Relação China-Reino Unido deve ser vista além do eixo bilateral, defende Global Times em editorial
Editorial aponta visita de Keir Starmer à China como sinal de pragmatismo diplomático e mudança de postura britânica diante do cenário internacional
247 - A visita oficial do primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, à China, a primeira de um chefe de governo britânico ao país em oito anos, é interpretada como um marco relevante para a reconfiguração das relações sino-britânicas e para uma leitura mais ampla da política internacional. A viagem ocorre entre quarta-feira (28) e sábado (31) e conta com uma expressiva delegação empresarial, reunindo representantes de mais de 50 grandes empresas e instituições do Reino Unido, em um contexto de transformações geopolíticas e econômicas globais, segundo análise publicada pelo Global Times.
Antes do início da agenda oficial, Starmer declarou que o Reino Unido não será obrigado a “escolher entre” a China e os Estados Unidos. Para o jornal chinês, a afirmação reflete uma postura mais racional da diplomacia britânica e evidencia o enfraquecimento de estratégias baseadas em alianças rígidas e confrontos de blocos, inclusive dentro do próprio Ocidente.
De acordo com o Global Times, embora as declarações do premiê tenham causado surpresa, especialmente considerando a tradicional “relação especial” entre Londres e Washington, elas são vistas como coerentes diante de dois fatores centrais. O primeiro é o prolongado período de deterioração das relações entre China e Reino Unido, marcado por políticas britânicas oscilantes em relação a Pequim, que não produziram os resultados esperados. O segundo é a busca crescente de países ocidentais por maior previsibilidade nas relações externas, diante do que o editorial descreve como um comportamento “imprevisível” dos Estados Unidos.
Mesmo durante o período de maior distanciamento político, classificado no texto como uma “era glacial”, o comércio e os intercâmbios econômicos entre China e Reino Unido mantiveram trajetória de crescimento. Em 2025, a China figurou como o quarto maior parceiro comercial britânico, com um volume de trocas estimado em cerca de US$ 137 bilhões. O editorial ressalta que o mercado chinês, com mais de 1,4 bilhão de consumidores, continua sendo estratégico para empresas do Reino Unido interessadas em expandir suas operações, configurando um fator interno relevante para a retomada do diálogo bilateral.
O Global Times também destaca que, em um momento de fortes desafios à ordem internacional do pós-guerra, China e Reino Unido compartilham interesses e responsabilidades comuns. Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e grandes economias globais, os dois países teriam papel importante na defesa do multilateralismo e do sistema internacional de comércio. Passados oito anos desde a última visita de um primeiro-ministro britânico à China, o editorial sustenta que os pontos de convergência entre os dois lados tornaram-se ainda mais evidentes.
Na avaliação do jornal, a melhoria das relações sino-britânicas não se limita a benefícios bilaterais, mas contribui para a construção de um mundo multipolar. O texto reconhece que existem divergências entre Pequim e Londres, mas defende que elas podem ser tratadas por meio de diálogo racional, respeito mútuo e cooperação pragmática. O editorial alerta para discursos que amplificam diferenças específicas e as transformam em confrontos ideológicos, manifestando a expectativa de que o Reino Unido supere esse tipo de interferência negativa.
O posicionamento de Starmer é inserido em um movimento mais amplo de reavaliação no Ocidente. Segundo o Global Times, a recusa em “escolher lados” reflete uma revisão de conceitos considerados ultrapassados sobre segurança, civilização e relações internacionais. O editorial cita visitas recentes à China de líderes como o presidente francês Emmanuel Macron, o primeiro-ministro canadense Mark Carney e o premiê finlandês Petteri Orpo, além do interesse manifestado pelo chanceler alemão Friedrich Merz, como evidência de que a estratégia de ignorar ou isolar a China não se mostrou viável.
O texto afirma ainda que o envio prévio de cinco ministros britânicos à China, antes da visita oficial, demonstra a importância atribuída por Londres ao diálogo de alto nível. Para o jornal, a sinalização positiva do Reino Unido em relação a Pequim representa uma escolha racional baseada nos interesses nacionais britânicos e uma reavaliação da política externa no período pós-Brexit. O editorial sustenta que a China não representa uma ameaça à segurança do Reino Unido nem um obstáculo ao seu desenvolvimento.
Ao tratar do cenário internacional mais amplo, o Global Times cita declaração do presidente chinês Xi Jinping durante encontro com o primeiro-ministro da Finlândia, Petteri Orpo. Xi afirmou que “em um mundo confrontado por múltiplos riscos e desafios, a comunidade internacional deve unir esforços para responder” e acrescentou que grandes países devem “dar o exemplo, promover a igualdade, respeitar o Estado de direito, buscar a cooperação e preservar a integridade”. Segundo o editorial, esses princípios também se aplicam às relações entre China e Reino Unido.
O jornal conclui que, ao reconhecer diferenças, administrar divergências e aprofundar a cooperação com base no respeito mútuo e em benefícios recíprocos, China e Reino Unido podem promover um desenvolvimento estável e saudável das relações bilaterais, com impactos positivos não apenas para os dois países, mas também para a construção de uma ordem internacional mais equilibrada.



