais e ministérios poderiam perseguir objetivos conflitantes. Os planos quinquenais oferecem um roteiro comum para decisões de política, investimento e planejamento em todos os setores e regiões.
A campanha de erradicação da pobreza extrema é um exemplo concreto dessa coordenação nacional em ação. O 13º Plano Quinquenal (2016-2020) estabeleceu uma meta clara com prazo definido: todos os moradores rurais abaixo da linha de pobreza seriam retirados dessa condição. Para isso, delineou um detalhado arcabouço de implementação: monitoramento contínuo para identificar e apoiar famílias vulneráveis, mobilização do setor estatal para prestar assistência e pesados investimentos em estradas, habitação e infraestrutura em regiões remotas. Mais de 3 milhões de funcionários foram enviados a aldeias para traduzir as metas nacionais em ações concretas no terreno.
Analistas afirmam que uma ação dessa escala e coordenação teria sido difícil sem uma liderança política centralizada capaz de definir prioridades, mobilizar recursos e garantir a implementação em múltiplas esferas de governo.
O sistema de planejamento também se distingue pela capacidade de antecipação. Em muitos países, questões de horizonte mais longo — como envelhecimento populacional, transição energética e atualização industrial — são frequentemente preteridas pela política eleitoral e pelas pressões de curto prazo. Os planos quinquenais e de prazo ainda mais longo da China foram concebidos justamente para contrariar essa deriva. Na visão dos líderes chineses, é fundamental partir de um plano bem definido e de objetivos claros.
Esse foco na antecipação remete a uma longa tradição chinesa de valorização do planejamento prospectivo. Como observou o estudioso britânico Martin Jacques, o plano quinquenal ressoa com uma cultura política que prioriza o pensamento de longo prazo em detrimento do ganho imediato.
O avanço da China no campo da inteligência artificial exemplifica essa ênfase na prática. O desenvolvimento da IA foi incorporado ao planejamento nacional já no 13º Plano Quinquenal, há uma década — compromisso seguido pelo lançamento de uma estratégia dedicada à IA de próxima geração em 2017. Em 2021, a tecnologia foi novamente promovida, figurando no 14º Plano Quinquenal como uma das fronteiras prioritárias em ciência e tecnologia. As propostas para o novo plano vão ainda mais longe, defendendo uma abordagem "AI Plus" que integraria a tecnologia de forma mais profunda à economia em geral.
Em 2025, o setor de IA da China registrou crescimento acelerado: empresas corriam para desenvolver modelos de grande escala, o número de companhias do setor ultrapassou 6.000 e a indústria central foi projetada para superar 1,2 trilhão de yuans.
O mesmo vale para outras frentes. O rápido crescimento dos veículos elétricos, da energia solar, das baterias de lítio e da infraestrutura 5G também reflete o impacto do planejamento de longo prazo — especialmente em áreas que exigem investimentos iniciais elevados e visão de futuro, mas que são cruciais para sustentar a competitividade tecnológica e econômica do país.
Observadores apontam que a abordagem chinesa busca antecipar e moldar tendências emergentes antes que se consolidem, gerenciando ao mesmo tempo os riscos potenciais associados a essas transformações.
Em um cenário marcado pelo curto-prazismo e pela incerteza global, os planos quinquenais da China oferecem uma rara forma de continuidade estratégica. Mais do que roteiros de desenvolvimento, funcionam como um instrumento singular de governança.
Desde o primeiro plano, nos anos 1950, a China persegue o objetivo constante de se tornar um país moderno. As políticas evoluíram conforme as circunstâncias, mas a estratégia geral manteve-se notavelmente coerente — criando um arcabouço que permite a grandes projetos e reformas avançarem de forma consistente ao longo do tempo.
Para empresas e investidores, essa previsibilidade é fundamental. Decisões de longo prazo dependem menos de incentivos temporários do que de um ambiente de políticas antecipável. Os planos quinquenais reduzem o risco de mudanças abruptas e conferem estabilidade à economia como um todo.
Essa continuidade deverá ser reforçada por legislação, à medida que a Assembleia Popular Nacional (APN) se prepara para analisar um projeto de lei sobre planejamento do desenvolvimento nacional, voltado a trazer maior consistência à elaboração e aplicação dos planos.
Os planos quinquenais da China são formulados por meio de um processo cuidadosamente estruturado em múltiplas etapas: as recomendações partem das sessões plenárias do Partido, seguidas de um esboço preparado pelo Conselho de Estado e, por fim, revisado e aprovado pela APN antes de ser divulgado. Uma vez definidas as prioridades nacionais, planos locais e setoriais as desdobram em etapas concretas para garantir sua efetiva implementação.
Analistas afirmam que o sistema de planejamento revela como as instituições chinesas sustentam a continuidade das políticas e executam iniciativas complexas com eficácia — mesmo em um ambiente global em rápida transformação.
"Os planos quinquenais da China são um sistema plenamente integrado para transformar objetivos em realidade", afirmou Dong Yu, vice-diretor executivo do Instituto de Planejamento do Desenvolvimento da China da Universidade Tsinghua.


